APENAS QUESTÃO DE GOSTO
Romance

INDEX

Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8

Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17

Capítulo 10

Dizem que foi aos trinta e seis anos que um tal de William Shakespeare percebeu que o quintal do reino da Dinamarca fedia mais do que pau de galinheiro e inventou o perfume marca Hamlet para chanelar a fedentina. Grandes merdas. Trinta e seis anos também eu tenho e só não fui à Dinamarca, nem inventei nenhum perfume porque não quis. Agora, perceber que o quintal do reino de Caxambu fede que nem plano orçamentário do governo, disso nem aquele milico babaca da Polônia que prendeu o Lech Walessa e deu com os burros na cama ao botar uma rolha no gogó de cada um, duvidaria.

Se os anzóis do pescador de robalos não eram iscados pelos fundos de solidariedade da nossa muito mais do que querida Florismália, nem davam a mínima que ela assobiasse a melodia da função em outra cama, e se o narigão da nossa magnífica continuísta batia pratos nas nádegas tanajuras da nossa perfeita secretária, e também não davam a mínima que todo mundo escutasse a sinfonia do tan-tan, será que eu precisava ser doutorado em perfumismo para manjar a fedentina? De jeito maneira. Só que cobra-criada que nem eu não pula em circo mambembe. Em nariz que mamãe tirou meleca só entra o farejo que convém.

Guerra é guerra, seja à la Dicionário do Aurélio, atômica, bacteriológica, biológica, civil, convencional, de extermínio, de morte, de movimento, de nervos, de posição, de trincheiras, econômica, fria, global, intestina, limitada, localizada, nuclear, psicológica, química, relâmpago, revolucionária, santa, sem cartel ou total, seja à la bissextice alfabetária, heterodoxa, jaculatória, kneippista, macabrista, obnóxia, uiofóbica, vegetarista, wycliffista, xilolátrica, yang-yinica ou zoonôsica. Como eu não estava a fim de virar picadinho de manjuba em casa de mãe Joana e só o quadrado da largura do pinípede e o X da questão me interessavam, já viu. Mandei a competência lingüística do Aurélio e a bissextice alfabetar o campanário das urtigas, e fiz que nem o general Eisenhower no desembarque da Normandia. Deixei rolar o marfim da confusão no blablablá dos generais e só não ronronei nos cafunés da Kay Summersby porque não era comandante-em-chefe da guerra, nem tinha motorista de soslaio e de calcinha. Mas que também dava meus pulinhos na estratégia, disso nem eu próprio duvidava. Duas horas cravadas no chrono do meu casio alarm e os pianíssimos acordes da nossa muito mais do que querida Florismália iam pianar na cama dela. Satisfeitos e saciados, e valha a verdade, eu ainda mais.

Acordou-me, como já era de prever, o trrrrim-trrrrim do telefone. Depois daquele eu ainda mais, só mesmo o maior zilhão de decibéis botaria em pé o pé do meu ouvido.

- Madame Cavilinha. O senhor atende?

- Atendo.

Viu? Gente fina é outra coisa. Mesmo pegando de Chanel como quem pega de lata de água na cabeça, a Lassie à la Nunca Fui Santa sabia separar o nº 5 do resto dos conjugais. E prumava até um sotaque mais perfeito do que colunista social em boca-livre de bicheiro.

- Alô?

- Sr. Adauto Simplício?

- Sim.

- Cavilinha, Sr. Adauto.

- Oi, Cavilinha, mas que prazer.

- É o Dr. Jonas, Sr. Adauto. Ele quer saber se a matéria já tá pronta.

- Tá quase. Ontem, quase, quase, terminei.

- Posso dizer isso ao Dr. Jonas? Ele vai gostar de saber.

- Mais duas ou três páginas e, quem sabe, o santo faz o milagre?

- Qualquer problema, o senhor já sabe, o Dr. Jonas vai ficar muito satisfeito.

Como não estava a fim de sovacar reticências, que a frustração do bate-coxas das duas eleitas do Senhor ainda me doía no salto das escadas, marquei falta na área e o pênalti dos pontos finais falou mais alto. Um a zero e fim de papo.

- Dá um abraço nele, viu, Cavilinha?

- Darei, sim, Sr. Adauto. E ele vai adorar, tenho certeza.

