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APENAS QUESTÃO DE GOSTO
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Capítulo 11 |
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Meu velho pai entendia de fissuras. Eliminar é que nem pular cerca de vizinho. Mesmo que ninguém grite, ninguém sabe se o pulo foi bem dado. Com as cenas mais dramáticas da nossa muito mais do que querida Florismália eliminadas no maior baticum arterial que o 15º tratamento do Ximu jamais imaginou pudessem os pianíssimos acordes suportar, com o narigão da nossa magnífica continuísta farejando imensíssimos tanajurismos na padaria da nossa perfeita secretária e com o zambaísmo da nossa brilhante figurinista boiando nos sargaços do mar das mais muitíssimo bem consumadas intenções, com quem o quadrado da largura do pinípede borrifaria de traição o conjugal dos lençóis da Lassie à la Nunca Fui Santa? Com o cavalo dos dentes da nossa fascinante maquiadora ou com o abano das orelhas da nossa famosa cabeleireira? Não é para me gabar, não, mas responder foi coisa que nunca atrapalhou a minha mais tranqüila digestão. Mesmo afogando na lama que D. Maricota sempre retirava das duzentas mil páginas da laguna paraguaia, nunca derramei leite nas minhas lágrimas arrependidas. Com a gargarejadora jubilada fazendo a feira dos legumes nas quitandas do bairro do Ingá, em Niterói-antes-da-ponte, já viu. Desde que os 700 retirantes pegassem a barca na Praça XV, qualquer licença poética seria permitida. E não é por nada, não, mas licença por licença, licenciar era comigo. Lida a primeira linha da primeira das duzentas mil páginas, ali mesmo na lama dos alagados paraguaios decidi que o prumo da minha vida seria que nem preceito de candidato a candidato. Mais vale entrar de fininho nos conformes do deixa disso, e entrar mesmo, do que sair no grito do já ganhou, e não ganhar. Só que no café da manhã, no almoço e no jantar que a jubilada adoçava com um homo sum, humani nihil a me alienum puto açucarado no mais puro latim de seminário, salgava com um o sertanejo é antes de tudo um forte curado na manta da mais pura carne-seca e cacarejava um tal de conde de Afonso Celso encadernado na mais pura percalina do Por que me ufano do meu país, a minha vida sexual ainda não pegava de campeã à la Nélson Piquet no Campeonato Mundial de Pilotos. Troco de madame em barraca de feira, o mais que fazia era calejar os cinco dedos da mão esquerda depois do arrego que os cinco da mão direita pediam na terceira punheta incompleta. E como a minha garagem também não abrigava nenhum Porsche Turbo 3000 e nenhum Ballantine’s me turbinava a digestão, qualquer bicicleta me servia de mercedes e qualquer gororoba carregava a bateria da contração intestinal. Por isso, embora responder fosse coisa que nunca me fez bater continências indevidas, pensar no depósito do meu Porsche Turbo 3000 sem gasolina e na minha digestão sem gota de Ballantine’s, me deixava mais apavorado do que padre confessor de convento militar, agora que as baionetas que defendiam o modelo ex-amazônico da democracia brasileira e colavam os cartazes do Brasil, Ame-o ou deixe-o nas paredes do cagaço nacional começavam a mofar dentro dos quartéis. Mas, já lá dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, se não tem Vasco que nunca perde também não tem Flamengo que sempre ganha, com o 007 a serviço de Sua Majestade, o que me valeu foi a mostra dos figurinos ser ainda mais secreta. Só que, por mais secreta que fosse a câmara dos epitélios torturados e as meninas dos meus olhos tivessem adorado aquele censurado XXX-RATED à la Boca do Lixo e periferias copacabânicas, o problema não foi a moral ter ganido mais do que cachorro abandonado em canil da Sociedade Protetora. O maior problema foi o zambaísmo da nossa brilhante figurinista se negar a pular fora da banheira sem eu ter provado, primeiro, todos os figurinos do vôo cururu. Lembra daquela sufocada contorsão a duas mãos e piores intenções da Thelma Reston no filme Os Sete Gatinhos, os umidíssimos epitélios gemendo mais do que ladrão pé-de-chinelo de cu comido em delegacia da Baixada e o olho do Lima Duarte estourando de boca seca no desvão da porta entreaberta? Dá ou não dá vontade de se mandar do cinema e mergulhar altos e baixos na primeira sauna disponível? Ou, se a pressão não der mais para afiar os cascos na corrida, fazer da cadeira do cinema o travesseiro da Thelma e deixar rolar o marfim por entre os dedos? Não é para me gabar, não, mas como pressão sempre foi mais a minha praia, nunca tinha botado os cascos fora do cinema até entrar na banheira japonesa e meter o nariz nas águas do bacalhau. E sempre me dei bem. Dois gatinhos e duas vezes, mesmo não sendo a conta que Deus fez, dá folgado para o Flamengo escalar o Fio Maravilha no ataque e o gol pode até pintar na ponta do milagre. Agora, sete gatinhos e sete mil vezes não tem mola de colchão que agüente nem mufa de pulmão que não estoure. Não tem mesmo. Se alguém jurar que tem, já viu. Ou nunca afiou os cascos na corrida ou nunca nadou nas águas do bacalhau. Mesmo com o chrono do meu casio alarm já cravando 11:37 14 no último figurino e o fundo da banheira japonesa mais seco do que salário mínimo em contracheque de barnabé da prefeitura, quem diz que o brilhante zambaísmo da nossa corte e costura estava a fim de dar uma parada na arrancada extra do quilômetro ou entrar numa de férias coletivas? Não é por nada, não, mas é por estas e por outras que o Brasil é o que é. Se até o verbete do Dicionário do Aurélio diz que brasil é pau leguminoso e veio do francês brésil, que é alteração do italiano verzino, e até o Quênia, a Estônia e o Egito ganharam o mesmo ouro que nós nas Olimpíadas, vamos acabar com o pedágio na Ponte Rio-Niterói ou ficamos, como sempre, no ou ou? Ou somos o maior país católico apostólico romano do mundo e o terreiro do Joãozinho da Goméia bota mais político e colunável na Baixada Fluminense do que missa do galo bota renda per capita na catedral de Brasília, ou o Ministério da Educação e Cultura bota um general no comando das baionetas escolares e um coronel pega de abre-alas no dane-se o vosso reino e entra na Passarela do Samba fantasiado de ministro da Previdência Social. Razão tinha meu velho pai, que nunca foi militar nem ministro