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APENAS QUESTÃO DE GOSTO
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Capítulo 4 |
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Marechal é sempre marechal. Mesmo com os cinemas entupidos e as filas do Um, cem, mil, viva Tancredo Neves, presidente do Brasil! dobrando os igarapés das fronteiras e costas navegáveis, marechal não perde direito a continência. Cinco medalhas cravadas nos cíceros da velha Tipografia Castelo de Lanhoso Ltda, e em duas horas foi composta e impressa a credencial da Revista da Cidade, qualificando o jornalista Adauto Simplício como seu repórter cultural. Plastificado e acondicionado o novo estepe digital na carteira das missões, o resto foi apenas questão de espanar o pó do saber não ocupa lugar. Caxambu, Almanaque Abril, parque estadual criado em 1966 com 968 hectares de vigilância sanitária, batizados na catedral de Brasília como vigilância ideológica. Caxambu, Guia Quatro Rodas, estância hidromineral com a meteorologia pendurada nos 895 metros de altitude, 16.000 caxambuenses redondos, Código de Endereçamento Postal, CEP, 37440, Código de Discagem Direta à Distância, DDD, 035, distância do Rio de Janeiro 228 quilômetros e engarrafamento de águas minerais para as mais diversas ziguiziras. Magnesiana, corrigindo fígados e intestinos, sulfurosa, remendando vesículas biliares, ferruginosa, recuperando anemias e fraquezas, gasosa, remediando fragilidades estomacais, e alcalina, consolidando rins e desentupindo ureteres e outros canais urineiros. Caxambu, Dicionário do Aurélio, grande tambor de origem africana usado na dança do mesmo nome. Caxambu, Bíblia, 75 hidratações, começando com a inconstância em Gên. 49:4 e terminando com a sede em Apoc. 22:17, mas nenhuma profetizando nas fontes da cidade. Caxambu, Anjos, Santos e Orações Para Todos os Dias do Ano, neres de neres. Nem parque nem tambor. Não era nada, não era, praticamente, nada, mas podiam ser 228 quilômetros de pula-pula, um passeio pelo parque, uma recauchutagem na viscerada e até um possível arrasta-pé marcado a trovão de bendenguê. E com apenas uma dúvida. Saltar na porta do Hotel Glória de um Porsche Turbo 3000 e ser tomado por um Rockefeller desprevenido ou descer na rodoviária e assumir, direto,a condição de repórter cultural? Quatro Ballantine’s discutindo prós e contras, e decorada a tradução dos versículos da epístola aos Incréus, não fosse aparecer algum porteiro de Hollywood metido a São Tomé, a solução foi a melhor. Nem Rockefeller desprevenido, nem repórter cultural. Um táxi me levaria à cova do leão e três marechais no bolso do capitão-porteiro transformariam a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart, e até os 212 graus farenheit da Lauren Bacall, no mais deslumbrado dos turistas. O resto, como diria meu velho pai, seria comido à sobremesa, com direito a palito, arroto e cafezinho. Resolvida a dúvida inquestionável, o ato contínuo. Centígrados enjaulados no estaminé, um pelotão de marechais em estado de alerta nos cofres da Rádio Portaria de Seu Manuel Joaquim para os gastos miquelinos, água, luz, telefone e outros caranguejos, as seis polegadas do cano do velho Taurus .38 depiladas no sovaco e o estojo das chaves mixas forrado no bolso do paletó, prontas para gazuar até a porta da Casa da Moeda. Que isto de entrar na casa do suspeito nos conformes da lei só mesmo nas duas Hollywoods. Na Detectives Corp., para esticar a conta do freguês e na Movies Inc., para mostrar que o mocinho está sempre do lado da justiça. Que nem o John Wayne no faz-de-conta faroéstico. Para melhorar a capa da Revista da Cidade, a Nikon Zoom entrou de pingente nos balanços peitorais, bem à la xereta entendido nas