Eu já falei, mas não custa nada repetir que o que mais tem por aí é nego que só escuta o que convém. Não é à toa que eu gosto do Brasil. Mais de oito milhões e meio de quilômetros quadrados de língua portuguesa e ninguém reclama do sufoco. Faltou ar no vagão das consoantes, pega de vogal, que tanto vale a como u. Qualquer uma sopra na língua. Lembra de D. Maricota, aquela admiradora fissurada das duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna dos meus tempos de colégio e gargarejadora jubilada de frases lapidares, que adoçava o café da manhã com um Homo sum, humani nihil a me alienum puto no mais puro latim de seminário, salgava a sobremesa do almoço com a carne seca de um O sertanejo é, antes de tudo, um forte e ainda jantava os cacarejos de um tal de Conde de Afonso Celso, encadernados na percalina do Por que me ufano do meu país? Pois foi ela que me ensinou a pendurar o meu Santo Expedito no pescoço, apesar de mais da metade do milagre brasileiro rezar mais missa nas contas numeradas dos bancos da Suíça do que nas contas nominais dos bancos do Brasil.

Mas aí é que a porca não torce mais o rabo. Milagre que é milagre é assim mesmo, e o Brasil está aí, firme e forte, que não me deixa mentir. Mesmo com mais da metade do adubo fazendo ninho de cuco nos relógios da Suíça, não tem larapismo que dê jeito. Nego rouba que rouba, mas é como se fosse missa cantada e comunhão. Não há artigo de código penal que bote rico na cadeia. Mas, pensando bem, para quê mexer no que está quieto num país que Deus abençoou e é tricampeão do mundo em copas de futebol? Só para amarrotar os fraques e as fardas das cartolas e dos quepes dos roubantes? Deixa disso, meu, que só a Amazônia vale por todos os celeiros do mundo e ainda sobra igarapé para todos os venha-a-nós nadarem de braçada sem precisar habeas-corpus. Só que tem uma coisa, me dizia o velho Mora, aquele da Primeira epístola de São Mora aos Incréus, ex-tudo em todos os jornais do Rio de Janeiro e meu cupincha em todos os apertos de pesquisa e de leitura, os duzentos e dez quilos do diâmetro balançando nos iguais do pé-direito: mesmo que o primeiro mundo tenha as idéias, o terceiro tenha os bens e o quinto tenha a mão-de-obra, que nem aquele sertanejo forte que morre de fome e de sede no nordeste, será que os fraques e as fardas vão pagar as custas do processo? A ver pela escolha cavalar do perfume do presidente Figueiredo, Brasília quer é ver o circo pegar fogo.

Como não entendo de cavalos nem de circos, e, muito menos de perfumes à la embeurrée de chevaux, e também nunca troquei figurinhas com o nariz do presidente, uma coisa posso dizer sem medo de dar cagada. O tal da carta do Caminha estava certo. Em se plantando tudo dá. O que se pode fazer numa terra que exporta novelas de televisão e diz que os barracos do Curral das Éguas e da Favela de Maré foram inventados pelo Dr. Leonel Brizola & Associados à esquerda das piores intenções, além de xingar pai e mãe e contar estrelas em céu de general? Plantar. Plantar e plantar, cara-pálida, que em se plantando, já viu. Até intenção pega de estaca.

No salão do café tudo nos conformes. As iscas e os anzóis já pegando pirarucus nos amazonas peitorais do pé-direito do quadrado da largura e o Estado-Maior Conjunto refulgindo nas estrelas. Refulgindo nas estrelas, assim, que a nossa magnífica continuísta só não fuzilou o narigão no oco dos meus olhos porque as tanajuras da nossa perfeita secretária botaram areia na farofa. Lembra daquele tal de J. Edgar Hoover, o fanchonão-mor do FBI, aquele DOPS metido a besta das sobrinhas do Tio Sam? Não botava uma banca muito mais para lá do que mil mato e arrebento dos mangas-largas marchadores do presidente Figueiredo e, no fim das contas do caminho não mandava ver o maior baile à la Teatro Municipal em qualquer banheiro que pintasse? A nossa magnífica continuísta não me parecia fissurada em fedentina de banheiro, mas, a ver pelo estouro do flash, se não fanchonava no DOPS do presidente Ronald Reagan, era freguesa de caderno e carteirinha da padaria tanajura da nossa perfeita secretária. E era. Impávida e serena que nem presidente do Banco Central enrolando deputados e aspones da comissão de finanças, a adjetivação da magnífica e da perfeita não estava nem aí para a marronice do noticiário da Rádio Corredor. Com a maior tranqüilidade envernizavam os capilares do espírito da coisa com a mais bem aparelhada conjunção de vitaminas naturais e olhares de liga, não, inveja é assim mesmo da maior parte dos eleitos. E foi numa cumplicidade de silêncio e coitadinhas, que nem escurinho de cinema em aviso de só é proibido fumar, que a maratona do café terminou como terminam todas as maratonas das modernas Olimpíadas. Sem nenhum dano corporal e com vencedores e vencidos jurando e trejurando que o importante do espírito não é vencer a coisa, é virar profissional de corridas e viver à custa da grana dos patrocínios.