e, muito menos, candidato a benefício causa mortis. Quando boletim meteorológico acerta que nem bula de remédio, cuidado. Ou a bula foi impressa na tipografia dos banqueiros ou os laboratórios botaram o Tio Sam na direção do boletim. A comparação do chrono do meu casio alarm com o figurino do fundo da banheira não tem nada a ver, nunca estive no Japão, nunca fui relojoeiro e, muito menos, fantasia de ministro, mas serve para dar uma idéia de quem, neste país, não paga juros de saldo devedor de cheque especial e ainda toma injeção de graça nos gabinetes de Brasília. Mas fazer o quê, com a banheira japonesa já costurando um fundo novo no asfalto da rodagem e eu já mais adjetivo sem atividade e sem préstimo do que substantivo de vigor e veemência? Tentar um doutorado gramatical e entrar na via diplomática do sim, senhor, sim, senhor, meu querido Tio Sam, ou bancar o rato do ora vamos ver quem tem bigodes e botar o elefante para correr? Lembra do general Olímpio Mourão Filho, aquela vaca fardada, quem insultou as vacas não fui eu, foi o heil à la Adolf Hitler que, freudianamente, se autovacou e assaltou a estação telefônica da cidade de Juiz de Fora e cortou a linha e o babado do presidente João Goulart no maior heil Hitler da madrugada do dia 31 de março de 1964? Mesmo não sendo general nem sabendo que comunista come criancinha, bem passada ou malpassada, de acordo com o gosto dos estalis ou dos trotskis, uma coisa eu tinha certeza que sabia. Ou cortava a linha e o babado do brilhante zambaísmo da nossa militante sanguessuga, ou nem xexéu sobraria do desmilingüido Adauto Simplício, já prestes a tombar nos figurinos do cumprimento do dever. Aí, já viu. Se náufrago, que é náufrago, se agarra até a âncora de navio, desinente faz o quê? Pode até não fazer nada, mas trocar bóia salva-vidas por salva-vidas de ferro, isso ele não faz nem amarrado. E foi o que salvou o último dos milímetros do Adauto em vias de. Mal a nossa corte e costura subiu nas tamancas da direção e mandou ver mais um trator no fundo da banheira, não teve jeito maneira. Não foi aquele anauê à la general Olímpio, que acordou juiz-foranos e troianos, mas a primeira mão que tentou costurar a desinência, sifu na maior de uma boa. Era matar ou morrer e eu não estava a fim de chorar no meu enterro. - Pára, Dorotéa! Foi a Dorotéa, mas mesmo que fosse o pára ou o perdigoto do ponto, o fato é que o trator meteu o pé no freio e a nossa brilhante zambaísta só não meteu a mão na minha cara porque tentava metê-la nas dobras de outros epitélios. Mas a tradução do gesto não deixou nenhuma dúvida quanto à frustração das intenções. - Froxo! Dizem que o que mais injuriou o Dr. Leonel Brizola, candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982, não foi quase ter perdido as eleições porque um tal de Diferencial Delta dos computadores da União das Direitas Brasileiras S/A odiava churrasco e chimarrão à gaúcha, foi a TV Globo não permitir que ele tarzanizasse o grito da vitória no programa do Fantástico. Eu não era o quinto cavaleiro do Apocalipse, não assava boi no pasto nem tomava chimarrão, mas como já estava mais para prego de caixão do que para efeito catuaba, já viu. Aproveitei a frustração do gesto e o freeze dos cinco dedos, e, numa mais do que perfeita à la cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro, parafusei a cara Itamaraty papel ofício e mandei ver o parágrafo das comunicações oficiais. - Sou froxo, sim! Só quem já roubou pirulito em jardim-de-infância ou viu zambaísta militante tentar ler segundas intenções é que pode entender o espanto de um olhar de cachorro em casa de madame. Para quem nunca pecou de fato ou de direito, basta dizer que, nas circunstâncias, não tem fundo de banheira, por mais japonesa que seja, que agüente a tonelagem do peso da verdade. E foi o que aconteceu no caldeirão da usina do pecado. O asfalto da rodagem abriu feridíssimas chagas à la coração de bichona atirada na lixeira dos bons preceitos da moral da novela das oito da maior audiência do Brasil, e a verdade subiu pelo ralo que nem pé de chuchu em cerca de vizinho. - Filho da puta! Fazer o quê? Invocar o testemunho do meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução, e mandar ver uma justíssima ação de altos danos moromateriais, ou deixar o insuspeito testemunho para uma futura e placeba Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara ou do Senado e entrar direto nos negócios de pronta solução? Claro que entrar direto nos negócios de pronta solução. Só o ministro da Fazenda é que não sabe, mas se a solução dos negócios de Brasília não atrasasse mais do que sentença de justiça do trabalho em julgamento de barnabé sumariamente demitido, nenhum banqueiro abriria contas na Suíça e financiaria candidatos a cavaleiros das duas Távolas. Até porque estar Sempre-Em-Cima-Do-Muro ou ficar Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro é apenas questão de catecismo. O próprio Jesus não ressuscitou, não subiu aos céus e não sentou à direita de Deus Padre? Mas antes de meter a broca do por quê na cárie do esmalte e da dentina intestinal do Congresso, que come à custa e dorme à sombra dos meus mais do que suados cruzeiros novos, veja meu ilustre companheiro e triste espectador da impunidade parlamentar, de que buraco saiu a taumaturga placeba das Comissões Parlamentares de Inquérito da Câmara ou do Senado. Primeira coluna da página 1106 do Dicionário do Aurélio, 3ª impressão da 1ª edição sem aumentos ou rasuras. Já que pizz é abreviatura de pizicato e não de pizza, p por p, fiquei com o pizi. Que, se também nada resolve, pelo menos, não seca a língua em sons dobrados. Aí, com o último micrograma do efeito catuaba já piscando num alerta mais vermelho do que vergonha de virgem-mártir em votação de orçamento camarário e o zambaísmo da corte e costura afiando os cascos que nem furacão pronto a varrer a costa da Califórnia do mapa do olho dos meus olhos, já viu. Ou enfrentava o útero do furor do fundo da banheira e provava em Caxambu o que todo mundo já tinha provado em Hollywood, e até em produções mais independentes, detetive que é detetive não amarela nem batido em gema de ovo e come mais mulher do que comida, ou botava o Adauto Simplício nos andaimes do equilíbrio e saía pela porta da ex-boate do ex-cassino que