páginas eva-mãe da Playboy, e, pronto para enfrentar qualquer Scarface & Cia, lá se vai o cata-milho Adauto Simplício desnaftalinar a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart, os 212 graus farenheit da Lauren Bacall tinindo nos cascos afiados. Na mosca. Mesmo sem quepe e dragonas à la general da banda em parada de manda quem pode, obedece quem não tem farda, o capitão-porteiro do Hotel Glória poliu as medalhas dos três marechais no bolso das gorjetas, acendeu a vela dos milagres domingueiros no altar do anjo Hariel e dos santos Sebastião, Fabiano, papa e mártir, e Mauro, bispo de Cesana, rolou a vênia das boas-vindas nas dobradiças da porta, e, sem nenhumas aquelas, carregou os meus badulaques bagageiros. As mudas do banho nosso de cada dia nos dai hoje e o balaio das revelações fotocrômicas. No balcão da boa estada, um casal 20. Casal 20, assim, ela passante dos trinta e ele ganhando o páreo porta de cemitério por mais trinta anuidades catarrais, subiu nos tamancos da praxe e só não lambeu a credencial do cata-milho Adauto Simplício por absoluta falta de saliva. Apesar das diversíssimas águas que mananciavam na cidade, a vila militar dos centígrados parelhava com a caldeira da Avenida Rio Branco. O 212º grau farenheit da Lauren Bacall secando fontes e montes e desmantelando até vôo de mosquito. Confirmada a reserva e preenchida a ficha de hospedagem, a meia-calça do 20 do casal abriu um sorriso à la presidente da Petrobrás em dia de aumento de gasolina e devolveu-me o estepe digital, devidamente top secretado na carteira das missões. - Muito obrigada. A liga masculina completou a operação seja bem-vindo com um sorriso de dono de posto do gasolina avisado antes do aumento e uma chave. - Quarto andar. Apartamento... Tem gente que não atravessa as ruas nas faixas de pedestres por mera questão de afirmação. Eu não. Espero o sinal abrir e atravesso na faixa, e ainda ajudo velhinha ou cão de cego, mas odeio camas de solteiro. Daquelas que você tenta entrar por um lado e é obrigado a sair pelo outro por absoluta falta de área dormitória. - Cama de casal? O olho do dono do posto de gasolina lacrimejou e a solidariedade profissional fez o mesmo com o sorriso do presidente da Petrobrás. - Infelizmente, não temos nenhum apartamento com cama de casal disponível. Aliás, não é só com cama de casal. Nós não temos um único apartamento disponível no hotel. Estamos totalmente lotados. Eu ainda lembrava dos lotações do Rio de Janeiro, aqueles ônibus calça-curta dirigidos a palavrão de motorista português, onde sempre cabia mais um que nem sardinha em boca de ex-siri. - Totalmente? - Totalmente. Quando me contaram que um tal de Mohammed Ben Brahim Boukharouba, Houari Boumedienne para os biógrafos não autorizados, chutou o balde do faz-de-conta abaixa um, abaixa dois, e chapiscou Terceiro Mundo em todos os países que tentavam pegar uma beirada no bem-bom dos mandachuvas só porque o general De Gaulle não permitiu que a Argélia pulasse carnaval no bloco dos segundos, eu não acreditei. E não acreditei porque não podia acreditar. Afinal, a Argélia se não era lá nenhum Brasil, também não chegava a ser um gelo de Groenlândia. E Groenlândia por Groenlândia, já viu. Como é que um país que tem o maior estádio de futebol do mundo, tem a maior bacia hidrográfica, tem a maior floresta tropical, tem a maior pia de água benta vaticana, tem a maior inflação e a quem o heil do presidente Geisel fez saber no dia 7 de dezembro de 1978, 157º da Independência e 90º da República, cantochão de lua crescente do anjo Ielahiah e dos santos Policarpo, Martinho, Fara, Maria Josefa Rosello e Ambrósio, bispo de Milão e doutor da Igreja, que a leguminosa Pau-Brasil, a Caesalpina Echinata, Lam., seria