APENAS QUESTÃO DE GOSTO
Romance

INDEX

Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8

Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17

Capítulo 12

Diz o Almanaque Abril que no dia 30 de janeiro não se comemora nenhum dia-faz-de-conta, diz o Anjos, Santos e Orações Para Todos os Dias do Ano que o anjo Nit-Haiah e os santos Hipólito, Jacinta de Mariscotti, Martinha, Peregrino, confessor, e Bertila fazem as honras do relógio, dizem os jornais que a lua crescente já tem dois dias de nascida e o dólar custa 3.511,00 cruzeiros novos, e digo eu que vida de detetive é uma merda, mesmo que se tenha uma cobertura na Tijuca, um Porsche Turbo 3000 na garagem e uma adega Ballantine’s para firmar a digestão, que nem eu tenho.

Além de não ser mole provar em Caxambu que detetive que se preza não amarela mesmo que tenha que comer mais mulher do que comida, já fazia sete dias que eu fritava continências nos centígrados e nada de ver a sombra do pinípede ranger nas dobradiças da suíte do mistério. Mas o pior ainda não era a fritura ou a sombra. Era a falta de água fresca. A nossa muito mais do que querida Florismália torrando mais o meu saco do que malha-fina da Receita Federal por só poder dramatizar o colchão da minha cama já alta madrugada.

- Mas me diga. Por quê que eu só posso vir depois das três?

- Porque eu tenho que aprontar a matéria.

- Grandes merdas.

- Grandes merdas, porque não é você que leva um pé na bunda.

Falou em bunda, já viu. O cio montava na égua e nem gelo picado dava jeito. Encostava na porta ou na parede e o dedo faiscava na ponta do meu nariz.

- Ah, não levo, não? E umazinha corrida é o quê, hem? Lua-de-mel de coelho, é?

- E se não fosse nenhuma?

Quando me contaram que um tal de Barry Goldwater, dizem que senador mais do que republicano pelo estado do Arizona e mais à direita do que a direita do Joseph Raymond MacCarthy, presidente do comitê heil-heil, processou a revista Fact Magazine, lá nos cafundós do Tio Sam, só porque 1899 psiquiatras o declararam incapaz de lavar os pés no banheiro da Casa Branca, eu não acreditei. Gente, pensa bem, ou o chulé pegava numa escala de miles à la reichsführer, ou o freudantismo da taifeirice da marinha do Tio Sam pago em dólar não entendia lhufas do gumex (dura lex sed lex, no cabelo só gumex) com que o presidente Lyndon Johnson pregava o seridó na moleira da gaforinha. Por isso eu admiro o telegrafismo do Brasil. Para quê 1899 opiniões, se uma só à la manda quem pode, obedece quem não tem farda, resolve o problema?

- Nenhuma? Quer, não?

Não sei se era o nenhuma ou a vírgula, nunca perguntei, que nunca deu tempo, mas sempre que os pontos de interrogação pintavam nos centígrados, não precisava nem aviso. A fúria do dramatismo desencostava da porta ou da parede, enfrentava o espelho da cômoda que nem os pianíssimos acordes do violão do Villa-Lobos enfrentavam o 15º tratamento do Ximu e finis.

- Vem.

Aí é que eu entendia por quê que aqueles tais de Gago Coutinho e Sacadura Cabral tinham ganho o Sweepstake das Gaivotas por três bicos e duas asas. Velocidade.

- Vem você.

A manteiga das grandes merdas fundia que nem cuca de coitado confessando comunices em convento militar e era ver o dramatismo entrar em função de. E com o de turbinando todos os motores, nem as cento e quatro funções, diretas e indiretas, do verbete do Dicionário do Aurélio fariam o vice-presidente Aureliano Chaves abrir conta no Banco Democrático. Por isso eu gostava da função daquele de. Se na hora de turbinar os motores o vice-presidente fazia de conta que a caixa de água do Brasil já botava mais do que democracia pelo bico do ladrão, também na hora do vamos conferir não tinha pé na bunda capaz de macular o frenesi.

Não é por nada, não, mas já pensou o tanto de vai-que-vai que precisa para desmacular um frenesi? Quem apostou na Garganta Profunda da Linda Lovelace, já viu. Pagou o mico do maior placê e olhe lá. Até na versão mais heavy do XXX-RATED os sessenta e dois minutos do gargarejo não passam de vai-que-vai de escola dominical. Vai-que-vai que se preza faz que nem o da cena mais dramática. Mete o pé na bunda das grandes merdas e dá de graça o que a garganta da Linda cobra por segundo.

