APENAS QUESTÃO DE GOSTO
Romance

INDEX

Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8

Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14

Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17

Capítulo 1

Meu velho pai tinha razão. Mais vale um ovo no saco do que dois no cemitério. Nem eu nem o meu escritório nos podemos comparar à Hollywood Detectives Corp., pilotis no 1009º andar do Lyingly Building, Hollywood Boulevard, Los Angeles, Califórnia. Eu não fanho inglês como se entupisse três narizes e o meu estaminé também não tem duzentas e dez louras peitudas abrindo sorrisos e decotes nas mesas da Recepção, nem carpetes e quadros nas salas e nos corredores, frigobares disfarçando câmaras de vídeo embutidas nas paredes ou ar-condicionado central e outros arrebites me engana que eu gosto. O meu estaminé não é assim nenhum cafofo à la divã dos Rockefeller, mas dá para o gasto. Só que querer comparar a Rua Buenos Aires, no Rio de Janeiro, com o Hollywood Boulevard, em Los Angeles, é que nem sentar o Jeca Tatu num cadillac e botar o Tio Sam de motorista. Afinal, não é à toa que o tatuzinho paga um remédio ou um pirulito na filial pelo triplo do preço que o tiozão paga na matriz. E olha que o camiseta brasileiro não ganha em dólar. Que se ganhasse, já viu. Nem o Tesouro Nacional dava jeito. Como muito bem dizia meu velho pai, um português perdido no bairro do Cubango, em Niterói-antes-da-ponte, que chegou ao Brasil no vácuo de uns tais de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, jóqueis de um teco-teco que ganhou o Sweepstake das Gaivotas por três bicos e duas asas, nesta terra abençoada por Deus, quem rouba uma galinha é ladrão, quem rouba um galinheiro vira deputado. Ou senador.

Naquela terça-feira, 15 de janeiro de 1985, lua minguante do plantão do anjo Aladiah e dos santos Miquéias, profeta, Mauro, monge, Isodoro de Alexandria, Paulo, eremita, Isidoro, ermitão de Cete e Francisco Fernandes de Capillas, mártir, apesar da sombra dos quarenta pelotões de centígrados fritar até mosquito nos vidros das janelas, e com o asfalto da Avenida Rio Branco fervendo mais do que cuca de redator de discursos presidenciais, dois acontecimentos abriram o calendário da caça aos perdigotos. Um, balançando o coreto geral do Brasil e, o outro, balançando o coreto particular de um dos cento e trinta milhões de periféricos. Em Brasília, com direito a prontidão nos quartéis e outros procedimentos de cirurgia democrática, o Colégio Eleitoral botou no ringue o ex-governador de Minas Gerais, Tancredo de Almeida Neves, cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro, e o ex-governador de São Paulo, Paulo Salim Maluf, cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro, e arbitrou a luta com as baionetas do Comando Militar do Planalto, tendo subido ao pódio de primeiro presidente civil, após vinte anos de caserna e manda quem pode, obedece quem não tem farda, o ex-governador de Minas Gerais, pendurado nos bigodes do senador José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito José Sarney, dizem que membro vitalício de uma tal de Academia Brasileira de Letras e outros badulaques. No Rio de Janeiro, sem nenhum aparato à la baioneta mãe da pátria ou qualquer outro procedimento civilista, um pedaço de mau caminho para trator nenhum botar defeito entrou no meu estaminé como eu teria entrado na cama dela. Com a maior firmeza e sem a menor hesitação.

- Detetive Eduardo?