nem o José do Egito saiu do quarto da mulher de Potifar. Correndo mais do que o Alan Prost no Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1 de 1984. Não é por nada, não, mas não tem nada melhor do que pontapé no saco, seja da grimpagem, seja da bagajura, para botar a adrenalina na zona do agrião. E aquele filho da puta das feridíssimas chagas à la coração de bichona atirada na lixeira dos bons preceitos da moral da novela das oito da maior audiência do Brasil pegou firme na medalha das minhas olimpíadas. Foi o puta do filho entrar em função de decibel e o Adauto Simplício meter os cascos na arrancada do primeiro quilômetro da salvação, a língua mais seca do que bacalhau curado no alto da montanha e o zoom da Nikon balançando mais do que saco de bode nordestino. Se o fundo da banheira japonesa pegou o zambaísmo e correu atrás ou deu uma de Maria Madalena e arrancou dentes e cabelos caídos em desgraça, não sei, não deu nem para sentir. Não cronometrei os primeiros cem metros, mas a ver pelo ritmo da galgagem, os 9 segundos e 95 centésimos do James Hines nas Olimpíadas de 1968 eram pinto junto do meu recorde galgaciano. Nessa de botar sebo nas canelas por motivos que nem porta-voz da Presidência poderia duvidar, meu velho pai tinha razão. Mais vale correr atrás de ladrão pé-de-chinelo do que na frente da polícia federal. A primeira vez que parti para cima das minerais magnesianas que nem serial-killer dirigindo ônibus escolar depois das aulas, disposto a secar todas as fontes e a calar o Cruz! Cruz! Cruz! da figadeira, foi por obra e graça de um pesadelo que saltou em cima dos meus sonhos que nem, dizem, a macharia romana saltou em cima de umas tais de sabinas, isto antes de saltar em cima de ser considerado pecado capital. Só que desta vez, mesmo com juros e correção monetária, se o pecado capital não virou manual de hidropatia comparada, valeu, pelo menos, a vitória na maratona da ex-boate do ex-cassino. Não é comparação, não, mas fundo de banheira por fundo de banheira, preferível enfrentar a brasa das baionetas dos centígrados do que mergulhar em novo banho de gato costurado nas quinhentas mil páginas da tese do doutorado zambaísta sobre as mais nobres posições kamassutrinas. Ninguém jura, mas não foi à toa que Moisés morreu de gosto nas beiradas da Terra da Promissão. Só quem já tirou mão de cumbuca e sentiu o ventinho do bem-bom assobiar nos entre-dedos é que pode fazer idéia do que é entrar no paraíso. Aí, já viu. Entrei no jardim do parque que nem o presidente Figueiredo entrou no Curral das Éguas ao pensar que a favela de Realengo fosse maternidade cavalar. Crente que pensamento positivo era verdade. Não era. Mal pisei o orvalho do tapetão capim-de-burro da externa da segunda seqüência, o Grande Cidadão parado no jardim, junto do lago, e o eleitorado do Senhor suando mais do que cabo eleitoral do cacique Mário Juruna em reunião de condomínio da Avenida Vieira Souto, o mosquito caroneiro que viajava no pé do meu ouvido bateu asas e voou, assustado, como eu, pela mais sinestésica palmadinha que já costelou as minhas costas. - E então? Provou os figurinos ou só fotografou? Não precisei nem mandar ver o soslaio das decisões emputecidas. A perdigotada que chiou nos capacetes dos centígrados não me deixava mentir nem que quisesse. Não era nenhuma cena mais dramática, mas a nossa muito mais do que querida Florismália, além do gatilho da pergunta, já tinha a culatra do olho em função de. Mas eu também entendia de funções. Não é para me gabar, não, mas além das cento e quatro, diretas e indiretas, do verbete do Dicionário do Aurélio, ainda manjava as censuradas. E mandei ver a conativa. - Só fotografei. Lembra do Telecatch Montilla, o schwarzeneggerzão do Ted Boy Marino apanhando mais do Fantomas do que boi ladrão em curral vacomaníaco, e, de repente, o Dr. Kildare das maneiras comedidas vira rinoceros lá vou eu, dá o maior nó na ópera do fantasma e ganha o título mundial dos comedores de marmelada? Nunca gostei de quadrúpedes e, muito menos, selvagens, mas com a culatra do olho da nossa muito mais do que querida Florismália já muito para lá da função de, já viu. Ou agüentava a conativa numa de saliva à la chefe de gabinete ou entrava numa de curral vacomaníaco. E vacomaníaco por vacomaníaco, a diferença entre as cenas mais dramáticas e o fundo zambaísta da banheira japonesa era só questão de essência na fórmula do perfume. E foi. Seguro que nem ministro da Fazenda em cerimônia de posse, dei aquela de campeão de vale-tudo dos meus tempos de reco na Vila Militar e finis. Com ou sem pelotões dos centígrados fritando ovo até em olho de muriçoca, nem Judas me teria vendido Cristo pela metade do preço. Não é por nada, não, mas consciência ainda é consciência. Se não acredita, é só dar uma espiada no apito do comandante do porta-aviões Minas Gerais e vai ver o fino que tira na lataria da verdade. Já pensou no tamanho do divã do analista que o pobrão tem de chutar só para fazer de conta que não existem mísseis atômicos e o Minas Gerais é capaz de ganhar a Terceira Guerra Mundial e, se bobear, de resistir até ao iceberg que afundou o Titanic? Sabe o que me vale numa hora que nem esta? Ter absoluta certeza que, por mais cagadas que faça, nunca comandarei porta-aviões tipo Colossus. Não é nada, não é nada, mas já dá para encarar o futuro sem ofensas, não dá, não? Aí, tranqüilo que nem diretor da Casa da Moeda em manhã de feriado compulsório, repeti o 15º tratamento na cena mais dramática da função e deixei o marfim rolar no vale-tudo. - Provar que é bom, nada. - Nada mesmo? - Nem sequer. - Difícil acreditar. - Pois pode crer. - Mas o problema não é crer. - É duvidar? - É repetir a tomada. Falou em repetir, já viu. Foi mijar mais fora do penico do que aquele cara que Matou a Família e foi ao Cinema, dizem que numa sessão especial no dia em que o general de cavalaria Emílio Garrastazu Médici, o do silêncio dos defuntos que adorava um poder à termidor que nem lagosta, foi eleito presidente da Enterprise Milagre Brasileiro S.A., maior fabricante de cemitérios pode mandar que eu tenho cova, com sede em Brasília e filiais em todos os DOI-CODI dos conventos militares. Não sei, não entendo de cemitérios e, muito menos, de conventos, mas diz o meu amigo São Mora das epístolas que a