Carta de
PÊRO VAZ DE CAMINHA

PÊRO VAZ DE CAMINHA
Carta a el-rei dom Manuel sobre o achamento do Brasil
Imprensa Nacional / Casa da Moeda
Lisboa 1974
Senhor,

Posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que para o bem contar e falar o saiba pior que todos fazer. Mas tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual, bem certo, creia que por afremosentar nem afear haja aqui de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer e os pilotos devem ter esse cuidado. E, portanto, Senhor, do que hei-de falar começo e digo que a partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de Março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã Canária. E ali andámos todo aquele dia, em calma, à vista delas, obra de três ou quatro léguas.

E domingo, 22 do dito mês, às 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas do Cabo Verde, isto é, da ilha de São Nicolau, segundo dito de Pêro Escolar, piloto.

E a noute seguinte, à segunda-feira, quando lhe amanheceu, se perdeu da frota Vasco d'Ataíde, com a sua nau, sem aí haver tempo forte nem contrairo para poder ser. Fez o capitão suas diligências para o achar, a umas e a outras partes, e não apareceu mais.

(Terça-feira, 21 de Abril de 1500. Sinais de terra)

E assim seguimos nosso caminho por este mar, de longo, até terça-feira d'oitavas de Páscoa, que foram 21 dias d'Abril, que topámos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha, segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas, os quais eram muita quantidade d'ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho e assim outras, a que também chamam rabo d'asno.

(Quarta-feira, 22 de Abril)

E à quarta-feira seguinte, pela manhã, topámos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d'um grande monte, mui alto e redondo, e d'outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz.

Mandou lançar o prumo, acharam 25 braças, e, ao sol-posto, obra de 6 léguas de terra, surgimos âncoras em 19 braças; ancoragem limpa. Ali ficámos toda aquela noute. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra e os navios pequenos diante, indo por 17, 16, 15, 14, 13, 12, 10 e 9 braças até meia légua de terra, onde todos lançámos âncoras em direito da boca dum rio. E chegaríamos a esta ancoragem às 10 horas, pouco mais ou menos.

E dali houvemos vista d'homens, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundo os navios pequenos disseram, por chegarem primeiro. Ali lançámos os batéis e esquifes fora e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor e ali falaram. E o capitão mandou no batel, em terra, Nicolau Coelho, para ver aquele rio. E, tanto que ele começou para lá d'ir, acudiram pela praia homens, quando dous, quando três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, eram ali 18 ou 20 homens, pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijos para o batel e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pusessem os arcos; e eles os puseram.

Ali não poude deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho, que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas d'aves, compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer d'aljaveira, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder deles haver mais fala, por azo do mar.

A noute seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros, que fez caçar as naus e especialmente a capitana. E à sexta, pela manhã, às 8 horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar âncoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados pela popa, contra o norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde ficássemos para tomar água e lenha, não por nos já minguar, mas por nos acertarmos aqui.

E quando fizemos vela seriam já na praia assentados junto com o rio obra de 80 ou 70 homens, que se juntaram ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e que, se achassem pouso seguro para as naus que amainassem.

E, sendo nós pela costa, obra de 10 léguas donde nos levantámos, acharam os ditos navios pequenos um arrecife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus arribaram sobre eles. E um pouco ante sol-posto amainaram obra d'uma légua do arrecife e ancoraram-se em 11 braças.

E sendo Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou em uma almadia dous daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos. E um deles trazia um arco e 6 ou 7 setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas e não lhes aproveitaram. Trouve-os logo, já de noute, ao capitão, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, maneira d'avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. Traziam ambos os beiços de baixo furados e metido por eles um osso branco de comprimento duma mão travessa e de grossura dum fuso d'algodão e agudo na ponta como furador. Metem-no pela parte de dentro do beiço e o que lhe fica entre o beiço e os dentes é feito como roque de xadrez; e em tal maneira o trazem ali encaixado, que lhes não dá paixão nem lhes estorva a fala, nem comer, nem beber. Os cabelos seus são corredios e andavam tosquiados de tosquia alta mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma maneira de cabeleira de penas d'ave amarela, que seria de comprimento dum coto, mui basta e mui çarrada que lhe cobria o toutuço e as orelhas, a qual andava pegada nos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera e não no era; de maneira que andava a cabeleira mui redonda e mui basta e mui igual, que não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar d'ouro mui grande ao pescoço. E Sancho de Toar e Simão de Miranda e Nicolau Coelho e Aires Correa e nós, que aqui na nau com ele imos, assentados no chão por essa alcatifa. Acenderam tochas e entraram e não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d'acenar com a mão para a terra e despois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata, Mostraram-lhes um papagaio pardo, que aqui o capitão traz, tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como que os havia aí. Mostraram-lhes um carneiro, não fizeram dele menção. Mostraram-lhes uma galinha, quase haviam medo dela e não lhe queriam pôr a mão e despois a tomaram como espantados.

Deram-lhes ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados; não quiseram comer daquilo quase nada. E alguma cousa, se a provavam, lançavam-na logo fora. Trouveram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram a boca e não gostaram dele nada nem o quiseram mais. Trouceram-lhes água por uma albarrada; tomou cada um deles um bocado dela e não beberam; somente lavaram as bocas e lançaram fora.

Viu um deles umas contas de rosairo, brancas; acenou que lhas dessem e folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço e despois tirou-as e embrulhou-as no braço; e acenava para a terra e então para as contas e para o colar do capitão, como que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por o desejarmos; mas, se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque lhos não haviámos de dar. E despois tornou as contas a quem lhas deu.