Fazer o quê? Abanar o rabo, que nem o Rin-Tin-Tin vendo o primeiro filme da Lassie ou bancar o ofendido, que nem político ao ser cobrado das dívidas da última campanha eleitoral? Detetive eu tinha sido nos meus tempos de suposto sustentáculo da ordem constituída e finca-pé na fila do jabá que os banqueiros do jogo do bicho pingavam no arquivo das propinas. E, também não tem jeito de esquecer, nos anos em que catei toda a espécie de bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes. Mas no dia em que botei a mão naquele royal straight flush do Hotel das Paineiras, um negão sem mais tamanho cavalgando os lombos do maior cofre-suíço das colunas sociais, e troquei os negativos das fotos por este estaminé, um Porsche Turbo 3000 e uma cobertura na Tijuca, mandei o cocô do que passou rezar missa no campanário das urtigas, e finis. De pescador de caniço em mar de tubarão passei a dono de traineira e já viu. Só não entrei no Clube de Diretores Lojistas porque não gosto de sócios no meu venha a mim o vosso reino que o nosso já é meu. Que, de resto, fiz o que fazem todos os cofres-suíços, cavalgados ou não por negões sem mais tamanho. Chutei o lixo para debaixo do tapete e hasteei a bandeira do faz-de-conta das melhores intenções. Detetive jamé na minha vida e vamos é bronzear o alfabeto na Ipanema do mais bem alinhavado investigador particular. Que isto de escalada social é que nem pulga em tornozelo de misse. Olhou para cima, já viu. Não precisa nem guindaste. Mas, valha a verdade, a questão da qualidade também mexeu no contrapeso. Melhor é mais que bom e qualidade é que nem virgo, como dizia meu velho pai e dizia melhor do que ninguém. Se não tem, não tem reza que dê jeito. Só que o velho Eduardo da Micas do Ferreiro, que tanto queria morrer em paz numa tal de Serra do Gerês, perdida nos cafundós de Portugal, nunca soube pegar a árvore das patacas e abaná-la que nem eu.

Deixei o rabo do Rin-Tin-Tin bater um pouco, afinal não era todo o dia que uma Lassie à la Nunca Fui Santa estacionava os acostamentos devidamente acolchoados e estucados a essência de perfume nos centígrados do meu estaminé, e indiquei a cadeira-confissão.

- Por favor.

O Chanel tirou a tampa do frasco e, na maior complacência, adubou o vamos ver da minha flor de laranjeira.

- Obrigada.

Era Chanel, e Chanel nº 5, que em perfumes, números e embeurrées d’escargots a madame do cofre-suíço do Hotel das Paineiras me tinha mais que doutorado. Dizem que a Marilyn Monroe, aquele titanic dos decotes à la dívida mais externa do que fratura exposta em hospital do governo, morreu como viveu. Nunca foi santa e sempre foi carente, e nunca se deu conta das cabeças que fazia. Eu não. Vivo como hei de morrer, sem dar bola para o chrono do meu casio alarm, a não ser para ver que horas são, e sei que não faço nem cabeça de alfinete em véu de noiva largada nos desconformes do altar. Por isso, deixo o marfim rolar por onde ele bem entende e alinho com as previsões meteorológicas. Se a trovoada vem, ótimo, era calor demais e precisava refrescar. Se a trovoada não vem, melhor ainda, não cai água e ninguém molha os caracóis.

Depois da barbada daquele royal straight flush do Hotel das Paineiras, foi a vez da prefeitura de São Pedro aplainar a minha estrada de Damasco com um asfalto da melhor qualidade e procedência. Mandei a bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes sambar no pé do campanário das urtigas e fiz valer o escrito na tabuleta da porta do meu estaminé: Investigações Sigilosas. E, para dar a seriedade necessária à minha nova condição, mandei pregar na parede bem por cima da secretária, autenticado e emoldurado à la altar-mor da Igreja da Candelária o Creio-em-Deus-Pai da profissão. Tão perfeito e bem lustrado, que parecia até que o Sherlock Holmes o tinha assinado ali na minha frente.

Não dizem por aí que um tal de doutor Hipócrates, putíssimo com as pendengas do Artaxerxes, aquele barbudão do petróleo da Pérsia e das Arábias, jurou nunca mais engabelar ninguém, mesmo que não lhe pagassem um puto de um real? E a jura não grudou tanto que até hoje todo tamanduá-colete de porta de hospital diz amém? Só que, para mim, que nunca comi enfermeira em plantão de Santa Casa, Hipócrates por Hipócrates, o Sherlock Holmes era muito mais a minha praia.

Juro que ao exercer a arte de investigar serei sempre fiel aos deveres dos três macacos. Entrando em lares indevidos juro que os meus olhos nada verão, que a minha boca nada falará e que os meus ouvidos nada escutarão. Juro que jamais me servirei da minha profissão para favorecer quem não puder pagar, e bem, os meus serviços. Se eu cumprir este juramento, como manda a lei de Deus e algumas leis dos homens, seja eu, para sempre, bem-aventurado e digno de pertencer ao grupo daqueles que sabem o que querem. Se este juramento não for cumprido ou for por mim desvirtuado, seja eu punido pela justiça dos homens e amaldiçoado pela ira do Senhor.