Recauchutados os estragos vitamínicos que o trator da nossa muito mais do que querida Florismália me tinha deixado na conjuntura corpo-e-alma, mandei a sobremesa da mais fina eructação social pagar a conta da boa educação, desmaloquei um souza cruz e deixei o marfim rolar por conta do quadrado da largura. E não deu outra. Foi a hora do charuto entrar em função de e as iscas dos anzóis grudarem no zoom da Nikon que nem mosquito quaresmeiro em ouvido de padre confessor.

- E a matéria?

- Terminei ontem a segunda página.

- E ficou boa?

- Ótima. Hoje, a terceira fica pronta.

- Uma por dia?

- Como disse, é a média e é também a minha pretensão.

- Ótimo. Ótimo, que eu vou filmar agora a externa da segunda seqüência.

- O Grande Cidadão parado no jardim, junto do lago?

Já viu vampiro mirar cangote de belas adormecidas e virgens de chupões causticantes? Pois o sorriso do pinípede deixou longe a satisfação do hematófago.

- Exatamente. E não é por nada, não, mas lhe garanto que bolei um plano genial. Lembra do Gregory Peck, parado, bússola na mão, olhando o amarelão daqueles campos sem mais tamanho que o William Wyler botou no Da Terra Nascem os Homens? Pois o meu plano vai dar de dez a zero no dele. No mínimo, um infinito de ponta a ponta, entendeu? Começa na grama do jardim, sobe pelo Grande Cidadão, pára na expressão dele, absolutamente imóvel e olhando fixamente a linha do horizonte, e, sem nenhum corte, pega a primeira nuvem que passar e só depois entra no fade out.

- E se...

Juro que só ia perguntar, e se não passar nenhuma nuvem? Porque, com os pelotões dos centígrados fuzilando o menor cisco de umidade, já viu. Mas os anzóis firmaram as iscas no chapéu e não teve dúvida que não caísse nos arrotos das certezas.

- Meu caro, se você já começa duvidando antes de fazer, eu lhe pergunto: será que faz? Quando eu fiz O País do Milagre no Asfalto do Santo Milagreiro, o Ximu tá aí que não me deixa mentir, não tinha nem idéia de que santo ia fazer e de que milagre ia ser feito, entendeu? Mas, e lhe digo isto com toda a sinceridade, O País do Milagre no Asfalto do Santo Milagreiro foi um dos melhores filmes que já se fizeram no Brasil. O próprio Glauber Rocha me disse que só não ganhei Cannes naquele ano porque em 68 não teve festival, sabia disso?

Quando me contaram que um tal de Noam Chomsky quis porque quis botar na rua um modelo matemático de gramática, eu não acreditei. Nem vou acreditar. Pensa bem e me diz se multiplicar um número X por um número Y é a mesma coisa que multiplicar um substantivo por um adjetivo. Pode até ser que o resultado seja igual, para quem tem contas numeradas na Suíça ou casa de praia na ilha de Gipóia, mas quem escova o cano longo de um velho Taurus .38com a Gramática da FENAME como eu escovo, não reza o pai-nosso como vosso. Não é por nada, não, mas as duzentas mil páginas de A Retirada da Laguna que D. Maricota tanto me fez mastigar no dia-a-dia dos meus tempos de colégio, ainda hoje me fazem arrotar azias miles. E quem azeda, azeda e finis. E sem essa de botar boas intenções na cama dos Incréus. Não dizem que o papa-açorda do Isaac Newton era um baitolão sem mais tamanho e a maçã da gravidade só lhe caiu na cabeça por praga do mulherio mal-amado? Então já viu. Mas daí a dizer que os olhos vesgos da nossa brilhante figurinista Dorotéa Mé enviesaram nas chispas dos meus numa de Partido Verde e de baleias salvas da catástrofe, é que nem porta-voz da presidência pregando no deserto as melhores intenções do patrão do ministro da Fazenda. O que deu no poste da zoológica foi borboleta na cabeça e, por acaso, havia uma flor de manacá no meu jardim. E também foi que nem os japoneses em Pearl Harbor. As asas da lepidóptera bateram que bateram, as antenas clavaram um porrete na retina das chispas e o vôo do cururu matou a pau. Mas, mesmo assim, foi só depois das vistas do processo baixarem as pestanas e a Garganta Profunda desfilar na passarela dos baixios que o campeão dos teclados IBM resolveu incluir os figurinos na matéria.