sorte do Brasil é ter alguns adjetivos com dois gêneros. Um, feminino, que faz operação plástica, bota silicone nos conformes, e faz a Marginal do Fundo virar Avenida Alvorada na passarela Barra da Tijuca via Jacarepaguá. Outro, masculino, que faz barba, cabelo e bigode, bota doutorismos no chinelo, e faz o Cinema Marginal virar Cinema Underground, batizado de Udigrudi no quarup do herói Mavotsinin. Que, diz o pessoal da limpeza, balançou o coreto de todos os ex e futuros candidatos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, pois além de matar a família e ir ao cinema, ainda comeu A Mulher de Todos, botou o Hitler no III Mundo, santificou O Profeta da Fome, descobriu O Segredo da Múmia, doutorou Nenê Bandalho, abençoou Perdidos e Malditos, morreu Na Boca da Noite e foi tão fundamental para a cultura brasileira quanto a abertura do congresso para a retomada do processo democrático, depois do feriadão compulsório de dez meses e dez dias. Se o feriadão imposto na ponta das baionetas vacofardadas não teve nenhum efeito colateral que fizesse estremecer os alicerces da liberdade da ONU, tirou, pelo menos, a mão-boba do congresso do cofre do tesouro nacional e botou molho de cautela nas barbas do vizinho. E, aí, já viu. Com o fundamentalismo cultural falando de futebol Pra não Dizer que não Falei de Flores e botando o Geraldo Vandré no pedalinho da Lagoa, o matematicismo da lógica entrou no buraco negro da curva perigosa e não deu outra. Das três, ou todas ou nenhuma. Ou o cara não teria matado a família, ou não teria ido ao cinema, ou não teria nem participado do filme. Mas cinema é assim mesmo. O Grande Cidadão não está aí crente que vai ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro só porque a nossa muito mais do que querida Florismália tira a roupa em todas as cenas mais dramáticas? Razão tinha o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho. Quem diz que querer é poder nunca perdeu do São Cristóvão e empatou com o Olaria. Mas não eram os São Cristóvãos e os Olarias que pagavam a gasolina do meu Porsche Turbo 3000 e o Ballantine’s da minha digestão. Era a Lassie à la Nunca Fui Santa, e era a ela que eu tinha que rezar as minhas orações. - O que eu quero é terminar a matéria. - Mas já? - Logo que der. - Falar em dar, logo mais... - Não. Hoje eu quero... - Cortar o cabelo ou fazer limpeza de pele? Esqueça. Esqueça, que a Zita já corta o cabelo do Rofre e a Mila também já limpa a pele do Guilherme. - Eu sei. - Sabe? E sabe como? - Boatos. - Boatos ou figurinos? - Digamos que os figurinos vestem os boatos. Quando me contaram que um tal de David Bailey levou um pé na bunda da Catherine Deneuve, dizem que A Bela da Tarde mais allons enfants da la patrie do cinema francês, só porque gostava mais de tirar fotografias do que tirar a roupa dela, eu não acreditei. Nunca fui enfant de la patrie, mas também nunca tive uma Catherine esfomeada, querendo porque querendo meter as mãos na cumbuca dos baixios. Que se tivesse, já viu. Nenhum telegrafista me convenceria que o traço, ponto, ponto, ponto, ponto, traço, é a linguagem que melhor traduz um pé na bunda ou equilibra uma oratória faz-de-conta. Não é por nada, não, mas tirar a cumbuca das mãos da Catherine só mesmo quem viveu um mês que nunca acaba com 166.500 cruzeiros novos de salário é que pode considerar o tamanho do buraco e o tanto de lombrigas que faz um pé na bunda à la Deneuve esfomeada. Não falo por mim, que nunca tive lombrigas e nunca levei um pé na bunda. Afinal, quem soube botar a mão num royal straight flush que nem eu botei no Hotel das Paineiras, salário mínimo é referência muquirana de cigarro e cafezinho e olhe lá. Mas telegramar uma conversa num pôquerzinho aberto, fechado, canadense ou de dados, ou reduzir as promessas do ministro da Fazenda a testamento de retirante sertanejo era comigo. Afinal, não era à toa que o cata-milho Adauto Simplício corria o risco de presidir o Sindicato dos Jornalistas, e, de quebra, aliviar a bexiga no Dorothy Chandler Pavilion logo que a comitiva do Grande Cidadão baixasse em Hollywood com o Cururu candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. - Me diz uma coisa? Os acostamentos da nossa operadora traço, ponto, ponto, ponto, ponto, traço, estremeceram na maior curiosidade conjunta e não deixaram por menos. - Duas. - Quantas mulheres trabalham na produção? - Contando com a gente? - Não. Terceiro e quarto escalão. - Que eu tenha visto e que me lembre, não sei, não, mas mais de dez. - E tão onde, que nunca vi? - Costurando, fazendo cabelo, batendo máquina, essas coisas. - Lá no hotel? - Hum, hum. Mas só de dia. - De noite não? Por quê? - Você acha que um amigo do grande Glauber Rocha deixaria a mão-de-obra não qualificada ressonar debaixo do mesmo teto? - Todo mundo dorme fora? - Todo mundo. - E em que hotel, você sabe? - E por que é que você tá querendo saber, hem? Não basta... - Pera. Pera. Só tou querendo entrevistar... - Entrevistar? - Não pode, não? - Poder até que pode. Mas botar qualquer um ao lado do amigo do Glauber, já viu. Se ele sonha que você tá pensando fazer isso, se cuida, viu? Te processa por calúnia. - Deixa processar. Processo no Brasil dá em quê? - Tá certo. Mas ele tem mulher filhinha de papai e diz que é gênio, e você é o quê? - Ok. Ok. Mas me diga, no duro, no duro, quê que você acha? - Acho o quê? - O que ele faz, tudo, sei lá. - Eu? Desde que me pague, meu querido, acho até agulha em palheiro. Ou você pensa que artista brasileiro é o quê? Se for mulher e o peito ainda segurar sem sutiã, reze prá revista Playboy ficar de olho e olhe lá. Se for homem, reze pra que o primeiro enrustido que passar de mercedes bote o olho na braguilha e vamos nessa. - Quer dizer que... Morri no que. A sirene do trator de nevoeiro mandou aviso aos navegantes e babau. O zurro soou num tamanhão tão queixa-crime que até capacete de centígrado virou corneta pó de peido. - Corta! - Melhor a gente ir, senão já viu. Fomos e vimos, que tudo se repetiu. Eleitos e subs pulando e gritando mais do que militantes do PDS quando o senador José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, o dito José Sarney, renunciou à presidência do partido, e as iscas dos anzóis balança que balança, na maior concordância do congresso. Não fosse a minha condição de um