Aí, alinhado o estaminé no prumo dos conformes, meti os pés na bicharada perdida e mandei polir a medalha-mor das Olimpíadas da minha nova condição. Um Robin Wood à la Errol Flynn envernizado no maior dos venha a mim e deixei o marfim rolar no quintal do vizinho. Os cofres-suíços pagavam com a maior boa vontade a merda que eu jogava no ventilador dos desafetos, e como nunca deixei respingar a menor grama de titica nos tapetes das madames, a minha agenda vivia mais lotada do que cama de assessora do congresso. Por isso, deixei o rabo do Rin-Tin-Tin fazer cosquinhas no amém daquela Lassie de Chanel e não banquei o político ofendido ao ser cobrado das dívidas da última campanha eleitoral.

Sentados os acostamentos devidamente acolchoados na cadeira-confissão, foi a minha vez de adubar o nº 5 da escala dos perfumes. Quem sabe não seria hora de acrescentar mais um enunciado à minha lei siamesa de bem cavalgar qualquer hipótese? Aquela do venham a mim todos os reinos? Como sempre dizia meu velho pai e dizia muito bem, em terra de cego ninguém vê. E quem tem um olho, cuida dele, acrescentava o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, disfarçando com betume os buracos abertos nos pesos das balanças da quitanda.

- Em que lhe posso ser útil?

A escala dos perfumes não tugiu nem mugiu. Sentada na cadeira-confissão olhava-me como, dizem, Moisés olhou as Tábuas da Lei. Sem pestanejar e sem ler o escrito. Não sou um píssico gramatical, sou apenas um olho-vivo e boca-de-siri que conseguiu adaptar a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart, e os 212 graus farenheit da Lauren Bacall ao asfalto da Avenida Rio Branco e se deu bem, mas acho que certas palavras deviam ser utilizadas como o governo utiliza as verbas secretas do orçamento. Deixá-las por conta da gramática e enriquecer com os pronomes o orçamento dos amigos mais chegados. Que esse negócio de vai-não-vai e amaciar com panos quentes é como galinheiro sem galo. Todo mundo cacareja, cacareja, mas, sem maestro, já viu. Todo mundo desafina. E sem afinação, o que poderá fazer o porta-voz da presidência? Só o que fez o Chanel. Sentar o nº 5 na cadeira-confissão e olhar para mim mais muda do que líder da oposição em vias de ser chamado a participar da guarda pretoriana do palácio.

Fazer o quê com o silêncio? Lamentar não ser sócio da Hollywood Detectives Corp. e não ter duzentas e dez louras peitudas abrindo sorrisos e decotes nas mesas da Recepção, carpetes e quadros nas salas e nos corredores, frigobares disfarçando câmaras de vídeo embutidas nas paredes e ar-condicionado central, ou esperar que os acostamentos devidamente acolchoados terminassem a inspeção da minha cara e o Chanel mandasse ver o veredicto? Zero a zero, como dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, que entre um Vasco enfunar velas em São Januário e um Flamengo ensebar canelas na Gávea, a parecença está no árbitro. O resto são bandeirinhas e gandulas. Por isso, deixei a escolha da essência por conta dos tugidos e mugidos, e entrei numa de sorriso. Quem sabe aquele nº 5 não seria o carimbo que faltava no passaporte de uns dias bem pulados naquela tal de Serra do Gerês de que meu velho pai tanto falava?

Mas, com os ventiladores já em contagem regressiva e a merda a ponto de açucarar o caramelo, piquei o passaporte na gaveta das traças e resolvi entrar na orquestra dos mugidos. Com o mais estudado dos gestos, estudado, assim, fingindo a maior displicência mas pondo o maior cuidado nos vagares, peguei o maço de cigarros e paguei os meus royalties à British American Tobacco. Como a entrada na orquestra dependia dos acordes, optei pela tragada mais conforme e mandei ver a cerimônia-dos-batizados, aquela do em caso de dúvida, o pai serve de padrinho.