Mas nem tudo era céu de brigadeiro no frenesi daquele vem. Era o carro do vou morrer, vou morrer, parar e descarregar os orgasmos na Praça da Apoteose, e logo a lua-de-mel à la coelho metia o tapete em cima da sujeira e recarregava as baterias da lanterna.

- Mas me diga. Por quê que eu só posso vir depois das três?

Fazer o quê? Enxofrar o vai-que-vai de pó-de-mico mucuna pruriens com garantia total, que nem o Geraldo Vandré fez com a milicada naquela missa cantada, vem, vamos embora / que esperar não é saber / quem sabe faz o hora / não espera acontecer, ou botar papel carbono no angu?

- Eu já falei. Tenho que aprontar a maté...

Só diz que o pior cego é aquele que não quer ver quem nunca viu um dramatismo completo da nossa umazinha corrida. Foi o t bater no é, que não deu outra. O frenesi frenesou, frenesou, e já viu. O abre-alas vem, vem, correu a mil e foi aquilo que eu já disse. Não é mole ser detetive e ter que comer mais mulher do que comida. Mas não era só o mingau do dramatismo. Talvez o pior fosse até o papel carbono do angu. Pensa bem. Como é que eu podia contar à cena mais dramática que o Adauto Simplício só catava milho porque uma tal de Lassie à la Nunca Fui Santa desconfiava que em Caxambu alguém conjugava em outro frasco o nº 5 do seu Chanel? De jeito maneira. Por isso, a nossa muito mais do que querida Florismália só dramatizava o colchão da minha cama entre as três e as quatro da matina.

Como sempre disse meu velho pai e sempre disse muito bem, sujeito competente é aquele que passa a perna na lei, mas de acordo com a própria. O pinípede não usava iscas de advogado nos anzóis nem suspensórios de juiz no charutão, mas também merecia morar no Palácio do Jaburu. Entendia mais de riscas do que matemático vitalício entendia de loterias esportivas. Afiado o último casco do Cavalo Branco à la caubói, botava as cáries na mordida do charuto, embicava o quadrado da largura na suposta direção do dramatismo do colchão da cama dele e lá ia a estátua do meu eu decorar a esquina do corredor da suíte do mistério. Mas só decorava, que nunca a menor isca do anzol pintou na penumbra do pedaço. E digo, não é mole dar uma de stand-in com os centígrados torrando o saco e os miolos, e do pinípede nem cheiro nem sabor. Quer dizer, se ele não saía do mistério da suíte, também ninguém entrava no idem. E olha que quem estava ali não era qualquer um, não. Era a estátua do meu eu, campeão de vale tudo nos meus tempos de reco na Vila Militar e investigador melhor dos mais que bons. Gente, foram cento e vinte e seis mil segundos, mais farenheit menos farenheit, que, depois de sete noites a cinco horas top secret, eu já media era a merda das horas pela cotação das ações da Cia de Cigarros Souza Cruz. Mas, o pior, é que nem miles e miles covas-fundas botavam os tops secrets nos conformes. Vida mais fodida, mesmo, só cura de águas nas termas nucleares do heil-heil de Brasília.

Algum de vocês já fez campana? Gente, pelo amor de Deus, campana não é cocô nem pecado capital, não. Pode até ser um sino, invertido ou não, ou uma luva de cano de água, mas não é cocô nem pecado capital. Nem bagulho de puxar, de cafungar ou de picar. No caso que interessa às futuras varizes da infeliz estátua do meu eu, e olha que não fui eu que inventei, não, é o ato de espionar alguém sem dar bandeira. Mas não tem nada, não, se ninguém fez. Apesar da higiene e da legalidade litúrgica do verbo campanar, se ninguém campanou, ninguém campanou e vamos comprar cigarros em outra padaria. Não é pelo fato de o Brasil ser o maior país católico apostólico romano do mundo que todo mundo vai à missa, ou é? Se fosse, o terreiro do Joãozinho da Goméia não teria crescido a metro quadrado por segundo, a nação Ketu da Mãe Menininha Do Gantois não manteria embaixadores nas cortes dos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart, dos governadores Paulo Maluf e Antônio Carlos Magalhães e de miles e miles arquiduques menos midiáticos, o Chico Xavier não teria psicografado mais de 600 livros de 400 autores desencarnados e vendido centenas de edições, e os pastores do bispo Edir Macedo e associados periféricos não fariam muito mais adeptos com o baticum dos microfones do que os padres do papa João Paulo II fazem com o sigilo-mor das confissões.