provável futuro presidente do Sindicato dos Jornalistas e usuário dos banheiros do Dorothy Chandler Pavilion em festa de entrega do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, e também teria aberto um buezão e ensaiado dois ou três tremeliques do meu samba sim, senhor. Elevado o puxa-saquismo à essência da quinta dimensão e considerado o ego do pescador de robalos devidamente encerado e lustradíssimo, foi a vez da imobilidade e do silêncio botar o povo eleito numa de Buda-em-hora-de-digestão. Eu já disse que não sei o que pensa um boi quando olha para um palácio, mas também já disse que sei o que faz o dono quando o boi mija fora do penico. E não sou só eu que sei. A ver pelo ar de biblioteca-em-hora-de-leitura dos eleitos e dos subs, todo mundo ali sabia quem era o boi e quem era o dono do boi. Como eu não era boi nem era dono, larguei o mormaço do soslaio do traço, ponto, ponto, ponto, ponto, traço, naquele entra que não entra numa de quase cena mais dramática e deixei o meu anzol iscar as pontas no atoleiro dos robalos. - Assistiu? - Infelizmente, não. - Pois perdeu um dos melhores momentos da filmagem. Lembra da expressão daquele ator que fez o papel do Napoleão no filme do Abel Gance, naquela cena em que ele passa as tropas em revista e todo mundo grita, viva Bonaparte, sem que o viva estivesse no roteiro? Pois eu consegui que o Geraldo Columbano, absolutamente imóvel e olhando fixamente a linha do horizonte, me desse a mesma profundidade psicológica. Não foi fácil. Não é fácil dirigir. E sabe por que é que não é fácil dirigir? Porque o ator brasileiro pensa que fazer cinema é cagar na frente da câmera como caga no banheiro. Exatamente isso. Cagar na frente da câmera como caga no banheiro. Claro que tem exceções. E alguns, bem dirigidos, até que são capazes de perceber a diferença, como é o caso do Geraldo Columbano, que, apesar de sempre ter feito novela de televisão, parece até que nasceu num set de cinema. Nunca imaginei que a merda cagada na frente da câmera fosse diferente da merda cagada no banheiro, mas, como não estava a fim de entrar numa de saber e subir no palco do Dorothy Chandler Pavilion e pegar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, entrei no cano do presépio e mandei ver a melhor lambida do boizinho sim, senhor. - Imagino a expressão vista através dos vidros da janela. - Tirei os vidros. - Mas, no roteiro, a janela da Florismália... - Mudei o roteiro. Com os vidros fechados, a Florismália não ia sentir o tanto de profundidade psicológica que tinha o olhar do Grande Cidadão. Não fiz nenhuma tomada de análise, foi apenas questão de intuição. Mas, em cinema, intuição é fundamental. Sem intuição não há como se perceber, à priori, o clima perfeito para um determinado instante dramatúrgico, está dando para entender? Vontade não faltou, mas em vez da furacão, que podia furacar a matéria e as diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar, matei foi o souza cruz com duas absolutas corta-luz e fim. Raiva por raiva, antes enriquecer os acionistas da British American Tobacco do que empobrecer o Adauto sim, senhor. - Perfeitamente. - E, lhe digo, foi uma ótima intuição. Todo mundo concordou. - Imagino. E a mudança... - Ficou mais do que perfeita. Perfeitíssima. Aliás, podemos falar sobre ela na matéria? - Claro. - Sabe por que é que é importante falar sobre ela? Ao contrário do que a maioria desses escritorzinhos de merda diz por aí, quem faz roteiro é diretor. Só para lhe dar um exemplo, dos quinze tratamentos que o Ximu deu ao Grande Cidadão, catorze quem mandou dar fui eu. Roteiro quem faz é diretor. Você pode até não escrever nem uma linha, mas roteirista que é roteirista sabe que só bota no papel o que o diretor tem na cabeça, entendeu? Sabe por que é que sempre contrato o Ximu para escrever os meus roteiros? Só para que esses críticos idiotas não digam que eu quero ser, ou sou, como um deles já disse, o Orson Welles brasileiro, compreende? - Perfeitamente. - Ótimo. Não é por nada, não, mas uma coisa eu prometi a mim mesmo ali naquela hora. Perguntar à afogadora do ganso, marreco, bem-te-vi, pardal ou andorinha, não importa o tamanho das penas acessórias, que papel ela cumpria nas fodas dos anzóis. Se o pescador de robalos lhe valorizasse o entrepernas como valorizava os tratamentos do Ximu no roteiro do Grande Cidadão, aí vai uma melhor de três e ganha uma beirada na piscina do Copacabana Palace quem chegar antes do Corta! Ou ela não tirava nem a roupa ou quem não tirava a roupa era ele, ou as quinhentas mil posições do Kama Sutra também já estavam para lá de um 16º tratamento. Mas não era hora de capinar hipóteses à la vê primeiro quem é para depois saber quem foi. Como muito bem disse o brigadeiro Eduardo Gomes, que não era meu pai nem tinha quitanda em Niterói-antes-da-ponte, mas entendia do riscado e só perdeu para o presidente Getúlio Vargas as eleições de 1950 porque o slogan da campanha Vote no Brigadeiro que é bonito e é solteiro só agradou os gregos louros e cagou na morenada dos troianos, o preço da liberdade é a eterna vigilância. Liberdade eu não pagava, não, mas vigilar era comigo. E, aí, já viu. Hora de trabalhar, trabalhar, e pronto, pt, que o presidente eleito Tancredo Neves está hoje na Itália numa de arrasar Florença, pois o Médici dos defuntos e das lagostas que fade in em Brasília aos 30 de outubro de 1969, com o anjo Lelahel e os santos Dias da Silva, Zenóbia, Ponciano, papa, e Geraldo, bispo de Potenza ciscando a lua cheia daquela aziaga quinta-feira, e fade out no panteão dos esquecidos em 14 de março de 1974, com o anjo Habuhiah e os santos Matilde, rainha da Germânia, Leão, bispo e mártir, e Bonifácio, também bispo e confessor, bisando o cisco de outra lua cheia e de outra quinta-feira, mas não aziaga, que o Médici tupiniquim não se chamava Lourenço e nada tinha de magnífico. Numa de juiz classista em audiência de acordo de capital cagando no trabalho, ou leva dez por cento ou não leva nenhum, baforei o mais centígrado dos soslaios nas já derretidas 13:04 32 do chrono do meu casio alarm, e um ronco de sirene apaga-fogo pegou na contramão da minha via estomacal. Só que almoçar no cardápio dos eleitos era correr o risco de aquecer o zambaísmo no forno de uma cena mais dramática. E risco por risco, nada