Na mosca. O Chanel aceitou o dó sustenido do pulmão e elevou em cinco tons o decibel dos tugidos. Num gesto também bem estudado, bem estudado, assim, vagaroso, mas mostrando a maior convicção, ajeitou-se na cadeira-confissão, cruzou as pernas no mais perfeito arco voltaico e coruscou os olhos nos meus.

- O senhor está disponível?

Meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução, quem não está disponível num país onde o ministro da Fazenda arrota bilhões e mais bilhões desse tal de Produto Interno Bruto e o tatu do jeca faz dieta compulsória com um salário mínimo que mal e mal estica 50 folhas de alface one dollar a cada 30 dias do mês? A cerimônia-dos-batizados engasgou nas vias adjacentes pelo espanto disponível, mas não quis parecer noviça de agência de modelos em primeiro trabalho de suruba e respondi em perfeito clima de primeira comunhão.

- Depende. Se é caso...

A orquestra deu um spiccato nos mugidos e o clima da primeira comunhão sumiu no oco do mais genuíno tornado made in Comando Militar do Planalto, com direito a clarins, prontidões e matadores assemelhados.

- É um caso importante, sim.

Configurada a casuística daquele importante, cantochado em tom maior, acabou a invernia da dúvida e a planta baixa do caso mostrou raízes suficientes para um estudo preliminar. Peguei o souza cruz como se pegasse o véu da noiva e mandei ver a tragada mais adequada às circunstâncias, aquela dos prolegômenos, não muito rápida, mas também não muito vagarosa, para não causar falsa impressão.

- Bem.

Fiquei no bem. O Chanel tirou a rolha do frasco e nem o refogado do asfalto da Avenida Rio Branco conseguiu rolar o fedor do alcatrão nas tábuas do assoalho.

- Se é questão de dinheiro...

- Senhorita...

- Senhora. Senhora Raiolinda.

Raiolinda? A luz mais linda que emana de um foco luminoso e segue uma trajetória reta em determinada direção? Por que é que não falou antes, meu Deus do céu? Quem não quer seguir uma trajetória reta, seja na mais ou na menos determinada direção? Consciente da intensidade do foco, cauterizei o que restava do combalido souza cruz no vidro do cinzeiro e foi aquele levantar de um salto e estender a mão da maior conveniência.

- Eduardo. Eduardo da Cunha Júnior.

A mão do foco luminoso veio também numa trajetória bem reta e o conhecimento dos dez dedos também foi feito na maior convicção.

- Raiolinda de Meneses Forfait.

- Muito prazer.

- Da mesma forma.

Conhecido o que era de conhecer nas circunstâncias do momento, acabaram-se os tugidos e os mugidos e restaurou-se, inteiramente, o finado clima da primeira comunhão. A trombeta do arcanjo Gabriel solando gogó de bem-te-vi e o chão de estrelas sem o menor resquício de cocô de passarinho.

- O senhor foi-me recomendado por um amigo...

O foco luminoso matou a pau a potência do fotômetro e a pausa seqüela fez jus ao tamanho da lembrança. Recostei-me na cadeira e deixei as reticências rolarem nos sinais gramaticais. Se eu não tinha amigos que fizessem jus a nenhum tamanho de lembrança, sabia, pelo menos, o que valia ser recomendado. Depois daquele royal straight flush do Hotel das Paineiras, o que eu mais tinha eram recomendações. E da mais condimentada qualidade. Se, um dia, detonasse o cofre dos segredos, o estrago da bomba de Hiroshima seria pinto junto do meu. Mas era tudo questão de confiança. Se eu confiava nos cheques com que me pagavam os contêineres de merda que jogava no ventilador dos desafetos, a recíproca também era verdadeira. O segredo do meu cofre só eu conhecia e a valorização de cada cheque dependia muito mais do meu silêncio do que do resultado do trabalho. Mas, verdade seja, troca justa. Afinal, quem metia a mão na merda era eu e quem botava o sorriso nas colunas sociais eram os donos da verdade. Sumidas as reticências nos furos gramaticais, o foco luminoso adequou a intensidade da luz às circunstâncias e mandou a lembrança cagar regra no campanário das urtigas.

- O senhor gosta de cinema?