Portanto, gente, fica frio, que ninguém tem que sair da sala só porque nunca campanou. A pergunta foi apenas retórica. Que nem aquela (Tá sabendo pra quê que táqui?) que os padres confessores da catedral de Brasília faziam aos visitantes da Rua da Relação, e outras vielas dos atos de contrição dos conventos militares, antes de cobrirem os coitados de porrada e meter na conversa todas as variantes conhecidas dos argumentos baculinos. Porque, o que é importante para um futuro estudo de bem campanar qualquer hipótese, é saber que entre as muitas dificuldades da campana, meter e tirar, por exemplo, são duas ações improcedíveis. Metendo ou tirando, com ou sem doutorado, não tem veterinário que salve a vaca do brejo. Se campana metesse aquele h que muitos entendidos em gramatices e outras línguas de museu roubaram das antigas humidades e adjutórios correlatos, virava campanha, campo grande, operação militar ou qualquer outra que mexesse com vendas, propaganda e até com eleições. Se tirasse aquele na da zona do agrião e fizesse que nem síndico em reunião de condomínio, passava de muda a calada e virava campa, também chamada de pedra tumular no cemitério do Caju ou qualquer outro sete-palmos. Só que operação ou pedra não teria nada a ver com a estátua do meu eu metralhada pelos pelotões dos centígrados e seria pior a obra completa do que a emenda do soneto.

Por isso, não é mole campanar. Seja num corredor de hotel com a mangueira dos incêndios te olhando que nem consciência de presidente em troca-troca de ministros e o capim-seda do pêlo do carpete tentando mais um ronco à la morfa que nem a velha surucutinga tentou a Eva com a maçã do Paraíso, seja no vão de uma porta com a escuridão da rua te olhando que nem oco de chaminé em procedimento de limpeza e a poeira do putedo querendo forçar a mão na braguilha a dois marechais por botão ou por centímetro de zíper. E não é só a indevância do cochilo ou do tesão que faz cada minuto doer mais do que torcicolo, não. É o azar.

Eu nunca fui chegado a rezas de maus-olhados, tangolomangos, urucubacas ou outras quaisquer jetaturas de quem tem medo de sombra e só olha gato preto fotografado em negativo. E como também nunca fui sacoleiro de contrabando em terras paraguaias, também nunca o creo en las brujas, pero que las hay, las hay me fez pendurar pés de coelho no chaveiro ou secar folhas de arruda na carteira. Mas, e isso é certo, certíssimo, uma coisa é você não acampar em grafias do Além e outra é você pedalar o seu trabalho e, de repente, alguém te pegar no pedalismo.

Não é querer tirar o meu da reta e botar manguá gratuito no dos outros, não, mas num corredor de hotel tudo pode acontecer. Qualquer hóspede pode ter dor de barriga e pedir um elixir paregórico ou o primeiro daqueles dias chegar antes das urgências e a camareira de plantão te pegar na maior bandeira da paróquia. E, aí, já viu. Nem o tal do doutor Freud explicaria a democracia brasileira enterrando defunto à la continência baioneta no quintal do vizinho.

Por isso é que eu disse e não abro, mesmo não sendo chegado a carregar andor de caiporismo, depois de sete noites a cinco horas top secret, pode apostar que até campeão mundial de sumô mediria a merda das horas pela cotação das ações da Cia de Cigarros Souza Cruz. Gente, pensa bem. Para quem tinha conseguido adaptar a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart e os 212 graus farenheit da Lauren Bacall ao asfalto da Avenida Rio Branco e sempre se tinha dado bem, era ou não era a maior humilhação ser enrolado em Caxambu pela ferradura de um Cavalo Branco servido à la caubói?

