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APENAS QUESTÃO DE GOSTO
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Capítulo 9 |
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Esse negócio de repouso do guerreiro é que nem porta-voz da presidência. Batalha mais do que técnico do São Cristóvão mas quem descansa são os outros. Não fosse eu cobra criada em boca-a-boca de pulo e contrapulo, e nem pó-de-peido sobraria do Adauto Simplício na batalha daquela noite. Valeu-me, já na UTI do desespero, um filetinho de luz que entrou pela janela e bateu no olho do trator da filarmônica com que os pianíssimos acordes passavam a ferro as poucas dobras que ainda restavam das costelas simplícias e obrigou o caterpillar a dar uma piscada. - Que horas são? Com a língua mais seca do que bacalhau curado no alto da montanha, o mais que pude fazer foi hastear a bandeira no chrono do meu casio alarm. - Puta que pariu! Reza o catecismo dos bem-aventurados que puta é palavrão e é pecado, e que pariu é deu à luz. Nada. Dependendo da rascada vale que nem bula de papa ou aval de banqueiro. E valeu. Ainda o ponto não tinha exclamado e já os pianíssimos acordes desembestavam pela porta que nem mosca varejeira caçada a DDT. Não é por nada, não, mas tem hora que o pior é melhor do que o melhor dos melhores. Se me tivessem dito que algum dia eu ainda ia preferir ficar só do que bem acompanhado, o cretino não repetiria o destempero. Mas não é à toa que Deus é Deus e ninguém nasce ensinado. Já pensou a gente saber tudo antes de e passar o resto da vida querendo dar murro em ponta de faca e nenhuma faca ter ponta? Pior, mesmo, só não ter mãos e ganhar um faqueiro de presente. Satisfeito com as mãos e com as facas, afinal só Deus sabia tudo, mandei o desespero catar calcinhas no campanário das urtigas e pulei fora da UTI. Agora, que o trator da filarmônica tinha desafinado o motor da sinfonia, o guerreiro bem que tinha direito ao seu repouso. Afinal, mesmo não sendo técnico do São Cristóvão, o descanso era mais que merecido. Só que, merecer, já lá dizia meu velho pai, e dizia melhor do que ninguém, é que nem assobiar. Assobia quem sabe e escuta quem não é surdo. Mas, anarfa de ouvido que nem eu, já viu. Mais azarado só goleiro infartado antes do pênalti. Ainda a bandeira do chrono do meu casio alarm descia a meio pau e o telefone do ramal resolveu dar uma de sirene. Fazer o quê? Bancar o marechal Deodoro e intimar o D. Pedro II a desligar o primeiro bicho-preto-fala-fala, ou dar uma de ministro Lourival Fontes e jamegar o LF sem ler o documento? Melhor assinar sem ler e continuar no bem-bom do que não escutar o intimante e ser obrigado a dar no pé por falta de motor. - Alô? - Tem uma ligação pro senhor. - De quem? - Diz que é da Revista da Cidade. - Revista da Cidade? Que Re... Salvou-me da mancada-mor das Olimpíadas não ser o projetista do protótipo do caça subsônico AMX. Além de não matar o piloto na primeira decolagem, também não impedi que as Vassouras Feiticeira continuassem sendo o mais seguro meio de transporte espacial brasileiro. E, além do mais, quem sabe se entrar numa de Chanel, depois daquele banho de trator, não melhoraria o ânimo das costelas do combalido Adauto Simplício? O problema era a mesa telefônica do hotel ter entrado em estado de alerta que nem a da Casa Branca com a reeleição do Ronald Reagan, dizem que muito melhor ator no filme Em Cada Coração Um Pecado do que chefão da milicada na invasão da Ilha de Granada. Mas enfrentar alertas de mesas telefônicas era comigo. Quem tapeou os mais selvagens instintos de conservação e pegou numa boa todos a bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes, tapear telefonistas mal pagas e, a ver pelo sotaque, muito pior comidas, era pinto. Afinal, ter um Porsche Turbo 3000 na garagem e um Ballantine’s no bar particular não era estrada para qualquer sherlock alpargatar. Precisava, e muito, de muita e muita experiência. - Pode transferir. - Alô? Sr. Adauto Simplício? Nunca tive secretária porque nunca gostei de ninguém xeretando mordidas e outros procedimentos afins no meu cangote. Mas se, um dia, o Tio Sam resolver morar de vez com os sobrinhos e o meu estaminé virar Enterprise Corp., é certo, certíssimo, que a primeira candidata será a Julieta do Rin-Tin-Tin, aquela Lassie à la Nunca Fui Santa que tanto bagunçou o meu coreto na hora em que o cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro enfrentou o cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro nos jogos florais de Brasília, terça-feira de lua minguante e plantão do anjo Aladiah e dos santos Miquéias, profeta, Mauro, monge, Isidoro de Alexandria, Paulo, eremita, Isidoro, ermitão de Cete e Francisco Fernandes de Capillas, mártir. - Como vai, Cavilinha? Será que o nº 5 do Chanel tinha embocadura suficiente para segurar o trombone sem matar os decibéis? - Eu, bem. E o senhor? Tinha. - Quê que há de novo, a esta hora da manhã? - É o Dr. Jonas, Sr. Adauto. Ele quer saber em que pé tá a matéria. - Escrevi ontem a primeira página. - Completa? - Completíssima. Pode avisar o Dr. Jonas que tá tudo nos conformes. Já fiz a revisão e não tem erro. - Ótimo. - Hoje devo escrever a segunda e... - Qualquer problema, o senhor sabe, o Dr. Jonas... Reticências são para isto mesmo. Ou encobrem manigâncias de confidência, ou terminam conversas que nem esta. - Dá um abraço nele, Cavilinha. - Darei, sim. - Então, tchau. - Tchau. Qualquer coisa, eu volto a ligar. - Liga, sim. É por isso que eu gosto do Brasil. Todo mundo mete o pau, mas o tal do Caminha estava certo. Em se plantando, já viu. Até intenção pega de estaca. Oito dias depois de inventado, o Adauto Simplício já era que nem a democracia decretada pelo marechal Castello Branco, o das contas sem risco dos idos de 1964. Nem parecia mais invenção. Não soubesse o marechal Costa e Silva ler só palavras cruzadas e outras tabuadas 1 x 1, e o general Lira Tavares, seu ministro do Exército, talvez não tivesse entrado para a tal de Academia Brasileira de Letras em 1970, mesmo rebocado por aqueles três gols que o Dadá Peito de Aço ou Maravilha fez no primeiro treino da seleção sacada pelo Zagalo do cordão