Dizem que o que mais admirou o marombão do Sylvester Stallone não foi o Rocky, Um Lutador ter ganho o Oscar de Melhor Filme de 1976, foi o próprio SS ter ganho a luta contra o campeão mundial, mesmo tendo escrito o argumento e o roteiro. Eu não era roteirista, e muito menos campeão mundial, mas se o negócio era firular um pôquerzinho, o vamos ver era comigo. Aberto, fechado, canadense ou de dados, eu era fera em qualquer deles.

- Gosto, e tenho as minhas preferências.

- Conhece o meio?

Cheirava a canadense. Duas cartas na mão e cinco cobertas na mesa. Mas a mesa era larga e o chrono do meu casio alarm não estava programado para interromper nenhuma pausa. Não costumo jogar às terças-feiras, mas, como segunda tinha sido Dia dos Enfermos e com a lua em fase de quarto minguante por quê não tirar, pelo menos, uma novidade do saco das chaturas? E aquele conhece o meio já era um bom começo.

- Bem. O meio...

Fiquei no meio do meio. A luz mais linda do foco luminoso bateu direto no meu olho e babau. Não pude nem enxergar o tamanho do prato da balança.

- Posso conhecer as preferências?

Fazer o quê? Dizer não, quem prefere aqui sou eu, e ver o Chanel evaporar-se e o clima da primeira comunhão virar aquele tornado made in Comando Militar do Planalto, com direito a clarins, prontidões e outras ferraduras, ou deixar a cabeça balançar que nem general presidente de IPM avaliando o resultado do estágio do elemento na Universidade Patrice Lumumba de Moscou? Mandei ver outro souza cruz e, para marcar pelo menos uma atitude, chacoalhei a mais profunda corta-luz, aquela do quem já foi rei odeia voto, mas, na cautela, deixei o fumo sair pelo nariz e pela boca num sentido de perfeita concordância.

- Claro.

A trajetória pegou a direção que já tinha determinado, ajeitou os acostamentos no espaldar da cadeira-confissão e tirou da bolsa a contrafé das preferências. Uma folha de papel pautado que, pelo cuidado com que foi desdobrada, cheirava a doutorado em minudências.

- Vejamos. O senhor sabe em quantos filmes George Lazenby interpretou o personagem James Bond, o que é que o Zé do Caixão quer encontrar em À Meia-noite Levarei sua Alma e Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver, o que fez Alain Delon em A Primeira Noite de Tranqüilidade...

Puta que o pariu! Quando me contaram que um tal de Isaac Azimov tinha dito que quando os taquíons fossem descobertos iam atingir uma velocidade muito maior do que a da luz, eu não acreditei. Velocidade por velocidade, sempre fui mais o Nélson Piquet matando a pau no asfalto de Jacarepaguá e disputando o título mundial de ligeirismo com os motoristas de táxi pilotando os seus mirages nas pistas do Aterro do Flamengo. Mas a trajetória da luz mais linda daquele foco luminoso não estava nem aí para as minhas convicções e zamparava mais nomes do que os visitantes ideológicos da Central da Rua da Relação deduravam companheiros à força de porrada na mão dos padres confessores da catedral de Brasília, nos meus tempos de tira e suposto sustentáculo da ordem constituída. E o pior é que o esguicho saía mais catrapus do que transmissão radiofônica de sweepstake aniversário do Jóquei. Mais perdido do que marimbondo em fardão de bigodes imortais, pendurei-me no souza cruz e puxei uma profundíssima café-da-manhã-completo, gostou, gostou, não gostou, foda-se, e rezei para que a fumarada mandasse ver o maior batoque naquela taramela de circo de cavalinhos à la São João das Antenas. Mas, ou os meus pecados eram capitais e cabeludos, e a minha reza não pagava nem sorvete ao menor santo do céu, ou a metralhadora do foco tinha comandos eletrônicos. Mesmo com o Chanel nocauteado pelo fumo, a transmissão da corrida não meteu o pé no freio e os taquíons continuaram fuzilando miles gregos e troianos. Tantos, que nem a Força da Guerra nas Estrelas teria dado jeito. Resultado, a partir da tal de noite de tranqüilidade, o resto foi um vrrum vrrum vrrum de fazer inveja ao cano de escape do Brabham do Nélson Piquet e eu boiei mais do que cocô de gato na Lagoa Rodrigo de Freitas em noite de canal entupido.