considerada o símbolo-mor do milagre brasileiro, tão milagroso que nem o papa conseguiu fazer igual nos jardins do Vaticano, como é que esta terra abençoada por Deus podia ser pichada de Terceiro Mundo sem ter passado nem pelo exame do segundo? Mas de jeito maneira. Só que os biógrafos não autorizados estavam certos e a minha dúvida não valia nem o custo do papel onde nunca foi impressa. E tem mais. O velho De Gaulle também estava certo. Se o Brasil fosse, realmente, um país sério o teco-teco do ex-presidente Castello Branco, que nunca gostou de arriscar opinião e nunca teve peito para mandar o general Costa e Silva botar óculos escuros no campanário das urtigas, não teria trombado com um caça a jato da base aérea de Fortaleza e o modelo manda quem pode, obedece quem é pobre e é civil da democracia brasileira não disputaria com o bigode do general Pinochet quem mais sumiu com inimigos da liberdade, mando eu em Brasília, manda você em Santiago. Do Chile. Eu não era biógrafo nem echinata, e, muito menos, piloto de caça a jato, mas trombar era comigo. - Totalmente mesmo? Acredita que o teco-teco do Glória só não sifu naquela hora porque a meia-calça do 20 do casal segurou a manete e acelerou uma segunda edição revista e aumentada do sorriso à la presidente da Petrobrás em dia de aumento de gasolina? - Totalmente, quer dizer, temos um apartamento vago, mas está interditado com problemas hidráulicos. Fez aquela pausa à la caça a jato antes do trom e embicou na pista dos cuidados. - Mas também não seria um bom apartamento pro senhor. Janela abrindo pro jardim... - Mas teria cama de casal? - Isso, teria. - Então... - Mas, infelizmente, não vai dar. Hoje é domingo e a manutenção... Falou em manutenção, falou comigo. Quatro marechais botaram os canhões dos tanques no tampo do balcão e o milagre do colchão das noites bem dormidas logo faiscou na porta de São Pedro. Razão tinha meu velho pai quando dizia que o bocado não era guardado para quem o havia de comer. Era guardado para quem o podia pagar. - Será um prazer mandar trocar a cama. O senhor pode esperar cinco minutos? Dizem que o que mais assustou o Diogo Alves Correia, aquele dos fogos Caramuru, não foi a visão da caldeira onde os tupinambás pretendiam cozinhá-lo, foi a pederneira do mosquete ter funcionado e o tiro não sair pela culatra. Eu nunca vendi rojões de São João, nem banquei o Tarzan em cipós florestais, mas só de pensar naquele grande tambor de origem africana, a canseira já me salgava todas as miles águas caxambus. Aí, desmilingüido pelos 228 sacolejos quilométricos e sem nenhum Monte Pascoal que merecesse um Terra à Vista!, subi para o apartamento, pedi uma garrafa de Ballantine’s para contrabalançar a buraqueira do asfalto e refastelei-me no colchão dos marechais, os pelotões dos centígrados mantidos à distância pelo gelo picado do canhão do ar-refrigerado. Meia garrafa depois e um souza cruz sumido em algumas tragadas bichadíssimas, daquelas só para dizer que não fumei, os 228 sacolejos foram vender bulas do Dia do Farmacêutico no campanário das urtigas e a Orquestra Sinfônica do Silêncio entrou em função de e finis. Não sonhei. Não sonhei mas também não caí da cama. Acordei com a morcegada já gabaritando os planos do vôo se não trabuca não manduca, engoli um engasga-gato metido a besta de sanduíche a um tal de sauce não sei de quê e terminada a garrafa que nem enterro pago a prestação liguei outra vez o interfone da função. E sem mais aquelas ou loutras, assim terminou o primeiro dia da minha natação compulsória nas águas minerais de Caxambu. |
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CUNHA DE LEIRADELLA Casa das Leiras . São Paio de Brunhais |
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