dos puxa-sacos. E não tivesse o general Lira Tavares pegado de sodalício, e a metralha do deputado Tenório Cavalcanti veria que novas técnicas de enxertia de sinônimos o talento de Lira & Simplício Ltda faria com a diagramação da nova Luta Democrática. Um jornal de cultura e carcará. Por isso, eu gosto do Brasil. Terra melhor nem a da Promissão, que Jeová deu de presente ao Povo Eleito. Se em apenas oito dias um saci-pererê vira campeão dos mil metros com barreiras, espantaria um especialista que nem eu virar chefe dos serviços secretos de sua majestade? Não é para me gabar, não, mas com tanta excelência um patriota como eu devia era ser rei. E digo mais, com a Cavilinha de rainha, nem um milhão de marechais Deodoros proclamariam a república. Mas não era hora de especular na bolsa das lamúrias. Com o chrono do meu casio alarm cravado nas 7: 32 01 e a República já quase centenária, melhor ancorar na doca do banheiro e tirar o óleo do trator que ainda me escorria nos baixios, do que dar uma de caranguejo. E, feito isso, enfarpelar o Adauto Simplício e botar o pé direito na porta do novo dia. Tomar o mais completo dos cafés, verificar os efeitos do volante do trator na configuração da nossa muito mais do que querida Florismália e manter o equilíbrio do cata-milho nos andaimes trabalhistas dos eleitos do Senhor. O que foi feito, como mandam as normas de bem cavalgar toda a sela, sem mais demoras nem aquelas. O café-mastigado matou a pau o saldo negativo das calorias da noitada, os efeitos do volante do trator não produziram nenhum efeito visível na carnadura da nossa muito mais do que querida Florismália e a excelência do ex da Cavilinha recebeu com a maior complacência os seja bem-vindo dos eleitos do Senhor. Já na hora do charuto, foi a vez das iscas dos anzóis darem uma de padre confessor. - E a matéria? - Terminei ontem a primeira página. - Mas nós ainda mal conversamos. - Foi só a introdução. - E ficou boa? - Ótima. Hoje vou escrever a segunda. - Uma por dia? - É a média. O quadrado da largura fez uma pausa, daquelas à la cheque especial dançando no vermelho, mas nenhum dos eleitos meteu a mão no bolso. Gostei. Gostei, mas gostei, assim, desde que não fosse eu o avalista. E não fui. O banco pagou e o dito ficou pelo não dito. - Bom. Vamos começar. Tirando o lago e os marrecos, a boiada estourou nos mesmo trilhos. A nossa muito mais do que querida Florismália bisou o mormaço do soslaio e o resto xerocou a gritaria. - Cadê o stand-in do grande cidadão? - Tou aqui. - Vai pra lá e vira contra o sol. Não. Vira mais. Isso. Imóvel, agora. - Luz, ok. - Câmera, ok. - Som, ok. - Grama, ok. - Atenção. Silêncio no set. - Câmera, ação! - Seqüência dois, plano um, take um. Vinte segundos cravados no chrono do meu casio alarm e o xxxxxxxx da mosquitada freando asa no vôo morreu no susto dos decibéis. - Corta! Mais um minuto de suspensão, exatamente daquela de réu antes da sentença, e as iscas chisparam nos anzóis. - Ótimo! E pt, saudações. Sem a menor burocracia, mais uma demão de tinta foi dada no cartaz do próximo vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não fosse os pelotões dos centígrados hospedados no hotel terem entrado em alerta vermelho pela invasão do território, e até eu teria bisado também os meus pulinhos. Mas já tinha pulado demais naquela noite e não era hora de arriscar o prumo da gravidade sem tirar nenhum proveito. Entre enfrentar o vermelho do alerta e o verde das folhas da alface da salada, até o anjo Caliel me daria nota dez. Pela opção. Deixei as pilhas do atenção mandando ver um segundo silêncio no set e fui matar centígrados como meu velho pai me ensinou. À la chope bem gelado. Aquela dos oks e do corta! não tinha nada a ver, e também não seria naquele ótimo de réu antes da sentença que o pé-direito do quadrado da largura daria as mijadas extra muros conjugais. De forma que, tempo por tempo, mais valia picar o gelo e jogar no lixo os ponteiros dos relógios. E deixei o marfim rolar no chope até que o almoço entrou em função de. Entrou em função de, assim, fiz de conta, que a fome era nenhuma. Mas ganha um doce quem adivinhar qual foi o eleito que sentou junto de mim. Mas de jeito maneira, cara-pálida. Adivinhar dá sempre nisso. Logo, logo o tal do doutor Freud entra na jogada e todo mundo embarca nessa de importância das forças geradoras. Não foi o volante do trator que sentou, não senhor. Foi o Ximu, e cuspindo a farofa do churrasco. - Aquele desgraçado não sabe nem olhar o horizonte. Lembra do que eu escrevi no roteiro, o Grande Cidadão no jardim, parado junto do lago onde continua nadando o casal de cisnes negros, absolutamente imóvel, olhando fixamente a linha do horizonte? Pois o infeliz olhava para o ar como se não soubesse nem ver. Se continuar assim, eu juro que tiro o meu nome dos créditos do filme. Ah, tiro. Tiro mesmo. E se a Catarina não fizer a Florismália que eu criei... Falou em Florismália, danou-se. Trombou no meu ouvido. - Ela filma hoje? - Filma de tarde. - E entra numa de cena mais dramática? - A primeira cena da seqüência do boudoir, pra mim, é uma das cenas mais dramáticas. A fala dela é a primeira fala do filme e é importantíssima prá construção dramática do enredo. Se ela não souber abrir ali o personagem... Abrir o quê, cara-pálida? Onde entra fala não sai roupa, ou pensa que eu nunca vi a cascavel entrar com O Diabo na Carne de Miss Jones? Larguei o abertura do 15º tratamento na terceira reticência e mandei ver um Ballantine’s no capricho. Se valesse a pena passar a tarde no ringue dos centígrados, de um jeito ou de outro, a nossa muito mais do que querida Florismália me daria um lamiré. Afinal, depois do dramatismo daquele eu também da noite anterior, que não constava do 15° tratamento do Ximu mas me amanteigou mais do que vaquinha de presépio, a não ser a mormaçada do soslaio, ainda não tínhamos trocado nem suspiro. E não deu outra. Foi o pinípede fumegar o charutão à la Fidel desce Sierra Maestra acelerado e logo os pianíssimos acordes pintaram do meu lado. - Vai assistir? - Você... - Hum, hum. Pelo menos, já tive que decorar a fala. Dizem que mulher bonita ou é burra, se for loura, ou surda-muda, se