Meu velho pai, eterno araruta de boteco que nunca tinha entrado num cinema nem jogava pôquer canadense, apesar de não ter participado do Concílio Vaticano I, que, dizem, definiu a infalibilidade do papa em 1870, também tinha as suas horas de mingau. Se mal sabia assinar o nome e nunca ganhou dinheiro suficiente para comprar uma passagem de volta para essa tal de Serra do Gerês, lá nos cafundós de Portugal, sacava mais profundezas em ray-bans do que o Bjorn Borg sacou pontos nos cinco campeonatos de tênis que ganhou em Wimblendon. Desconfia dos sabidos, rapaz. Quem sabe o que diz nunca diz o que sabe.

E foi baseado no que poderia vir até a ser mais um enunciado da minha lei siamesa de bem cavalgar qualquer hipótese, quem sabe o que diz nunca diz o que sabe, que meti os peitos na taquionada e ex-taramelei o circo de cavalinhos à la São João das Antenas. Puxei a mais cuidada cautelosa, zangão não briga com abelha, come mel, deixei o fumo sair bem devagar e pairar sobre os centígrados acampados na fornalha do solão que fervia nos vidros das janelas, e banquei o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, ora pois, então a madama não sabe que com o aumento da gasolina aumenta tudo, até o peso das folhas das alfaces?

- O meu gosto por cinema nunca influiu no meu trabalho.

O foco luminoso ligou a chave das mais potentes gambiarras, mas nenhum sorriso emanou daquela luz. Apenas colocou a pule das apostas em cima da mesa e fuzilou mil watts no vidrado dos meus olhos.

- Gosto não é conhecimento.

Meu velho pai era phoda. Com ph mesmo, para sentir melhor a qualidade e a justeza. Quem sabe o que diz nunca diz o que sabe. Mas eu também sabia o que dizer. Desde que a montaria do negão do Hotel das Paineiras, em paga dos meus três macaquinhos de estimação, não ver, não ouvir e não falar, me colocou na frente do primeiro embeurrée d’escargots e eu tive que engolir o amarelo do sorriso e a merda daqueles caracóis melequentos, tinha aprendido muita coisa. Até a convencer quem não precisava de convenção. Peguei a pule das apostas e paguei pechisbeque na maior seriedade.

- Na minha profissão...

Lembra Os Cafajestes, a Norma Bengell tapa-que-tapa no primeiro nu frontal do cinema brasileiro? Igual, igual. O nº 5 do Chanel mandou a minha maior seriedade abrir o olho no campanário das urtigas e faiscou tanto que até os vidros da janela viraram tela panorâmica.

- É bom o senhor estudar, e estudar com atenção. Vai precisar muito, e muito, fazer de conta.

Fazer conta, ó luz mais linda que emanas de um foco luminoso e segues uma trajetória reta em determinada direção? Fazer de conta sempre foi o meu banho de gato preferido. Apesar da consciência ser também uma chapa curva de metal que se coloca na extremidade das hastes das brocas manuais, nunca bati de frente com os interesses de nenhum dos meus clientes. E, desde que o pagamento compensasse e os adjetivos das cartas de recomendação cavalgassem os mais altos graus superlativos, as soluções foram sempre as mais convenientes. Tem mais pacientes o melhor médico ou o que promete mais curas? Se um médico, que é médico, tirou um diploma e fez até um juramento para poder fazer todas as promessas, por que é que eu, só porque não sou diplomado e o meu juramento não veste jaleco à la tamanduá-colete, tenho que ser diferente? Honestidade, sempre dizia o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, chorando mágoas desde 1974, primeiro e único Campeonato Brasileiro descoberto pelas caravelas de São Januário, honestidade é que nem árbitro de futebol. Virgem para quem ganha e puta para quem perde. Eu não era árbitro de futebol, e muito menos a puta que o pariu, mas não era à toa que tinha uma cobertura na Tijuca, um Porsche Turbo 3000 na garagem e um bar nadando de braçada nos rótulos das garrafas de Ballantine’s.

- Fazer de conta? Mas fazer de conta sempre foi...

- Espero que seja.

A luz mais seca que emanava do foco seguiu a trajetória reta do caminho da bolsa, tirou o talão de cheques e uma caneta mais dourada do que o Oscar do Rocky, Um Lutador, aquela máquina de porrada que os músculos do marombão do Sylvester Stallone estrelaram como aperitivo para as futuras firulices do Rambo, e olhou-me como se estivesse calculando o valor do sinal pela raiz quadrada do volume dos meus conhecimentos de cinema.