mais prudente do que fugir dos figurinos e pegar os tique-tiques em hora de menor trânsito. Definidas as coordenadas do pouso, foi só repetir o soslaio na marca da firmeza entregar a dissidência do manifesto às iscas dos anzóis. - Tenho que ir. - E a matéria da mudança? Lembra do bocão do Maracanã à la boticão cais-do-porto, quando o Gigghia passou pelo Bigode, fez o segundo gol e o Uruguai botou a Copa do Mundo de 1950 no bolso do colete e mandou o Brasil pescar pirarucu no Amazonas? Igual, igual. Mas como nem tudo que é igual é parecido, nada como um lenço branco rasgado numa despedida com retorno. Pendurei o zoom da Nikon na primeira isca dos anzóis e mandei ver uma de retórica à la ministro da Fazenda anunciando um novo aumento da gasolina. - Quero pegar, primeiro, o clima da introdução. - Como os vidros da intuição? - Exatamente. E com o X daquele exatamente abrindo mais a dentina do que sorriso em foto de primeiro casamento, casquei fora do quartel do Estado-Maior Conjunto antes que o tique do traço, ponto, ponto, ponto, ponto, traço quisesse entrar numa de sobremesa à la cena mais dramática. Morria de secura e de fome, mas o problema não era ser enterrado em terra alheia. Era deixar os eleitos afiarem os cascos no caminho do hotel e eu pegar uma de sub. Quem sabe, no fundo do bandejão alguém escreveria o nome do hotel onde ressonavam, ou faziam de conta que, as samaritanas gerais? Não era bandejão à la catering, os panelões fumegando na tradução da primeira epístola de São Mora e nas asas dos mosquitos e no cocô dos passarinhos, mas o seja bem-vindo ao meu primeiro degrau da escada do porão politécnico até que foi legal. - Almoça com a gente? - Claro. - Então vamos. - Não é aqui, não? - Não. É no hotel. - No... Suspensão não é só remédio que precisa do agito antes do uso. Dependendo da sinalização dos pontinhos pode servir até de testemunha em ultrapassagem pela direita ou de estupro consentido. - Logo ali. Não é à toa que eu gosto da sucintez marca povão. Além de uma ausência absoluta de sentimentos culpáveis por sobra de mestres ou doutores, ainda comporta a maior liberdade nas conotações gramaticais. Não é por nada, não, mas são pouquíssimos os delegados patriciais que deixam você carimbar um eletricista-chefe com a mesma dose de cidadania com que grafa gaffer num crachá de livre-trânsito. E foi, justamente, o nosso gaffer Tom Só, que o Werner Herzog fez questão de botar na chefia dos eletras quando veio filmar o Fitzcarraldo na Amazônia com o Klaus Kinski, o tal do monstro de talento que, disse o pinípede, foi o primeiro amante da filha Nastassia, quem pegou no agito os pontinhos da minha suspensão. - Vamos. O dono é quem atende e o restaurante até que é muito do legal. Legal, como muito bem dizia meu velho pai, é que nem esquina do pecado. Dobrou, entrou no paraíso. Mas num centigradão que nem aquele do Parque das Águas, dobrar ou não dobrar era o de menos. A solução era correr do fogaréu das baionetas e sentar à sombra de um Ballantine’s bem cubado. - Me diz uma coisa? - Se puder... - Gostou de trabalhar com o Herzog? - Eu não trabalhei com ele, não. Nem conheço. Mas teria sido uma boa. Já pensou, eu falando português e ele falando gringo, quem ia xingar quem, hem? - Mas o... - Ah, o doutor Zózimo sempre diz isso porque diz que dá mais ibope. Coisa lá dele, sabe como é que é. - É que eu tou fazendo uma matéria pra uma revista do Rio e gostaria... - Como é que é mesmo o nome do senhor, hem? O meu é Antônio Solestício, mas eu me chamo mesmo é de Tom Só. - Eu me chamo Adauto Simplício. Muito prazer. - Da mesma forma. Mas quer dizer, então, que o senhor vai botar o pessoal no jornal? - É. Numa revista. - Coisa boa. - E o senhor gostaria de dar alguma declaração? - Quem que não gosta de ver o retrato no jornal, se não for por morte ou por prisão? - Quer dizer que eu posso ter umas palavrinhas, com o senhor e todo mundo? - Não tenho nada contra, não. Agora, sabe como é, cada um sabe de si. - Claro. Claro. E foi nas mais perfeitas condições de futuro síndico do condomínio Paraíso de São Pedro que entrei no restaurante, mandei ver um filezão à cavalo com três ovos e, na cadência do mastiga que mastiga, saquei, uma por uma, todas as samaritanas gerais. Doze, reduzidas a três, quatro quando muito, a não ser que o quadrado da largura do pinípede se fissurasse em bruxaria. Maga Patalógica, Madame Min & Associadas Condizentes em serviço de taradismo, distorções ou aberrações sexuais. Nomes anotados e falados a dois minutos por cabeça, grupos fotografados pela mesmice de função, e, menos de uma hora depois, o faz-de-conta-da-opinião-de-cada-um mandou ver a saideira e finis. Todo mundo jurou satisfação 11 x 7 na pressão arterial e o dono do hotel quis saber se os ovos estavam a meu gosto. - Perfeitos. O ex-gaffer do Herzog no pega jacaré amazonense apresentou-me o vozinha à la Maga Patalógica, stand-in oficial do Grande Cidadão em horário de trabalho e escada magirus de bombeiros nas restantes horas vagas. - Este aqui é o Zé Cebola, meu sobrinho. O pau-de-virar-tripas equilibrava o diâmetro das doze polegadas do barbará de dois metros que nem piloti em vaga de garagem, e sorriu assim a modos de Miss São João das Antenas em função de madrinha da bateria da Escola de Samba Pé Dos Outros. Mas estendi a mão na mais perfeita nota 10 do quesito já ganhou. - Muito prazer. A vozinha bisou o decibel tou aqui da standinada do primeiro plano da primeira seqüência, a Maga Patalógica apaixonada pelo corvo dos serviços telegráficos, e a mão que apertou a minha matou a pau no adocicado glicerol. Matou a pau, assim, sem exagero. Escorreu na palma que nem suor por entre os dedos. - Da mesma forma. E com o visco do glicerinado pegando mais mosquito na fornalha dos centígrados do que sapo perdido nos brejos canavieiros, assim terminou o plantio das cebolas. Tio, sobrinho, e demais compositores da sinfonia do trabalho foram sambar no tapetão capim-de-burro e eu pude cuidar, finalmente, do motor de arranque da minha digestão. - Tem uísque Ballantine’s? - Uísque Ballantine’s, não tenho, não. Tenho Old Eight, tenho até um que vem do Rio mas que nem gosto de ter, diz que é feito lá por Nova Iguaçu ou coisa assim, e tenho conhaque Dreher. Agora, esse tal de Ballantine’s, não tenho, não. Mas tenho