for morena. Não sei quem disse isto, mas uma coisa eu garanto. Carioca da gema não foi. Se fosse, você acha que a tanga teria sido inventada na praia de Ipanema? Eu ainda não tinha visto os pianíssimos acordes na praia, mas uma coisa era certa, certíssima. A nossa mais do que querida Florismália, além de não ter entrado em função de no quadrado da largura da suíte do mistério, entendia mais de agás aspirados do que todas as gramáticas da FENAME. E foi esse entendimento que me livrou de passar parte da tarde no ringue dos centígrados. Se o dramatismo só tirava a roupa na segunda cena da segunda seqüência e eu já tinha comido a maçã no Restaurante Paraíso, valeria a pena enfrentar outro alerta vermelho de centígrados só para ver o Ximu morder os cotovelos se os pontos de exclamação do primeiro vôo do cururu não abrissem as portas das salas dos cinemas? Como muito bem dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, mais vale ver o São Cristóvão ganhar do Olaria do que ver o Vasco perder do Flamengo. Para não correr o risco de bater de frente no quadrado da largura e levantar mais suspeitas do que araponga do SNI farejando leninismos come criancinha nos verbetes do Dicionário do Aurélio, deixei os pianíssimos acordes pianando e fui polir o caniço das iscas dos anzóis. - Vai assistir? - Eu... - Venha. Vamos filmar a fala da cena do boudoir. - Só a fala? - Você não imagina o quê que é filmar uma fala. Tem hora que leva horas. Odeio palavrão, mas tem hora que não tem jeito. Viram a dissimilitude? E depois ainda dizem que intelectual tem gosto predominante ou inclinação pelas coisas do espírito, da inteligência. Que me perdoe o não come criancinha do Aurélio, mas o Joãozinho Trinta é que devia ter feito o verbete. Intelectual gosta é de miséria. Mas miséria, assim, daquela de scotch on the rocks e deixa eu que eu sou mais eu, entendeu? Não me leve a mal, viu, dona FENAME, mas depois desta nem um bilhão de gramáticas faria aquele quadrado da largura entender de reticências. - Não. Obrigado. Tenho que pensar na segunda página da matéria. - Pensa depois. Fazer o quê? Abrir outra vez a barraca de praia do melhor sorriso sim-senhor e mandar o resto da vergonha colar selos no campanário das urtigas, ou bancar o manga-larga marchador do presidente Figueiredo ameaçando prender e arrebentar quem não aceitasse a liberdade do novo modelo da democracia brasileira? E se já tinha feito com a mulher, por que não fazer com o marido? Refilei um souza cruz nos conformes e, para mostrar que atitude não é só substantivo, mandei ver a mais profunda quer-ver-só?, se viu, viu, se não viu nunca vai ver, mas, na cautela, deixei o fumo sair pelo nariz e pela boca num sentido de perfeita tolerância. - Infelizmente, não dá. A coisa tem que ser muito bem pensada. - O Ximu não pode... - Cada um tem o seu estilo. - Isso é verdade. Estilo é uma coisa muito séria. E sabe qual é o meu? Eu não sabia, mas fiz aquele faz-de-conta à la porta-voz da presidência, que só abre a boca quando o presidente fecha a dele. E funcionou que nem, dizem, funciona a democracia dos banqueiros na Suíça. Na chincha. As tripas do Ximu não deram por encerrada a pausa pré-vestibular e abriram as comportas das considerações peremptórias. - Como odeio, mas odeio mesmo, visceralmente, essas burocracias, essas bobagens que o Ximu adora botar no papel, mas que só servem pra matar o ato da criação, eu lhe digo qual é o meu estilo. O meu estilo é o contexto do momento. O sabor da inspiração, entendeu? E é por isso, por isso e por outros fatores, mas que não vêm ao caso no momento, que esses críticos idiotas dizem que eu não entendo de cinema. Imagine eu não entender de cinema. Logo eu, eu, que sou irmão de fé do Walter Lima Júnior e do amor que ele tem ao John Ford, que conheço o Leon Hirzsman, o Alberto Salvá, o Joaquim Pedro, o Nelson Pereira dos Santos, o Wladimir Carvalho, o Roberto Faria, o Alex Viany, o Júlio Bressane, o Roberto Pires, o Paulo César Saraceni, o Domingos de Oliveira, o Antônio Carlos Fontoura, o Gustavo Dahl, o Fernando Coni Campos, o Arnaldo Jabor, o Cacá Diegues, o Roberto Santos, o Maurice Capovilla, o Wilson Silva, o Maurício Gomes Leite, o Sílvio Back, o David Neves, o Rogério Sganzerla, o Rui Guerra, o Eduardo Coutinho, o Miguel Borges, o Geraldo Veloso, o Paulo Augusto Gomes, toda essa turma que anda por aí, e alguns até que já morreram, como o Alberto Cavalcanti e o Adhemar Gonzaga, por exemplo. Eu conheço tanto de cinema, veja bem, conheço tanto de cinema, que conheci até o Glauber Rocha. Que foi quem me ensinou, preste atenção, que foi quem me ensinou a dar valor à inspiração. Ao que eu chamo contexto do momento, entendeu? Quando me contaram que um tal de Carlos Drummond de Andrade encontrou uma pedra no meio do caminho e só por trombar nela virou o Pelé da poesia, eu não acreditei. Não acreditei, não porque não acreditasse nas pedras ou nas trombas. Não acreditei porque, só catando bicharada perdida, eu já tinha andado miles de caminhos, e de pedras trombadas, no mínimo, adeus três pares de sapatos cada ano. Mas para ser um Pelezão, não precisava nem a bicharada e o adeus. Só o sustenido daquele contexto do momento já era trombada para nenhum ministro do Senhor botar defeito. Mas sorte é sorte, e sorte é isso mesmo. Ou você é uma Xuxa e tem Pelé sobrando do seu lado, e qualquer pedra vira diamante, ou você é o que é e o contexto do momento que pague o aluguel. Pague o aluguel, assim, foi o entendeu matar a dúvida e o silêncio do já viu entrar na maior pausa de atitude. Daquelas que até virgem-mártir esconjura antes do finis. - Por falar em Glauber, vou-lhe dizer uma coisa que pouca gente sabe, e que eu faço questão seja colocada na matéria. Lembra daquela frase, uma idéia na cabeça e uma câmera na mão, que todo mundo diz que é do Glauber, e ele deixava correr e eu também? Pois não é do Glauber, é do Paulo César Saraceni, e foi o Paulinho que a disse, e disse assim, ó: O negócio é juntar Jean Rouch com Rossellini. Uma idéia na cabeça e uma câmera na mão. E foi aí que nasceu o cinema novo, entendeu? Por isso é que eu digo, se esses críticos idiotas, e não só críticos, não, que