- Três milhões seria uma quantia razoável?

Quantia razoável, ó flor de manacá, era a gasolina que eu gastava com o meu Porsche Turbo 3000 e com o Ballantine’s da minha digestão. Mas, considerando que talvez não passasse naquele vestibular da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia, um sinal de quase mil dólares, não era nada, não era nada, eram os meus descarregos dos baixios e o bem-bom da minha digestão garantidos por três meses. Só que ainda não sabia qual seria o meu trabalho e ninguém pagaria tanta grana para ver um papa-fina tirar zero num exame, mesmo que fosse só para fazer um faz-de-conta. Mas, como dizia meu velho pai e dizia melhor do que ninguém, cão que ladra faz barulho, não era hora de revirar os olhos e filosofar sovaquices. Deixei o Rin-Tin-Tin lamber algumas cenas do segundo filme da Lassie e, quando o rabo aquietou, encarei a luz da lamparina.

- Eu só trabalho com empresas e cobro por contrato. Mas, dada a recomendação, abrirei uma exceção. Cem dólares por dia, mais despesas, incluindo as de terceiros.

- Tudo bem.

O Chanel botou o nº 5 no talão e valeu o escrito das três milhas. Cheque assinado, cheque guardado na gaveta dos segredos e a pergunta que fez o Viktor, goleiro da Tchecoslováquia, depois da patada atômica do Rivelino nas oitavas de final da Copa de 1970 pagou as custas do processo.

- E qual vai ser o meu trabalho?

A trajetória do foco luminoso elevou a latitude em dois graus e a direção do olhar passou da ponta do meu queixo à ponta do meu nariz, mas sem outras conseqüências a não ser uma fixidez digna de figurar em qualquer compêndio de engenharia, capítulo segurança de alicerces.

- Procurar uma mulher.

Para quem, durante anos, procurou toda a bicharada perdida no Aterro do Flamengo e encruzilhadas circundantes, procurar uma mulher era mais do que o melhor dos doutorados. Satisfeito com o tamanho e a cor do diploma, abri o bloco dos rabiscos e fiz por onde merecer a primeira das três milhas.

- Ok. Nome?

- Não sei.

- Foto?

- Não tenho.

- Alguma referência?

- Nenhuma.

Perfeito. Mais fácil, só araponga do SNI - Serviço Nacional de Informações no papel timbrado do general Golbery do Couto e Silva, dizem que pai putativo dos ceguetas - procurando escuta telefônica no confessionário particular do abade do Mosteiro de São Bento. Mas, se já lá dizia meu velho pai e dizia muito bem, fácil, fácil, só promessa de eleição ou enxurrada escorrendo por ladeira, também não era fácil fazer-me desistir de uma diária líquida à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar. Satisfeito com as contas mandei ver a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart e fervi nos 212 graus farenheit da Lauren Bacall.

- Mas tudo tem um começo.

Na mosca. A direção do foco luminoso sentiu a temperatura daquele mas, botou o boeing no piloto automático e ajeitou os acostamentos no espaldar da cadeira-confissão.

- Meu marido.

Casamento não é loteria, costumava dizer meu velho pai, é olho de água em borda de caminho. Quem passa, bebe, quem não bebe, não passou. Ou então não acertou com o caminho, concordava o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho. Ora pois, então eu não deixo a minha mulher lá na terra e, quando a mando vir, ela não me chega cá mais prenha do que burra solta no monte? Não parecia ser o caso, eu não era doutorado em prenhices à distância, mas, à cautela, tirei a gabardine e o chapéu do Humphrey Bogart e botei um ventilador na fervura dos 212 graus farenheit da Lauren Bacall.

- Houve algum percalço?

A luz mais linda que emanava do foco luminoso apagou em resistência e as sombras que vieram engoliram até o solão que trincava nos vidros das janelas.

- Percalço?