E em boa hora resolveu, valha a verdade. Tirando os olhos de linhas oblíquas, a nossa brilhante figurinista nada ficava a dever ao armazém da mais esquadriada Marilyn em vias de. Se a nossa muito mais do que querida Florismália era mais do que legista em tirar a roupa nas cenas mais dramáticas, a nossa brilhante figurinista era ainda mais perita em vestir os nus depois do dramatismo. E, obra de caridade por obra de caridade, será que um armazém de Marilyns em vias de ficaria a dever alguma coisa aos acordes dos gemidos mais dramáticos? Como dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, entre pagar para ver jogar o Vasco e ver o Flamengo sem pagar, melhor dar uma de São Francisco e botar os peixes na conversa. Que foi o que fez o nosso campeão dos teclados IBM. Pestanejou firme no olho do furacão marca vesguice e engabelou o faz-de-conta das iscas dos anzóis.

- Quer dizer que em 68...

Lembra do prefeito de Cabo Frio quando a Brigite Bardot hasteou o pareô nº 2 no Forte São Mateus e botou o biquíni à la Eva no Paraíso no olho da multidão? Foi bater e valer. Os anzóis do pinípede sublimaram as melhores intenções, que nem o deputado Ranieri Mazzilli ao bancar o presidente da República depois do golpe dos milicos, e mandaram ver a maior realidade.

- Uma vergonha, meu caro. Verdadeira sacanagem. Só por que meia dúzia de merdinhas resolveram matar aula no grito, o bosta do De Gaulle amarela e faz o quê? Mete o rabo entre as pernas e deixa aquele Cohn-Bendit comunistóide tomar conta de Paris e cagar mais regra do que presidente da Embrafilme em cima de projeto de inimigo declarado. Mas não foi nada, não, que o Milagre ganhou milhentos festivais. Ganhou o de Klatovy, na Tchecoslováquia, ganhou o de La Correra, na Colômbia, ganhou o de Truçu, no Ceará, e só não passou na sessão coruja da Globo porque o Velho Guerreiro Chacrinha se mandou de volta prá Tupi, entendeu? Mas, isto, só em 71, 72, por aí, que em 73 o Milagre entrou no circuito de Miami e não deu outra. Só não ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 74 porque o Fellini tinha que ganhar o 4º da carreira dele e seria pura sacanagem o Milagre entrar no páreo e botar o Amarcord para escanteio, deu pra entender o problema?

Dizem que o que mais assombrou o cacique xavante e deputado federal Mário Juruna, não foi todo mundo, em Brasília, saber que todo mundo roubava, foi todo mundo querer caçar-lhe o mandato por ele ter dito a verdade. Que, verdade, verdade, verdade era comigo. Mas fazer o quê com a vergonha do pé-direito do quadrado da largura do pinípede? Tomar conta de Paris que nem o tal do Cohn-Bendit gazeteiro, dar uma de presidente da Embrafilme e matar a pau os desafetos, ou fazer que nem o Velho Guerreiro, que era doido, era doido, mas nunca meteu dedo em disco de telefone censurado? Melhor o Velho Guerreiro. Afinal, quaresma por quaresma, mais valia o bacalhau que ele jogava nos bocós da platéia do que os embeurrées d’escargots que os cofres-suíços dos colunistas sociais comungavam nos conventos militares. Não era nada, não era nada, já era um puta figurino. E foi, justamente, neste não era nada, não era nada, argamassado no olho do furacão marca vesguice, que o campeão dos teclados IBM, Adauto Simplício, sim, senhor, resolveu incluir de vez os figurinos na matéria.