tem muito colega no meio, entendessem o que eu entendo de cinema, não diriam as besteiras que dizem. Calou-se que nem, dizem, um tal de Júlio César se calava no senado romano depois de fuzilar gregos e troianos com um latim mais afiado do que gilete corta eu, e, satisfeito com a razia do discurso, mandou ver a chaminé do charutão. - Encontramo-nos no jantar, pelo menos? - Vai depender do rendimento. Para quem não veste farda e não manda quem pode, mas quer calar a boca do pé-no-saco, melhor falar em rendimento do que gritar teje preso. Com o coitado do cruzeiro carcomido na ferrugem de mais de 200% de inflação ao ano, não tem carteira-coração que resista. E não deu outra. Ainda o mento do rendi saçaricava na toalha e já o quadrado da largura esmagava o fidelão no cinzeiro e metia o pé na cumbuca da distância. - Vamos. Com a centigragem fritando navegantes no antes e no depois, mandei ver outro Ballantine’s no capricho e deixei rolar o vamos pegar todo mundo no cabresto. Se a tarde era propriedade do Senhor, o que fazer com o tempo era que nem o meu estaminé. Cumprida a lei do silêncio, todo o resto era conforme. Era conforme, assim, valia tudo menos hastear a bandeira a meio pau e não ir no enterro do finado. No caso, demolhar a figadeira com as minerais magnesianas ou sapear as misses perdidas nas esquinas. Mas, valha a verdade, a vontade também não ajudava. Além dos centígrados que patrulhavam as fontes e ferviam o mais corajoso dos incautos, de que valia sapear as misses mundo perdidas no capim e não ter a menor condição de entrar em função de? Depois da capinagem daquela noite nem o maior garrafão de chá de catuaba me levantaria o moral dos baixios. E, aí, já viu. Pior por pior, nada melhor do que manter a bandeira a meio pau e ir no enterro do finado. Com o Estado-Maior Conjunto & Cia catrafiado na suíte do pinípede pelejando a cena do boudoir, nada demais eu catrafiar o Adauto Simplício no meu apartamento e dar uma de bela adormecida. Dizem que o sono do justo corre parelhas com a vigília do pecador. Não tem sonhos. Verdade maior nem aquela dos Salmos, 115:17. Embalado por um terceiro Ballantine’s cubado na medida da canseira, caí na cama e apaguei que nem farol segura-tesão de faroleiro. Sem a menor trauma de culpa. Lembra do desmaio do James Bond no 007 Contra o Satânico Dr. No? Pois o que me tirou do delíquio não foi a certeza de comer a Ursula Andress na última cena do filme. Foi a maior fome canina que já me ladrou no oco do intestino. Não era a primeira vez que passava uma noite lascando couro, mas passar uma noite lascando couro e o resto do dia lascado por um mísero café da manhã, uns chopes e umas folhas de alface ao meio-dia, era jejum para nenhuma Sexta-feira da Paixão botar defeito. E, aí, já viu. Entre correr o risco de entrar em congestão ou tomar banho antes de comer e desmilingüir dentro do banheiro, nem Deus duvidaria. Engolido metade do cardápio e empuxada a digestão com um Ballantine’s cubado à la Maracanã Fla-Flu, foi hora de pensar em meter a mão na cumbuca do trabalho. Retirada a nossa muito mais do que querida Florismália do estoque das suspeitas, entrava na vitrine a nossa perfeita secretária, a Lalá das nádegas tanajuras, que assentava arraiais no apartamento do lado do quadrado da largura da suíte do mistério. E, aí, das duas, uma. Ou nenhuma. Uma, o pescador de robalos tinha a chave da porta. Nenhuma, as tanajuras não chaveavam a porta. Mas uma ou nenhuma era o de menos. O demais seria o flash da Nikon dar uma de pirilampo em divórcio de lanterninha de pulgueiro e apagar na hora do vamos ver. Apesar de a abertura do cofre do tesouro nacional da nossa perfeita secretária ser feita no apartamento da própria, a questão não passava pelas fímbrias da moral. Passava, sim, pelo tamanho do colchão. Embora a cama das nádegas tanajuras não parelhasse com a da suíte do pinípede, quem sabe a menoridade do tamanho não daria à função um condimento mais selvagem, bem à lá rinoceronte fumigado, uma vez que a dificuldade do manejo pistolônico seria diretamente proporcional ao volume das partes envolvidas? Não é para me gabar, não, mas de condimentos mais selvagens eu entendo. Quem já cangotou alguma a fim em banco traseiro de fusca, em banheiro de avião ou em aperto de trem da Central do Brasil saberá, exatamente, o gosto e o tamanho dos falados condimentos. Quanto maior a dificuldade, mais adrenalina entra nos conformes e mais os finalmentes chegam no estouro. E a ver pela imensa padaria, a nossa perfeita secretária não faria abatimento. Ou o forno estourava os 212 graus farenheit da Lauren Bacall, ou o quadrado da largura do pinípede entrava numa de plano inclinado. E, aí, já viu. Nem o cururu mais voador daria jeito. Assim priorizadas as ordens dos fatores, a conclusão tornou-se inevitável. Inevitável, diz o Dicionário do Aurélio, vem do latim inivitabile, é um adjetivo com dois gêneros e significa não evitável; fatal. E foi, justamente, a fatalidade que botou vidro moído na meleca do angu. Com o chrono do meu casio alarm ainda capengando nas 21:17 19, apesar da perfeita demonstração do teorema dos condimentos mais selvagens, outra inevitabilidade pintou na conclusão do meu céu de brigadeiro. Fazer o quê com a capengagem do chrono do meu casio alarm até que os digitais anunciassem o fim do plantão do anjo Caliel e dos santos Áquila, mártir, Ildefonso, bispo, Severiano, mártir, Clemente, bispo e João Esmoler, também bispo, e o anjo Lêviah e os santos Francisco de Salles, bispo e doutor, Artêmio, Timóteo, bispo e mártir, e Feliciano, bispo, abençoassem as minhas ações depois da meia-noite? Não era nada, não era nada, era tempo mais do que suficiente para que o nosso muito mais do que indigitado ministro da Fazenda mandasse ver um novo aumento na gasolina do meu Porsche Turbo 3000 e no Ballantine’s da minha digestão. Viu o quanto sofre quem não nasceu banqueiro ou quem não está ministro da Fazenda? Uma simples resposta a uma pergunta ainda mais simples, e lá se foi o prazer de uma boa digestão. Mas Deus entende dos humildes e não foi à toa que me fez filho do velho Eduardo da Micas do Ferreiro. Que, apesar de nunca ter roubado o