Dizem que o general Pierre Cambronne, na batalha de Waterloo, mais cercado de ingleses do que pé de alface cercado de saúvas, ao ser intimado a render-se, em vez de entregar a espada e agradecer o bom trabalho de todos os anjos da guarda, jogou a peixeira no chão e mandou à merda o intimante. Eu sempre achei muito mais verídica esta versão do que a versão sem-pecado que a professora de História do colégio nos ensinava: a guarda morre mas não se rende. Mal e mal comparando, o general Cambronne sempre me pareceu mais o Dirty Harry do Clint Eastwood, cercado de intimantes nos gabinetes de delegas idiotas, do que a professora de História do colégio cercada de moralidades sem-pecado. Mas não era hora de parafusar comparações nas sombras do Chanel e abri o sorriso mais adequado às circunstâncias. Nem o Cambronne nem o Harry tinham recebido um sinal de quase mil dólares, e eu não estava a fim de trocar aqueles in God we trust por um noves fora, nada. Com a dentina do sorriso já beirando safári de elefante nos bons tempos do marfim, ainda acendi uma vela na escuridão do percalço e fiz que nem o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e meu falecido tio e padrinho, ao ver a barrigada da mulher, que ele tinha deixado vazia quando veio abanar a árvore das patacas nesta terra que Deus abençoou e depois se arrependeu. Deixou-a parir na santa paz e deu graças a todos os santos do céu por ter arrumado um trabalhador sem paga no balcão da quitanda.

- Percalço, foi uma forma de dizer.

Satisfeito com a forma de dizer, o foco luminoso apagou os watts da segurança pessoal e o solão voltou a trincar nos vidros das janelas. Tranqüilizado quanto à garantia dos descarregos dos baixios e do bem-bom da minha digestão, agradeci a Deus não ter nascido com mais coragem do que a devida e tratei de fazer por onde merecer a segunda das três milhas do sinal.

- Se me quiser dar maiores detalhes, poderei começar de imediato.

O nº 5 pulou em progressão geométrica todas as escadas matemáticas e o Chanel levantou-se e mandou a luz mais linda seguir a trajetória reta na direção reta da porta.

- Na quinta ou sexta-feira o senhor poderá ter todos os detalhes.

Para cima de mim, cara-pálida? Eu não era nenhum John Ford mas também entendia de diligências. No meu tempo de suposto sustentáculo da ordem constituída tinha farejado mais malocas do que índios o John Wayne matou em Hollywood, e sabia muito bem o que significava aquele poderá. Não era por nada, não, mas mesmo sem a velha Winchester qualquer Touro Sentado sentava onde quisesse. Ou seja, na mais perfeita linguagem de Hollywood, ou eu passava no vestibular da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia ou não haveria mais detalhes nem diárias à la taifeiro da marinha do Tio Sam pago em dólar. Por isso meu velho pai sempre dizia sem a menor hesitação, quem tudo quer fica rico. Eu não queria tudo, tudo, mas não estava a fim de perder aquela garantia do meu bem-estar manda quem pode. Não era nada, não era nada, eram seiscentos marechais batendo continência na porta da minha conta bancária. Aparentando a calma de um candidato sem verbas governamentais servindo de sutiã em dia de apuração de votos, levantei-me também e fiz o que a professora de História do colégio tinha feito com o general Cambronne. Troquei a verdade verdadeira pela verdade do cartório e engoli os palavrões que já subiam no gogó.

- Da forma que a senhora achar melhor.

- Se não vier pessoalmente, telefonarei.

A porta bateu como, dizem, batem as portas do purgatório. Com a esperança necessária, mas também com a força devida, e eu fiquei que nem o John Wayne depois de botar o The End na última cena de O Álamo, abobado com a conta de cinco mil extras mexicanos pagos em dólar e com os cento e noventa e nove heróis americanos mais mortos do que marranos nas mãos da Santa Inquisição. Ou seja, como dizia minha santa mãe que Deus tenha, com muito mais cachorro do que mato. Com a pule das apostas do sweepstake da Metro-Goldwyn-Mayer & Cia ainda aberta em cima da mesa e pensando como poderia passar com nota 10 naquele vestibular de celulóide, prometi acender duas dúzias de velas ao meu Santo Expedito das causas urgentes e dos negócios que precisam de pronta solução se o novo contato fosse feito pessoalmente. Afinal, não era todo o dia que uma Lassie à la Nunca Fui Santa entrava no meu estaminé e enterrava o fedor do alcatrão do asfalto da Avenida Rio Branco ao som de orquestras de Chanel.

 

Cunha de Leiradella no TriploV

 
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