aí uma pinga de alambique, que nem o senhor acredita, isso tenho. Fazer o quê? Recusar a parati do grande tambor de origem africana que o Aurélio diz que batuca em baile de caxambu e correr o risco de trancar o cofre dos registros de hospedagem das samaritanas gerais, ou arriscar o azinhavre do alambique e entrar direto no assunto? - Me acompanha? O nem o senhor acredita me olhou como, dizem, o hitler do general Sylvio Frota olhou o heil do presidente Ernesto Geisel quando foi jogado no escanteio do ministério das urtigas: sem acreditar no que via no fundo da garrafa do oftalmologista corneteiro. O alambique do tambor de origem africana não usava óculos à la general-de-exército nem inventava açougues comunistas vendendo filé de criancinha a preço de banana nos miles e miles municípios brasileiros, mas entendia de convites. Com uma rapidez de fazer inveja à velocidade dos mirages que os motoristas de táxi cariocas pilotam nas pistas do Aterro do Flamengo, uma garrafa sem rolha e sem rótulo ferveu em cima da toalha. Os dois copos ex-geléia mocotó da Colombo aterrissaram na pista da branquinha dez segundos e três décimos após a freada da sem-rolha, e o motor de arranque da minha digestão, calibrado por ene e enes de Ballantine’s cubados no capricho, pegou de voleio a primeira dose da calibrina alambicada e sentou a pua no arquejo do arroto. Primeira dose, sempre dizia meu velho pai e dizia muito bem, é que nem andorinha largada no poleiro do altar. Não faz verão nem convence São Tomé. O velho Eduardo da Micas do Ferreiro nunca carregou livros no lombo e, de ler, só sabia soletrar a palma da mão de uma de tal de Serra do Gerês, mas entendia do riscado. E o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, que nunca lhe perdoou o gosto pela estrela solitária do Botafogo de Futebol e Regatas, até ele baixava a cabeça à sabença do cunhado: mesmo fodida e refodida, até araruta tem seu dia de mingau. Só que o velho Eduardo da Micas do Ferreiro não era nenhum embiri ararutado. Era puro mingau de tapioca. Nunca enganou ninguém nem soube roubar o necessário para comprar uma passagem de volta a Portugal e morrer na santa paz naquela tal de Serra do Gerês. Morreu sem tostão em Niterói-antes-da-ponte, enterrado em campa rasa, mas sempre entendido no riscado. Abre esses olhos, rapaz, abre esses olhos, que a verdade não foi feita no Brasil. Não é do teu tempo, mas tu cuidas que o presidente Dutra, que Deus lhe fale na alma se puder, fechou o Cassino Icaraí e deixou os bicheiros à solta só porque a mulher ia todos os dias à missa e dizia que jogo era pecado? Se calhar, jogo do bicho não é pecado porque os bicheiros ainda hoje pagam os dois pês: a polícia e os políticos, estás a perceber? O negócio neste Brasil, rapaz, é ter quatro mãos e duas caras. Acende tu uma vela a Deus e outra ao Diabo, e pronto, logo verás o resultado. Falou em resultado, danou-se, falou em Deus, já viu. Taxidermei a andorinha no poleiro do altar e, na terceira alambicada, até o presidente Dutra cantou o hino dos heróis. Já que não podia refechar os cassinos, escancarei a porta-mãe do Ministério das Promessas e o vermelho do tapete faz-de-conta rolou pelo tampo da mesa que nem assessora do congresso em cama de líder do governo. - Meu amigo, esta beleza não tem uísque que pague, não. O professor dos convites abriu aquele sorriso à la conta numerada na Suíça de ministros demitidos, e mandou ver a quarta que nem o senhor acredita. - E o senhor ainda não provou uma que eu tive aqui mês passado, presente de meu compadre Zé Bezerra, ali logo de Arantina. Se provasse, lhe garanto... Antes que a garantia entrasse numa de me engana que eu gosto, apaguei o fogo do alambique do tambor caxambuense e abri as veias da promessa-mor do ministro. - Eu gostaria de entrevistar o senhor para a minha revista no Rio de Janeiro. Pode ser? Sabe o que é que é poder ser? Eu nunca fui, não sou e talvez nunca seja nomeado cofre de dinheiros públicos mal-aplicados e suponho que o meu prezado também atravessa este honestíssimo amazonas numa canoa que nem a minha. Por isso é que penso que podemos falar de igual para igual, ou melhor, de timoneiro para timoneiro da família do pode perguntar que pergunta não ofende. Poder ser, meu prezadíssimo, é a versão anistia do ser ou não ser príncipe da Dinamarca. Com o cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro pregando arrebites sem retorno na armadura do cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro e botando Hollywood no chinelo com a boca do balão rebentada no epicíssimo Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, alguém ainda duvida que ser contra ou a favor do Brasil, Ame-o ou deixe-o, fará com que a seleção brasileira possa mandar às urtigas o vexame dom quixote da Copa de 1982 e pise macho-macho nos gramados mexicanos na Copa do ano que vem? A ver pelo carão mas é claro que pode, a versão anistia do fedor do reino da Dinamarca nadou de braçada na bacia dos desejos inconfessos do nem o senhor acredita e futuro amigo-oculto do lobista-mor do Ministério das Promessas. - O senhor botaria mesmo o nome do meu hotel nessa sua revista, como é mesmo o nome dela? - Revista da Cidade. E, para lhe provar que vou botar, ó, um sorrisinho aí, vai. Mas um daqueles, ocá? Não foi um daqueles, que o banguela era a mais perfeita capicua 1001. Só que o zoom da Nikon de bobo não tinha nada e leornadavinçou a falta dos incisivos com um close à la Sérgio Leone do canino 1 do 1001. Aquela vagarice que sempre começava na mó de cima da aba do chapéu, descia pela mó de baixo e só terminava quando explodia a vingança. Resolvido o problema da estética da cariada capicua, a ética foi que nem texto de Ato Institucional via catedral de Brasília. Um baralho de cartas marcadas e finis. Se até o síndico do meu prédio fala de ética como se falasse de fedor de cocô de cavalo de bandido e faz o mais afinado dos coros com o líder do governo no samba olha para o que eu digo não olhes para o que faço, por quê que o simples cata-milho de um Adauto Simplício sem mais aquelas ia ser mais papista do que o papa? Mas de jeito maneira. E sem essa de a verdade ser o melhor caminho da vida, que a melhor vida sempre foi vivida nos piores pedaços dos maus caminhos. Me diga, quem não gostaria de ser um John F. Kennedy