suficiente para comprar uma passagem de volta a Portugal e morrer em paz na tal de Serra do Gerês, sempre me tirou dos abismos depressivos. Não fosse ele e, numa hora como esta, nem outro royal straight flush igual ao do Hotel das Paineiras me tiraria daquele abismo freudantesco. Por isso eu sempre digo, mais vale um pai que entenda do riscado do que um filho que entenda de freudismos. E, para minha salvação, meu velho pai riscava melhor do que ninguém. Tempo, dizia ele, é que nem ovo de codorna. Todo mundo diz isto e aquilo, mas não tem isto nem aquilo. Quer dizer, por mais roscas que tenha o parafuso, há sempre uma sem volta. Fazer o quê, então, se a volta era sem? Matar o resto da garrafa ou matar o resto do tempo? Sem dúvida, matar o resto do tempo. Se matasse o resto da garrafa, será que a chave mixa funcionaria nos conformes e o flash da Nikon alumiaria o pão do quadrado da largura cozendo no forno padeiro da nossa perfeita secretária? Sabe por que é que novela de televisão nunca foi a minha praia? Apenas por uma questão geográfica. Para quem vive no Rio de Janeiro, mora ali na Tijuca dois barrancos abaixo do Morro do Turano e já meteu o nariz na cumbuca da maioria dos bibocais cariocas, novela brasileira não se passa no Brasil. Passa-se na República Federativa Milagre Paraíso. E naquele milagrão que era o jardim do Éden antes da Eva conhecer os efeitos antidiaréicos da vitamina da maçã. Se rico, que é rico mesmo, daquele que não precisa nem sonegar imposto que a Receita ainda lhe paga, sempre mora num casarão de trinta quartos, e pobre, que é pobre mesmo, daquele que deve até bom-dia a vizinho, também mora num casarão de quinze quartos, onde ficam os barracos do Curral das Éguas ou da Favela de Maré? Dizem os desafetos da lavagem de audiência que a Rede Globo dá nas outras redes, que ficam na Suíça, depois que o hino do Salmo Suíço virou um hinão no Chão de Estrelas. Não sei. Nunca tive conta numerada nem pisei nos astros distraído. Por isso, só boto o pé na areia quando um ou outro marido daquelas madames dos embeurrées d’escargots, agradecido por algum servicinho mais xaveco, me carrega para um uísquinho fajuto e a TV Globo fornece o acompanhamento do bebes, ou, então, quando meto uma mina na toca e ela faz questão de dar um chego nas Fábulas Fantásticas antes de turbinar os motores do vem quente que eu estou fervendo. Mas com o chrono do meu casio alarm mal-chega-que-chega às 21:27 22 e o resto da digestão já entrando no desvio intestinal da privada, o que sobrava da escolha da rosca mata-tempo? Lembrar casos passados ou sonhar casos futuros e correr o risco de cochilar acima do devido, ou ligar a televisão e aventurar o que viesse? Aí, senti a barra e aventurei. Aventurei, mas aventurei, assim, já sabendo a mexedura que ia dar. E não deu outra. Paguei mais pato do que bicheiro em dia de São Jorge. Mas, mesmo não sacando um vintém de italiano, não entendendo lhufas de francês, não morando um nicles de alemão e pescando ainda menos de dialeto romanche do que candidato zona-sul catando votos em Bangu, valeu a viagem à terra dos relógios. Pelo menos, o chrono do meu casio alarm largou da pasmaceira do mal-chega-que-chega, e, quando a via intestinal hasteou a bandeira dos perfumes, os digitais já deduravam nas 23:32 17. Hora mais do que perfeita para bancar os eleitos na filmagem da externa da segunda seqüência: bisar os conformes da primeira e xerocar a gritaria. Mas quem tem relógio sabe o que são horas. Assim como há relógios e relógios, também há horas e horas. E quando a via intestinal hasteia a bandeira dos perfumes não tem bis nem xerox que trave o estouro da boiada. Ou você corre para o banheiro e abre todas as comportas, ou as cuecas e as calças viram coletor não seletivo. E, aí, já viu. Mesmo com a rosca mata-tempo já saindo da porca, o empuxo dos perfumes não me deu a menor chance. Foi sentar na privada e dar vez ao descarrego. Mas descarrego, assim, com metade do cardápio triturado e a digestão catalisada por um Ballantine’s cubado à la Maracanã Fla-Flu, a limpeza dos porões foi trabalho para nenhum sindicato piaçaba botar a boca no trombone. Mas valeu o esforço. Ao fim de meia hora de luta, mais chinfrim, menos chinfrim, a bandeira dos perfumes arriou e subiu no mastro a bandeira do alívio. E que alívio. Só quem já teve que contratar a Roto-Rooter para desentupir um cano enraizado sabe o alívio que dá ver a água sair limpa no bico da torneira. Com a via intestinal já dentro dos conformes e o chrono do meu casio alarm chispando nas 0: 03 33, agora, sim, a hora de bancar os eleitos na filmagem da externa da segunda seqüência tinha entrado na reta da chegada. Só que, embora a operação fotocrômica fosse a mesma da noite anterior, alguns dos finalmentes tinham que ser adaptados. Logo de saída, flitar as áreas descobertas e os amassos da roupa com uma boa dose de ar refrigerado, não fosse algum dos perfumes comprimidos ter porejado nos pêlos e nos panos, e o meu pé ante pé nos corredores corresse o risco de deixar um rasto que até sinusite crônica podia farejar. Eliminada a possibilidade do farejo pela congelação da sulfidrice do gasômetro intestinal, a bola da vez foi mandar ver um Ballantine’s cubado na medida certa de firmar as intenções e olear todas as juntas. Rebitados os propósitos e com as cartilagens já em função de, o resto foi que nem lacrar testamento de falido. Moleza. A chave mixa condizente com a fechadura do apartamento da nossa padaria tanajura entrou no camarote especial do estojo, aço made in Sweden, e o flash da Nikon encandeou a maçaneta da porta na distância exata dos dois metros. Com as melhores bênçãos do anjo Lêviah, trinquei o último cubo de gelo do Ballantine’s das firmezas e reduzi um souza cruz a quarta-feira de cinzas com duas caprichadas covas-fundas. Confirmado o bom funcionamento das cartilagens e dos bofes, tudo rolou no mais perfeito dos conformes. Mas uma coisa é perfeição e outra é segurar todas as pontas. Pronto para turbinar os motores e iniciar a contagem regressiva, não é que a dúvida de um desgramado valerá a pena verificar se os condimentos mais selvagens já entraram na panela me faz tremer nas bases