Embora parecesse não ter como, a verdade, medida a palmo de São Tomé, é que tinha. E não era só o fator humilhação, que fator é assim mesmo. Pode pular até de galho que não altera nem produto interno bruto. O problema psicomotor, mais motor do que psico, é que eu já tremelicava mais do que pena de eletrencefalógrafo endurando esquizofrenias terminais. A continuar aquela provação à la paciência de Jó, não sei, não, mas os fricotes do Ximu na titanicagem do 15º tratamento não seriam nem pó de peido, comparados com os meus.

Costumava dizer meu velho pai que Deus só dava as nozes a quem tinha nogueiras no quintal. Tudo bem. Mas que fadário carregava eu, se só no meu quintal as nogueiras pariam nozes com gosto de quero mais? Se fosse apenas o ultradramatismo que a nossa muito mais do que querida Florismália chamava de umazinha corrida, ainda dava para recauchutar com vitaminas ou gemadas. Mas com o zambaísmo da nossa brilhante figurinista matando horizontes a transferidor de perspectivas, doidão por tapar o buraco da banheira japonesa se eu desse a menor canja ou cochilo, já viu. Era que nem frade dominicano fazendo penitência em convento franciscano. Só saía da cela com a vênia dos pecados mais no prumo do que pilar da ponte Rio-Niterói. Ou, então, quando o chapéu dos anzóis queria porque queria mandar ver algum grau superlativo nas maiúsculas da matéria, que o cata-milho do Adauto jurava e trejurava já ter passado de doze para vinte e sete páginas, mais fotos, legendas e outros acessórios civilistas.

Mas o pior ainda não era a mão na obra da nossa dramatista ou o transferidor do buraco do fundo da banheira japonesa. O pior, mesmo, aquele pior que piora até o piorio, era a humilhação da humilhação. Todos os dias, sem apelação, ao cantar do galo das seis e meia, a voz da Cavilinha metia mais um prego sem estopa no caixão do meu sonho de consumo de ainda pegar no farejo o frasco do Chanel.

- Madame Cavilinha, Sr. Adauto.

O sorriso da voz da stand-in da Lauren Bacall, com os 212 graus farenheit subindo nas tamancas, só não batia o cumplicismo do Ministério da Fazenda com os bancos porque eu lhe propinava a meia-calça que nem os cadeirões financeiros enchiam de cucos suíços o cocheiro da carroça financeira. Por isso é que o entendimento do espírito rodava nos mesmos trilhos da coisa. Fato, aliás, de não espantar nem camelô de país onde banqueiro manda mais do que ministro.

- Oi, Cavilinha.

- Tudo bem, Sr. Adauto?

Não tenho nada contra contrato de jogador de futebol pagar cem mil dólares por cada desta vez nós foi bem no jogo e nós ganhou, graças a Deus, afinal, democracia não só é ter eleições com voto obrigatório e político mudar de partido no exercício do mandato e cagar em cabeça de eleitor, mas fico puto quando me perguntam se está tudo bem e ambos sabemos que bem só está a puta que pariu. Mas fazer o quê, se a caneta que assinou o cheque das três milhas do sinal tinha mais ouro na tampa do que a estatueta do Oscar do Rocky Stallone tinha no peso?

- Tudo bem, Cavilinha.

- É o Dr. Jonas, Sr. Adauto. Ele quer saber se a maté...

Não é por nada, não, mas tem hora que até os cavalos mangas-largas marchadores do presidente Figueiredo estão certos: raça de povo não compara com raça de cavalo. Quando que cavalo faz greve e povo ganha sweepstakes no Jóquei?

- Cavilinha.

- Sim, Sr. Adauto.

- A matéria tá indo, viu?

- Mas tá indo bem, Sr. Adauto?

- Como Deus manda, Cavilinha. As coisas não são o que parecem, sabe como?

- Não? Mas o Dr. Jonas diz que...

Dizem que o que mais maravilhou o rei Gustavo Adolfo não foi o Brasil ter ganho da Suécia a Copa do Mundo de 1958, foi o técnico Vicente Feola dirigir a seleção brasileira dormindo no banco dos reservas. Eu nunca dormi em nenhum banco, não era rei, e muito menos um Dr. Jonas fajuto, tão fajuto que nem baleia tinha no currículo, mas aquele não mexeu mais nos meus tamancos do que os quatro a zero que os galos do Atlético Mineiro ancoraram nas caravelas do glorioso Vasco da Gama mexeram com os tamancos do velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, naquele 25 de novembro de 1976, lua nova e plantão do anjo Vassariah e dos santos Catarina de Alexandria, Tello, bispo, Moisés, padre e mártir, a mais agourenta, amarga, atroz, azarada, azarenta, aziaga, bárbara, caipora, cruel, demoníaca, desastrada, desditosa, desgraçada, desventurada, diabólica, dolorosa, fatal, funesta, horrenda, horrorosa. infausta, infeliz, infernal, lastimosa, medonha, penosa, terrível, e triste quinta-feira dos calendários gregoriano e vascaíno.