Lembra de uma tal de Ana de Lourdes, aquela freirona que, só no grito, botou 500.000 mangas-largas de São Paulo no direita volver da Marcha da Família com Deus pela Liberdade e o presidente João Goulart teve que sair voando do comício da Central do Brasil para a renda per capita uruguaia e nunca mais pulou a cerca da fronteira, nem com a ex-coragem do charuto marca Vargas lhe cobrindo os anais do vou voltar? Não é por nada, não, mas se aquele pessoal que confessava os pecados nos porões dos conventos militares na base da porrada e de outros procedimentos freudianos tivesse duas Anas do calibre da manga-larga marchadora, uma na ponta de São Paulo e outra na ponta de Minas Gerais, tenho certeza que o Rio de Janeiro viraria praia do Mar Cáspio e nenhum heil de milico à la gauleiter de Brasília teria peito de botar a cruz gamada no cagaço de cada um.

Eu sei que a nossa Dorotéa Mé, zambaia de fé e de conformes, e figurinista brilhante de vôos cururus, não tem nada a ver com o passo de ganso da manga-larga marchadora de São Paulo. A comparação apareceu que nem, dizem, a mula-sem-cabeça aparece em noites de lua e de mão cheia de dedos. Só para mostrar que se a freirona tinha um gogó de privilégio, a nossa brilhante figurinista, tirante o zambaísmo e os óculos à la fundo de banheira japonesa, tinha os acostamentos tão firmes e tão bem acolchoados, que nem a Lassie farejando o Rin-Tin-Tin era páreo na redondeza do recheio e na cadência do balanço. Por isso, deu no que deu. Foi o furacão zambaísta varrer a poeira dos meus olhos e nem Santo Expedito me segurou os tremeliques dos baixios. Que isto de tremeliques, meu velho pai tinha razão, é que nem apartamento conjugado. Dependendo da vizinha, não precisa nem gramática.

Mas aqui precisou. Não fosse a Gramática da FENAME rezar missa diária lá no meu estaminé e já viu. Nem a mais disponível das vizinhas me conjugaria o apartamento no futuro. Com as iscas dos anzóis chora-que-chora em cima dos quatro Oscares do Fellini, o quadrado da largura arrastou mais o café da manhã do que lombriga em azulejo de banheiro. Dois charutos depois do Amarcord e o Senhor ainda duvidava das intenções do seu eleito. Veja, o Senhor duvidava, que eu não tinha a menor dúvida. Tão logo o Fellini abiscoitasse o quinto Oscar e as lamentações fossem cimentar o campanário das urtigas, já viu. Joga os óculos no fundo da banheira, zambaísta, que eu quero é mergulhar nos figurinos.

- Deu ou não deu pra fazer uma idéia do por quê o Milagre não pegou o Oscar de 74, hem?

- Deu. Claro que deu. E, o pior, é que se não fosse o Amarcord, seria outro.

Já viu colunista social em dia de três aniversários à la embeurrée d’escargots, somando metade do PIB da rua dele? Nem travesti lotado em submarino sorri tanto. O murro em cima da mesa foi tão peso-pesado, que os decibéis do palavrão passaram até despercebidos.

- Até que alguém entendeu o meu problema, puta merda! Sabe o quê que mata o cinema brasileiro? Não é falta de dinheiro, não, como muito merda diz por aí. É inveja e falta de talento, entendeu? Só por que eu não quis entrar com o Milagre por causa do Fellini, teve nego aí que até me chamou de mentiroso. Sim, senhor, o Ximu taí que não me deixa mentir, foi ou não foi, hem, Ximu?

Fazer o quê, coitado do 15º tratamento? Pegar de Cruz! Cruz! Cruz! e levantar o pau da Suíte Nº 4 ou baixar a cabeça e acenar com a queixada na mais perfeita corruptela de chefe de gabinete? Claro que levantar o pau e a bandeira e sair correndo, bandeirando, que nem osso de segunda em comício de povo unido.

- Teve um jornal de São Paulo que disse que se pretensão ganhasse prêmio, o Zózimo seria eleito miss mundo. Assim mesmo.

O dólar não cambiou de marechal, mas a festa dos doleiros compensou o enterro do defunto. Os anzóis marcharam na parada do acredite se quiser e as iscas nadaram de braçada nas águas do bacalhau. E com uma silabada cuspida no preceito estouraram até a escala-mor dos decibéis.

- Viu?