e me obriga a pegar o telefone? Só que Deus sabe o que faz e não é à toa que a terra se pendura no céu sem precisar nenhum guindaste. Quando a praga dos gafanhotos capinou as dunas do Egito, quem deu aos chineses a melhor receita de embeurrée de sauterelles? E quando o general De Gaulle disse que o Brasil não era um país sério, quem botou um tal de Georges Pompidou no lugar dele? Por isso, logo que o sinal de discar entrou na linha não estranhei que o meu Santo Expedito atendesse a ligação. De que duvidas, meu filho? Já esqueceste o que diz o Santo Livro em Provérbios 17:16? Tu não és tolo, tens entendimento, sabes que já passa da meia-noite, sabes que os condimentos mais selvagens sempre levam tempo a cozinhar e amanhã é dia de trabalho. Portanto, já sabes também que a panela há muito entrou no cerne da fogueira. E, além do mais, que farias tu se a tua dúvida, por um acaso, fosse à la universo em expansão ou fosse à la ato falhado, chamasse a lebre do ouvido de uma das cenas mais dramáticas e o dramatismo corresse e atendesse o telefone? Mentirias? E que proveito tirarias? Acaso não sabes que mentir sem proveito é o maior dos pecados nos mercados capitais? Além de nada ajudar a quem mente, também não salva quem acredita na mentira? Não é por nada, não, mas é por estas e por outras que tenho a maior fé no meu Santo Expedito. Em todas as causas urgentes e em todos os negócios que precisaram de pronta solução, nunca ele deixou voar os pássaros e a minha mão ficar vazia. Por isso, mesmo não sendo nenhum Saulo e nada tendo contra os discípulos do Senhor, entrei na Estrada de Damasco com a maior convicção. Bati o telefone no gancho e, sem mais outras nem aquelas, botei o pé ante pé no corredor. Mas só quem já pegou a mulher do melhor amigo e afogou as suspeitas do marido em quartos separados, sabe o tremelique que dá um corredor de hotel entupido de hóspedes que podem abrir as portas dos apartamentos e mandar ver um bué de milhões de decibéis. Como dizia meu velho pai e dizia melhor do que ninguém, só não teme quem dorme na hora do vamos ver. Mas, se o meu Santo Expedito nunca deixou voar os pássaros e a minha mão ficar vazia, um Ballantine’s cubado na medida certa de firmar as intenções também nunca me deixou tremer além do necessário. Que isto de tremer, é como dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, até o Maracanã treme quando o árbitro é torcedor do Flamengo e o Vasco joga contra. Portanto, meu prezado, tremer por tremer, que trema o Morro da Urca, que foi lá que faliu a TV Tupi e eu não tive nada a ver com a tramóia. Sem querer bancar o João Sem Medo e bater de frente com os tanques do presidente Médici, aquele que não era Lourenço, o Magnífico, mas também adorava um poder à Termidor que nem lagosta, e trombar com o Dadá Peito de Aço ou Maravilha pendurado nos canhões como dito salvador da seleção brasileira de 1970, ainda assim deu para mandar os tremeliques sambar no pé do campanário das urtigas e tratei foi de melhorar a gatice do meu pé ante pé. Prometendo, à cautela, é claro, acender uma vela de dois metros ao meu Santo se não houvesse nenhuma mulher de melhor amigo afogando as suspeitas do marido em quartos separados. Não havia, ou se havia a função de já tinha entrado no maior quilômetro de arrancada, e o meu pé ante pé não sofreu nenhum percalço. Foi o chrono do meu casio alarm cravar 0:15 17 e a minha respiração parar na porta dos suspiros. Mas suspiro que se preza, todo mundo sabe, é que nem confessionário. O que diz o pecador não ultrapassa o volume do ouvido do padre confessor. A não ser que a culpa seja tanta e o gogó engasgue na hora da contrição. Mas, mesmo assim, se algum decibel escapa pelas frinchas, o contrito continua indevassado. E foi o que deu. Por mais que o pé do meu ouvido levantasse, nenhum barulho de fervura escapulia da panela. A não ser um ou outro ssssssss de vôo de mosquito cortado por um xxxxxxxx de asa freada no repente, nada mais decibelava o silêncio da minha parada respiratória. Mas ninguém me jurava que os ss dos vôos e os xx das freadas não pudessem ser reflexos condicionados dos canudos dos ouvidos. Não dizem por aí que quem come jiló pode arrotar até fruta-de-conde, dependendo da companhia e do objetivo da intenção? Que não era o meu caso. Nunca gostei do fel do jiló nem do mel da pinheira. Mas, com gosto ou sem ele, quem sabe os meus ouvidos tinham resolvido soletrar algumas consoantes por sua própria conta e risco, coisa que o marechal Castelo Branco nunca fez, nem na chefia do Estado Maior do Exército, nem na Presidência da República? Claro que estas alongadas considerações são feitas no aqui e no agora, mas no lá do corredor, o alongamento parou no consi. Foi eu sentir que as consoantes não traziam vogais de contrapeso e já a chave mixa penetrava a via da regra da fechadura na maior suavidade. Lembra do 007 Contra Goldfinger e como o serviço de sua majestade gazuou a porta da suíte da cupincha do Gold na marosca das cartas, naquele hotel de Miami? Não pareceu mesmo abertura para CIA nenhuma botar defeito? E digo mais. Só não ganhou o Movier Prize de Melhores Efeitos Especiais do Rio Tâmisa porque o Finger não conseguiu hiroshimar o ouro do Fort Knox. Mas eu, que nunca percebi a menor diferença entre um champanhe Dom Pérignon, que já tomei acompanhando a meleca do embeurrée d’escargots, e um champanhe Peterlongo, que sempre tomo no meu aniversário, que nunca troquei o meu Ballantine’s pelo mais bem batido martini, que nunca tive as seis polegadas do cano do meu Taurus .38 licenciadas para matar nem mosquito da dengue, que nunca fui pago para comer nenhuma bond-girl no fim de cada filme, uma coisa posso dizer com o maior orgulho e a maior certeza de não cometer nenhum pecado no mercado capital, pois até o Santo Livro diz em Mateus 22:21, Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus: sempre abri as portas dos outros com o suor das minhas próprias ferramentas, e não com a ajuda de camareiras pagas pelas verbas oficiais da produção. Mas não é só isso, não. Se fosse só dar a César o que é de César, ainda vá lá. De um jeito ou de outro se dava um jeito. O problema, é que se eu fizesse