e ter a Marilyn Monroe, de vestido pintado na pele, cantando parabéns, senhor presidente, muitos anos de vida? E se não foi pecado o rei Salomão botar anúncio em Can. 4.5, como poderia qualquer um entrar numa de belzebu só por semear alguns lírios numa criação de gazelas? Aí, resolvido o vamos ver dos juízos da ética, o resto foi mais resto do que resto de fundo de campanha eleitoral do circo dos cavalinhos de São João das Antenas. O próprio nem o senhor acredita copiou as fichas de hospedagem das doze samaritanas gerais. Das quatro que ainda poderiam hastear bandeira em pau-de-sebo, e, à cautela, das restantes Magas Patalógicas, Madames Mins & Associadas Condizentes, não fosse o quadrado da largura do pinípede ser dado a altíssimas fissuras em serviços de taradismo, distorções ou aberrações sexuais. Por medida cautelar da segurança do silêncio e vista grossa do doutorado em convites alambicanos, mandei ver mais quatro estados alotrópicos da caninagem banguélica e o contrato sim, senhor, foi devidamente reconhecido no cartório dos conformes. Satisfeito com o contrapeso das quatro frentes caninígeas, closadas à la Sérgio Leone devagar quase parando, não é que o tambor africano do Aurélio resolve entrar em sintonia com o olho vivo da minha boca de siri e pergunta se quero conhecer as acomodações do hotel? Acomodações, ó meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução, com igreja na Rua Lopes da Cunha do brejo que os cariocas enrustidos de Juiz de Fora chamam Niterói, sempre foram as areias mais finas da minha praia predileta. E já que a pergunta foi feita sem o menor resquício de terceiras intenções, vale uma promessa, meu Santo, que nada tem de depósito na minha conta de futuros no Banco Paraíso: eu caia morto já, já, ou, se não cair morto, fique cego, ou, se não ficar cego, fique mudo e paralítico se, ao botar o pé na rua, não acender a maior vela à venda na primeira igreja que encontrar em Caxambu. Juramentada a promessa, lá fomos nós visitar o provável antro da maculação conjugal do nº 5 do Chanel. Abrindo alas, o 1001 gabando mais a geografia serviçal da baiúca do que cicerone do Hospital Pinel em dia de visita do ministro da Saúde. Fechando o cordão da sacaria, eu, na base dos ohs! ahs! e outras exclamações civilistas, mandava ver o zoom da Nikon em cada porta das samaritanas gerais. Cinco das Patalógicas e três das Mins, duas a duas, trocavam asas de morcego e bicos de papagaio em quatro apartamentos do primeiro andar, no canto porta-com-porta do banheiro comunal. Das quatro que ainda podiam hastear bandeira a meia haste, as duas faz-tudo nos figurinos da brilhante zambaísta dividiam sabonetes e lençóis na última porta antes do canto, e as duas últimas gerais, bem específicas, a loura cor de Noruega, auxiliar da perfeita secretária, e a morena cor de México, auxiliar da magnífica continuísta, talvez porque as chefias batessem coxas e outros atributos no colchão da mesma cama, pegavam de henês contrariantes no terceiro andar, cada uma no seu próprio apartamento. Portanto, fácil, fácil, dar uma de células cinzentas à la Hercule Poirot. Se o pinípede não pegava de penico na suíte do mistério, a única hipótese antes da tese era a mangueira balançar entre um gelinho à la constipação norueguesa e uma tequila à la suadouro mexicano. Pensa bem, se a hipótese não andasse pega-que-pega o doutorado da tese, então por quê que só a Noruega e o México tinham honras privativas naquela ONU das calcinhas? Em que sovaco o pinípede dava uma de perfumista, se no tom-pastel da loura ou no tom-pimenta da morena, era apenas questão de gosto e questão de inteligência do Adauto. E entre o gosto do quadrado da largura e a inteligência do meu estepe cata-milho, não é para me gabar, não, mas eu era muito mais o meu estepe. Agora, se nenhum acorde as iscas dos anzóis tiravam daqueles violões, aí a partitura já virava caso de polícia. Afinal, quem pagava uma fortuna à nossa muito mais do que querida Florismália só para tirar a roupa nas cenas mais dramáticas e não dava a menor bola para a consumação do dramatismo, podia até ser o John Ford dos cururus mais voadores, mas que não entendia picas de mulher, disso nem a fanchonada da Galeria Alaska duvidava. Gente, pensa bem, trocar os pianíssimos acordes do Estudo Nº 1 do violão do Villa-Lobos, que o Ximu botou logo na segunda seqüência, por um henê cascalho bruto, ou era trauma ou era tara. Só que, como muito bem dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, t e t é que nem teretetê. Nem gandula quer de graça. Agora, se o distinto prefere torcer o pé no campo do Olaria em vez de lavar a alma na piscina do Vascão, aí já é como diz o outro, presunção e água benta cada um toma a que quer. Não dizem por aí que o presidente Franklin Delano Roosevelt, aquele do tal do programa new deal das filhas do Tio Sam, foi reeleito quatro vezes só porque mandava aos eleitores um retrato da mulher com a legenda: quem o feio ama, bonito lhe parece? Pois, pelos vistos, o quadrado da largura também estava era a fim de tomar as suas próprias decisões e seguir no mesmo trem do reeleito. Não é por nada, não, mas quando a decisão entra nos trilhos, já viu. O meu fiofó sai de mansinho e não tem peido que lhe faça abrir o bico. Não posso comparar, nunca fui eleitor do tal do new, mas conheço a cor do mel da perfeita secretária e a cor do túnel da magnífica continuísta, e digo: mesmo que a nossa muito mais do que querida Florismália não tirasse a roupa em nenhuma das cenas mais dramáticas e as cores das henês pelassem corpos, corações e até mentes, não dava nem para pontapé inicial. Não quero azedar o leite de ninguém, não, mas, mesmo não podendo comparar o tal do new, vou comparar o pontapé. Afinal, quem tem a jura do Sherlock pendurada na parede sou eu, não tenho traumas nem taras, e estou é muito a fim de pegar o nº 5 do Chanel e botar a Cavilinha nos decibéis dos ai! ai! ai! do meu sonho de consumo. Isto, claro, depois de flagrar o quadrado da largura, ou lambendo o mel da Noruega ou xeretando o sovaco mexicano, e eu ter recebido o suplemento do sinal na sala das visitas do meu banco. |
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CUNHA DE LEIRADELLA Casa das Leiras . São Paio de Brunhais |
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