Não vi, não quero ver e tenho raiva de quem vê, viu, ô sirene de trator de nevoeiro? Não tá vendo que o furacão pode cansar de varrer a poeira do olho dos meus olhos e quem vai chorar em cima do zambaísmo se o fundo da banheira japonesa se mandar? Não falei, não, que não sou besta, mas se pensamento matasse, o pinípede do asfalto milagreiro era defunto. E ainda peguei de moral e dei uma de chefe de gabinete em cima de comissão de garis e barnabés. Finquei o corisco do olho no olho do furacão, deixei as iscas melarem nos anzóis e não tugi nem mugi. Não gosto de tugir nem mugir, me lembra vaquinha de presépio a caminho do matadouro, mas, às vezes, um sacrifício de memória até que salva a pátria da maior guerra nas estrelas made in Paranaguá paraguaio. E não deu outra. Espelhado naquele momento de alergia a contrabando, o pinípede engoliu a escala-mor dos decibéis e também não tugiu nem mugiu. Botou as cáries na mordida do charuto e, como dizem que o tal do Napoleão fez na campanha do Egito, apontou a porta do restaurante ao conselho dos eleitos e marchou que nem gauleiter em comício de Nuremberg.

A eleição pegou o passo de ganso da marcha triunfal, mas nem todos os eleitos usaram filme colorido. A nossa brilhante zambaísta fotografou em preto e branco e não deu a mínima para as cáries na mordida do charuto. Só que não dar a mínima não era só não dar a mínima. Podia ser não dar a mínima porque não precisava dar a máxima ou podia ser não dar a mínima porque a máxima já tinha sido dada. Quer dizer, ou o pinípede deitava no fundo da banheira japonesa e o zambaísmo não precisava acompanhá-lo porque era propriedade pessoal e o que é meu ninguém tasca senão eu mato e arrebento, ou o pinípede não deitava no fundo da banheira japonesa e o zambaísmo não precisava acompanhá-lo porque não era propriedade pessoal e podia minerar polimentos em qualquer filão extraconjugal. Feito que nem moral grafada mo ou mu. Dependendo da grafite, ou se mostrava ou se escondia. E aí é que tatu mandava ver. Por mais que o olho do furacão furasse o olho do meu olho, eu não podia fotografar em preto e branco. Já pensou a sirene de trator de nevoeiro tirar as cáries da mordida do charuto e botá-las no cerne da suspeita e me pegar em função de medir as tesouras do recheio e as agulhas do balanço? Não era nada, não era nada, era tudo que eu tinha em Caxambu. Com o Adauto Simplício catando milho no campanário das urtigas, quem justificaria as diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar que o nº 5 da Nunca Fui Santa me pagava para descobrir o larapismo que lhe enchia de teias de aranha o conjugal dos lençóis? Aí, já viu. Por muito que balançasse as agulhas no recheio das tesouras, tremelicar entre o melhor zambaísmo do fundo da banheira japonesa e a gasolina do meu Porsche Turbo 3000 e o Ballantine’s da minha digestão, não era nem questão de postura. Apesar de matador e de matado, tanto o adolf Nílton Cerqueira quanto o lenin Carlos Lamarca eram oficiais do mesmo ofício. Ambos vestiam farda e batiam continência. Que o problema não era a mesma raiz quadrada dar frutos divergentes. O problema era eu mergulhar na banheira sem que a água percebesse.

Como nunca fui chegado a pesca submarina e outros salamaleques, deixei que as cáries da mordida do charuto sumissem nas areias da campanha do Egito e mandei um souza cruz defumar o maior descarrego limpa-trilhos, não fosse a mordida do charuto derreter a dentadura na fornalha dos centígrados e dar uma de filho pródigo à la congelador de Frigidaire. Voltar e sentar on the rocks.