o que fez o aerossol do James Bond, pegar a coitada das toalhas e lençóis, mandar aquele olhar à la sheik de Agadir monta-camelo em cima dela e ela, desesperadamente enamorada, deixar abrir a porta com a própria chave-mestra, sabe o que ia acontecer? Além do berreiro no hotel e tudo sifu numa pior, babau. Depois de uma mancada daquelas, muito para além da mancada-mor das Olimpíadas, nem o SNI me contrataria para estepe de araponga subjúnior. Por isso é que sempre preferi ser o roteirista e diretor do meu próprio ganha-pão. E foi a minha parada respiratória entrar nos eixos, a chave mixa penetrar a regra da via fechatória, que o toque de mestre fez o resto. Fez o resto, assim, nem a mão da pompa nem os colchões da circunstância balançavam em qualquer cadência conhecida. Além da penumbra, do silêncio e de alguma barata operando turismo interno no ralo do banheiro, nada na suíte do mistério indicava função de. Se função havia, e havia, meu prezado, se não houvesse a Lassie à la Nunca Fui Santa não me beijaria a mão numa diária à lá taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar, a mijada extramuros do pinípede dobrava outra esquina do pecado. E, pecado por pecado, já viu. Para um quadrado de largura que melhor praia sem raquetes do que o volume tanajuro da nossa perfeita secretária? Foi o pensamento entrar na via do vamos ver e logo a chave mixa fechou a porta do vazio. Que as iscas dos anzóis pescavam robalos em outra freguesia era mais certo do que certíssimo. E lá foi o meu pé ante pé rezar a missa no altar da nossa perfeita secretária, que era o mais próximo armarinho de pecação no atacado e no varejo. Na mosca. Aberta a porta sem que nenhum decibel zoneasse as consoantes dos ilhoses, o zoom da Nikon atestou a distância dos dois metros e, antes que o primeiro grito chinfrinasse no escuro, mandei ver o primeiro estouro do flash. Lembra quando peguei aquele royal straight flush no Hotel das Paineiras? Moleza pura. Eram dois machos, e nem o marido da madame nem o negão cavalgador abriram nenhum bué. Mas ali, com fêmea metida nos lençóis, a moleza passou longe. Mal o flash acendeu as lamparinas, se não toco a sanfona a mil por hora, a gritaria me pegava no sem jeito. Mas Santo é Santo, e o meu Santo Expedito estava de prontidão. Mesmo com os trombones afinando os decibéis deu para chapar alguns cliques e sumir no corredor do meu andar antes que o Corpo de Bombeiros acudisse ao fogaréu. Meu velho pai tinha razão. Sumir em corredor é que nem entrar em cemitério. É outro mundo. Ninguém olha, ninguém vê, e tudo que ficou sumiu do mapa. Por isso gosto do Caju. Ninguém aporrinha ninguém e todo mundo nacionalizou na mesma terra. Para falar a verdade, só não moro lá porque tenho uma cobertura na Tijuca, um Porsche Turbo 3000 na garagem e um fornecedor de Ballantine’s que nunca me enganou. Mas que aquele silêncio dá gosto de escutar, até ladrão de galinha assina em branco. Parece que não tem nada a ver, mas tem. Depois daquela chinfrinada, com as sirenes do Corpo de Bombeiros no hodômetro, os clarins do Sétimo de Cavalaria no galope, os gritos dos flagrados na boca do trombone, subir o lanço de escadas no salto e dar uma boa respirada a três portas do meu apartamento foi que nem entrar no purgatório. Mais alguns metros de carpete e o paraíso do colchão acolheria o meu ufa-ufa já em função de desmilingüir antes do tempo. E acolheu. Acolheu, mas acolheu, assim, um Ballantine’s à la caubói de cinerama niagarado nas goelas, que o coração batia mais do que banqueiro em porta de saldo negativo, e o rrrrrrrr do ar condicionado metralhando todos os centígrados, que o suor da maratona fervia mais do que urubu em carnicão de sapucaia. Acertadas as batidas peitorais e rasada a cova dos centígrados, foi a vez de calar os gritos pulmonares com dois souza cruz embuchados nos conformes. Levou seu tempo botar ordem nos alentos. Mas tudo leva tempo, e o importante nestas questões de competência não são os chronos dos casios alarms, são as relações custo/benefício. Que foram razoáveis. Aliás, bem mais que razoáveis. Salvar a pátria numa simples corrida de cem metros com esquinas e apenas três efeitos colaterais, convenhamos, era preço para camelô nenhum botar defeito. E não fosse a gritaria dos ecologistas pulmonares não me ter deixado adormecer, numa boa a baleia-azul do benefício teria engolido o arpão-mor do custo todo. Mas foi até bom não ter entrado numa de ai-ai. Se adormecesse antes de revelar os negativos e a Cavilinha da Lassie pegasse a chinfrinada, nem o Rin-Tin-Tin duvidaria, logo, logo, a questão de competência viraria questão de confiança. E, aí, já viu. Na hora em que o cerne da questão muda de prumo e a confiança passa a tema de conversa, nem o papa se livra de suspeitas. Já com os alentos ordenados e um gelinho temperando o Ballantine’s do doutorado honoris kodak, era a vez do balaio das revelações fotocrômicas entrar em função de. Investigador sigiloso que se preza é que nem veterinário. Ou conhece todos os badalos ou muda de profissão. Fazer o quê com pacientes que só entram com o corpo e, mesmo assim, ainda rosnando ou dando coice? Já pensou a merda que os ventiladores jogariam nas paredes se um royal straight flush que nem o do Hotel das Paineiras dependesse de qualquer lambe-lambe fazer boca de siri? Para início de conversa, jamais eu teria uma cobertura na Tijuca, um Porsche Turbo 3000 na garagem e um Ballantine’s no meu bar particular. E, para finalizar o agouro, seria mais fácil a seleção brasileira ter ganho a Copa da Espanha do que eu continuar vivo e meter de graça nos bofes este ar que o ministro da Fazenda esqueceu de tachar com mais um imposto respiratório. Por isso não chorei os marechais que me doutoraram honoris kodak e um porrilhão de outras honras. Como dizia meu velho pai e dizia muito bem, viver é fácil, o difícil é pagar o aluguel e as faturas. - Claro que eu tenho certeza. Conheço a Lalá, ó, desde que o Zózimo dirigiu o Já com a têmpera do Ballantine’s no ponto de abrir as comportas da goela e botar o pé na estrada da função, toca o telefone, e, junto com o trrrrim-trrrrim, não é que vem o tremelique dos sustos inesperados e o