- Cavilinha, por favor, eu sou um profissional.

- O Dr. Jonas também é, Sr. Adauto.

- Mas ele nunca viu um cururu voando por aí.

- Mas já faz dias que ele voa, Sr. Adauto.

Lembra dos comícios das Diretas já!, que juntaram mais de um milhão goelas no Rio de Janeiro e em São Paulo, e nem por isso a emenda do deputado Dante de Oliveira, que previa eleições diretas para a presidente da República, foi aprovada na Câmara dos Deputados? Brasil é isto. Nada do que precisa ser feito precisa ser bem feito.

- Cururu é assim mesmo, Cavilinha. Voa, voa, mas, de repente, pousa e fim.

- Posso dizer isso ao Dr. Jonas, Sr. Adauto?

- Pode, Cavilinha, pode. A maté...

Parecia até carimbo de cartório. Era o t bater no é, que não dava outra. Ou o frenesi frenesava, ou o ponto, parágrafo, entrava em função de.

- Bom dia, Sr. Adauto. Passar bem, viu?

Por isso que eu disse, o pior, mesmo, aquele pior que piora até o piorio, não era só o tamanho dos tamancos. Era a humilhação. A humilhação da humilhação. Nas primeiras caviladas, lembra?, até a baleia do Jonas derretia mais do que manteiga. Dá um abraço nele, viu, Cavilinha? Darei, sim, Sr. Adauto. E ele vai adorar, tenho certeza. Agora era aquele passar bem viu? e olhe lá. Eu não apito nem pelada de pivete, mas estou com as epístolas de São Mora e não abro. Venha quem vier, que o riscado deve ser dado a quem entende de riscas. E, diga-se o que se disser, o vice-presidente Aureliano Chaves entende mais de riscas do que o ministro da Agricultura entende de feijão-de-frade ou xiquexique. Apesar dos pesares, mais vale ser vice de general e morar no Palácio do Jaburu, do que entrar no grito das Diretas já! e ter de suar o pão nosso da manduca.

Não é por nada, não, mas se eu tivesse um porteiro fardado na minha porta, um motorista idem no meu carro, um mordomo ibidem na minha sala de visitas e um jaburu batizando o meu palácio, vocês acham que eu me sentiria humilhado por um reles passar bem, viu? no primeiro telefonema da manhã? Mas de jeito maneira. Aliás, que idiota se atreveria a humilhar o maior entendedor de riscas da paróquia, sabendo que os jaburus criados nos conventos militares tomam café da manhã com balas dundum e almoçam a maior vontade de jantar bombas atômicas com hidrogênio à sobremesa? Mas fazer o quê, se na minha garagem só parava um Porsche Turbo 3000, na minha despensa só dormia um Ballantine’s e a minha cobertura balançava dois barrancos abaixo do Morro do Turano, lá na Rua Maestro Villa-Lobos, no bairro da Tijuca? Sem porteiro, motorista, mordomo e jaburu, ou eu dava conta do recado ou babau. E babau por babau, já viu. Depois daquelas sete noites a cinco horas top secret e sem nenhum lamiré pisar no pé do meu ouvido, a minha preocupação era justíssima. Se a Cavilinha bisasse aquele passar bem, viu?, quem me garantia que a Lassie à la Nunca Fui Santa deixaria por conta do nº 5 do Chanel o câmbio das diárias do taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar? Como sempre dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, dúvida é árbitro torcedor do Fluminense apitar um Vasco e Flamengo. Como eu só torcia por mim mesmo, quem sabe a Lassie à la Nunca Fui Santa dava uma de vamos nessa e botava o nº 5 do Chanel em função de na hora H? Afinal, sonho de consumo é bem melhor do que discurso de ministro. Pelo menos não obriga o sonhador a vestir a maior fantasia de palhaço.

 

Cunha de Leiradella no TriploV

 
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