Lembra daquele indião, aquele Touro Sentado que esbagaçou o Errol Flynn bancando um tal de general Custer num filme que eu ainda vi no velho Politeama, nos meus tempos de Largo do Machado? Lembra do cachimbão que ele sempre fumava na santa paz? Pois eu só não tenho o pitão à la Sherlock, mas estou com o fumega e não abro. Não é por nada, não, mas tem hora que uma boa tragada ali na chincha me segura mais as pontas do que a melhor intenção do melhor pé de boceteiro, sabe como? E não deu outra. Já que o furacão continuava varrendo a poeira do olho dos meus olhos, furacão por furacão, eu ainda era mais eu. Botei a máquina do pulmão no sim, senhor, soldei o ponteiro do manômetro na zona do estouro e mandei ver a maior furacona que, se quisesse, me elegeria fácil, fácil, presidente perpétuo da British American Tobacco. Na mosca. Ainda com as armas e bagagens empilhadas em cima da toalha e o ciclone fumegante matando a pau as piores intenções, a nossa brilhante banheira japonesa também não tugiu nem mugiu. Agüentou firme o peso da vontade e fez que nem carregador de cais do porto à vista do cargueiro da muamba. Botou o guindaste nas costas e, virada a primeira esquina do pecado, pecou firme.

- Você gosta de figurinos?

Quem não gosta de figurinos, ô gente de pouca fé e nenhuma consideração nacional? Se até o papa reza missa como manda o figurino, quem era eu para urtigar o maná de que rezam as sagradas escrituras?

- Adoro.

Todos sabem, e quem diz que não sabe ou atrasa condomínio ou compra até cigarro a prestação, há dias que valem quanto pesam no cerne das intenções de cada um. Por isso, quem sabe a nossa brilhante zambaísta tinha cloretado de sódio as intenções daquele você gosta de figurinos só porque o dia 24 de janeiro do ano da estréia da produção brasiliense do Electoral College Pictures, Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil!, sem favor nenhum o maior filme do mundo, com apenas um protagonista e cento e trinta milhões de extras suando as estopinhas e botando o lucro no bolso dos três poderes, era a mais gorda quarta-feira do calendário com o anjo Lêviah e os santos Francisco de Sales, bispo e doutor, Artêmio, Timóteo, bispo e mártir, e Feliciano, também bispo, queimando velas ao civismo comemorativo do Dia do Aposentado, do Dia da Constituição e do Dia da Previdência Social? Seja como for, a intenção do sódio bateu firme na certeza do adoro, e eu matei a pau sem o menor constrangimento de nudismo ou qualquer outro pragmatismo ideológico todos os azares que ainda tentavam advogar argumentos em contrário.

Prova, todo mundo sabe, é um substantivo feminino que veio da proba do latim e tem mais utilidades do que água oxigenada a dez volumes e com bico aplicador. Mas o que o Dicionário do Aurélio não diz, e é o melhor da festa da língua, é que se podem abrir duas pistas no asfalto da mesma contramão. Ao mesmo tempo em que se pode provar o gosto que tem zambaiscar no fundo de uma banheira japonesa, também se pode provar que o quadrado da largura do pinípede, definitivamente, nunca foi muito chegado a uma de figurinar com brilhantismo. O que, no melhor assado da língua ao molho português de sotaque original, e sem chutar o balde dos sinônimos, significa dizer que, se no 0:00 01 do chrono do meu casio alarm a nossa brilhante figurinista figurava ainda no rol dos suspeitos, menos de doze horas depois nadava tanta inocência na banheira japonesa que nem o escoadouro aberto lhe conseguiu reconhecer as culpas no cartório.

E foi assim que o zambaísmo figurínico, além de tapar a nudez do vôo do cururu à la cipó de ex-mata atlântica, tapou também a boca de todas as suspeitas. Como sempre filosofava o delegas da 9ª DP na hora de canear a putaria arrematada a pneu de camburão, muito suar faz mal à pança, fedasputas, vamos é pegar de honni soi qui mal y pense e foder de caridade até cu de boi tatu fazer bico de pardal. E lá fomos nós pardalar figurinos no salão da ex-boate do ex-cassino de Caxambu. Ex, não porque se tivesse divorciado de cartas e roletas, mas porque na lua minguante daquela terça-feira, dia 30 de abril de 1946, plantão do anjo Micael e dos santos Pio V, Sofia, Lourenço, sacerdote, Severo, bispo, e José Bento Cottolengo, o brevê católico apostólico romano de Dona Santinha fez decolar a espaçonave da carolice papa-hóstia e o general presidente Eurico Gaspar Dutra, dedicado esposo e jóquei campeão do olha para o que eu digo não olhes para o que eu faço, fechou todos os cassinos do Brasil. Fechou, assim, fechou as portas oficiais, que os bicheiros e as loterias da Caixa Econômica Federal estão aí jogando mais do que a seleção tricampeã do mundo e não me deixam mentir.

 

Cunha de Leiradella no TriploV

 
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