copo se esparrama no chão? - Puta que o pariu! Mas de nada valeu o pontapé no catecismo. O trrrrim-trrrrim não deu a menor bola ao chute na canela e o jeito foi engolir o anexo que já subia no gogó e atender. - Alô? Quem fala? - Esqueceu, é? Quem consegue esquecer as cenas mais dramáticas, mesmo não vendo o sem-calcinha-e-sutiã do dramatismo? Nem o ministro Armando Falcão, que deitava no divã do analista e tapava os buracos censuráveis com um nada a declarar mais duro de engolir do que bula de remédio purgativo. - Desculpe. É que eu tava trabalhando e... - Trabalhando? A esta hora? - Revisando a matéria. Nada como uma resposta sem vírgulas para botar ponto final numa pergunta duvidosa. Funciona que nem agulha de ferrovia em terminal de estação. Queira ou não queira, o trem entra no desvio e babau. Ou pára ou rebenta no muro acaba-mundo. - Quer dizer que não viu o fuzuê? Mentir nunca me deu azia, mas é sempre bom poder dizer uma verdade sem ficar comprometido. - Não. - Não mesmo? - Mas que fuzuê? - Não soube, não? Um tarado entrou no apartamento da Lalá e pegou ela na cama com a Selma. - Pegou a Lalá com a Selma? Como pegou a... - Como pegou? Pegou na cama. - Quer dizer que as duas... - Não sabia, não? Jura? - A Lalá com a... - Meu querido, você tá que nem o presidente Figueiredo que só liga pra cavalos, sabia? Dizem que o que mais humilhou o Dr. Adolf Haber, primeiro mata-mosquito a experimentar o pó-de-mico como agente inseticida, não foi perder o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1948 para um tal de Paul H. Müller, descobridor das tendências antientomológicas do DDT, foi ter descoberto o que todo mundo já sabia: coceira não mata, alivia. Eu nunca fui mata-mosquito e, muito menos, candidato a qualquer prêmio, mas que deu para entender a humilhação do pó-de-mico, disso nem São Tomé duvidou. Não é por nada, não, mas é por estas e por outras que o último a saber é sempre corno. E mesmo que não seja, dói como se fosse. Puta que o pariu! Bater o recorde mundial dos cem metros com escadas, e pagar um mico do tamanho do King Kong, nem o presidente Geisel jurando em Nuremberg que as oficinas dos DOI-CODI botavam mais beleza no mercado do que os bisturis do doutor Ivo Pitanguy e que o céu da democracia brasileira só não era de brigadeiro porque ele era general. - E ele? - Ele, quem? - O Zózimo. - Quê que tem o Zózimo? - Tá onde? - E eu sei? Tá por aí. - Por aí, onde? - Por aí, ora. - Puta que o pariu! Não era para sair, não, não era pontapé no catecismo nem chute no balde, mas espanto é foda. Quando a gente esquece o Santo e o milagre acontece, tudo bem. Agora, quando nem Deus segura as pontas, não tem apelação. Nem cola-tudo bota freio. E o pior é que os decibéis zoaram na linha que nem grito de marido arribado antes da hora e o estrago pulou feito pipoca. - Quê que é isso? Viu a porra? Ou desputava logo, logo, aquele que o pariu, ou adeus novas cenas mais dramáticas. - Nada, não, desculpe. Foi a máquina de escrever que caiu no meu pé. Deus é grande, grandão. Amigão mesmo. - E tá doendo? - Demais. - Quer que eu suba? - Do jeito que eu tou? - Se der, depois me telefona? - Claro. - Então se cuida, viu? - Pode deixar. Vou botar gelo. Não rezei a ladainha pqp! pqp! pqp!, mas tirei a forra no grito que nem o Cruz! Cruz! Cruz! do 15º tratamento do Ximu. Pulei dentro do banheiro, tranquei a porta, e só não rilhei os azulejos porque o primeiro murro que dei na parede doeu mais do que devia. Não tenho nada contra mulher caramelar em cima de mulher ou homem gostar de bafo macho no cangote, aliás, foi por homem gostar de bafo macho no cangote que eu passei de catador de bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes a investigador doutorado em Porsches Turbos 3000 e Ballantine’s, mas tudo tem medida, puta merda. Claro que já dei murros em paredes, só não dá quem monta barraca no deserto, e, mesmo assim, ainda tem hora que a ponta da faca serve de parede, mas os motivos sempre foram razoáveis. Ou era eu que misturava os alhos ou eram os alhos que misturavam os bugalhos. Quer dizer, sempre que dei bandeira a bandeirada foi dada por minha conta. Agora, pagar o maior mico por conta de um tesão de espelho, sinceramente, me deixou puto. Puto, não porque dois pares de coxas batiam pratos em vez de mexer a caldeirada com uma boa colher de pau. Puto, sim, por virar merda que nem o merda do primeiro mata-mosquito que usou o pó-de-mico. Já pensou o que é você ter o maior cuidado nos conformes, passar o maior pente-fino em todos os pentelhos, chegar ao ponto de botar até balança de quilate no gelo do Ballantine’s e, de repente, trombar num brucutu que todo mundo viu, menos você? Dá ou não dá vontade de rilhar azulejos e ceramismos correlatos? Mas é assim mesmo. Como muito bem dizia meu velho pai, vontade é que nem panela de pressão. Bufa feito gato mas não caça nem barata. Com a mão doendo mais do que canela de catecismo em função de pecado capital e o pinípede pescando robalos em colchão desconhecido, das quatro, duas. Ou pedia uma aspirina ao estepe do casal receptor e me deitava, ou cubava um Ballantine’s à la Don Juan de Madureira e telefonava à cena mais dramática. Não é por nada, não, mas depois do pé ante pé milimetrado, dos cem metros com escadas, do pó-de-mico no caroço do angu e da dureza dos azulejos da parede do banheiro, bem que eu merecia uma escolha a dois por quatro. Medidas as van e as des, e empatadas as tagens, o voto da minervina ficou por conta do chrono do meu casio alarm. Com a vitrine dos arábicos iluminando 0:45 22, ganharam as van do Ballantine’s à la Don Juan de Madureira e o telefonema à cena mais dramática. Afinal, não era todo dia que a panela de pressão caçava ratos e duas horas de ginástica à la Império dos Sentidos era um preço justo pelo mico que tinha pago. E, convenhamos, eu merecia. Já que a medalha-mor das Olimpíadas do Cumprimento do Dever tinha arrumado outro pescoço para o balanço da vitória, que viesse, pelo menos, a consolação dos perdedores. |
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CUNHA DE LEIRADELLA Casa das Leiras . São Paio de Brunhais |
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