E então estiraram-se assim de costas na alcatifa, a dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais não eram fanadas e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão mandou pôr à cabeça de cada um deles um coxim e o da cabeleira procurava assaz por a não quebrar. E lançaram lhes um manto em cima e eles consentiram e ficaram e dormiram.

(Sábado, 25 de Abril)

Ao sábado, pela manhã, mandou o capitão fazer vela e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis, sete braças. E entraram todas as naus dentro e ancoraram-se em cinco, seis braças, a qual ancoragem dentro é tão grande e tão fremosa e tão segura que podem jazer dentro nela mais de 200 navios e naus.

E tanto que as naus foram pousadas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do capitão-mor. E daqui mandou o capitão Nicolau Coelho e Bertolameu Diis que fossem em terra e levassem aqueles dous homens e os deixassem ir com seu arco e setas, a cada um dos quais mandou dar uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosairo de contas brancas d'osso, que eles levavam nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles para ficar lá um mancebo degradado, criado de D. João Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para andar lá com eles e saber de seu viver e maneira; e a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.

Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo obra de 200 homens, todos nus, e com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pusessem os arcos e eles os puseram e não se afastavam muito. E, mal tinham posto os arcos, então sáiram os que nós levávamos e o mancebo degradado com eles, os quais, assim como saíram, não pararam mais, nem esperava um por outro senão a quem mais correria. E passaram um rio, que por aí corre, d'água doce, de muita água, que lhes dava pela braga; e outros muitos com eles. E foram assim correndo além do rio entre umas moutas de palmas, onde estavam outros, e ali pararam.

E, naquilo, foi o degradado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou-o até lá. E logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós levámos, os quais vinham já nus e sem carapuças. E então se começaram de chegar muitos. E entravam pela beira do mar para os batéis até que mais não podiam. E traziam cabaços d'água e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos d'água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel, mas junto com ele, lançavam-nos da mão e nõs tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma cousa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas e a uns dava um cascavel e a outros uma manilha, de maneira que, com aquela encarna, quase nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que lhes homem queria dar. Dali se partiram os outros dous mancebos que não os vimos mais.

Andavam ali muitos deles ou quase a maior parte que todos traziam aqueles bicos d'osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber: um na metade e os dous nos cabos. E andavam aí outros quartejados de cores, isto é: deles a metade da sua própria cor e a metade de tintura negra, maneira d'azulada, e outros quartejados d'escaques.

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.

Ali, por entâo, não houve mais fala nem entendimento com eles por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém.

Acenámos-lhes que se fossem e assim o fizeram e passaram-se além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis e encheram não sei quantos barris d'água, que nós levávamos. E tornámo-nos às naus. E, em nós assim vindo, acenaram-nos que tornássemos e tornámos. E eles mandaram o degradado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para dar lá ao senhor, se o aí houvesse. Não curaram de lhe tomar nada e assim o mandaram com tudo. E então Bertolameu Diis o fez outra vez tornar, que lhes desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo em vista de nós àquele que o da primeira agasalhou; e então veio e trouvemo-lo. Este que o agasalhou era já de dias e andava todo, por louçainha, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia assetado como S. Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas e outros de vermelhas e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo a cima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. Nenhum deles não era fanado, mas todos assim como nós. E com isto nos tornámos e eles foram-se.

À tarde saiu o capitão-mor em seu batel como todos nós outros e com os outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, a carão da praia, mas ninguém saiu em terra por o capitão não querer, sem embargo de ninguém nela estar. Somente saiu ele com todos em um ilhéu grande, que na baía está, que de baixa-mar fica mui vazio, mas é de todas partes cercado d'água, que não pode ninguém ir a ele sem barco ou a nado. Ali folgou ele e todos nós outros bem uma hora e meia. E pescaram, aí andando marinheiros com um chinchorro, e mataram pescado miúdo não muito. E então volvemo-nos às naus já bem noute.

(Domingo, 26 de Abril)

Ao domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o capitão d'ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se corregessem nos batéis e fossem com ele; e assim foi feito.

Mandou naquele ilhéu armar um esperável e dentro nele alevantar altar mui bem corregido e ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Anrique em voz entoada e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que ali todos eram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre alta, à parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e pôs-se em uma cadeira alta e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho. E, em fim dela, tratou de nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da cruz, sob cuja obediência vimos, a qual veio muito a propósito e fez muita devoção.

Enquanto estivemos à missa e à pregação, seriam na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como os d'ontem, com seus arcos e setas, os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. E, despois d'acabada a missa, assentados nós à pregação, alevantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias, duas ou três, que aí tinham, as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra senão quanto podiam tomar pé.

Acabada a pregação, moveu o capitão e todos para os batéis, com nossa bandeira alta; e embarcámos e fomos assim todos contra terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo Bertolameu Diis em seu esquife, por mandado do capitão, diante, com um pau duma almadia, que lhes o mar levara, para lho dar, e nós todos, obra de tiro de pedra, trás ele.

Como eles viram o esquife de Bertolameu Diis, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pusessem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra e outros os não punham. Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não já que m'a mim parecesse que lhe tinham acatamento nem medo. Este, que os assim andava afastando, trazia seu arco e setas e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e espáduas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo; e os vazios com a barriga e estômago eram da sua própria cor. E a tintura era assim vermelha que a água lha não comia nem desfazia; antes, quando saía da água, era mais vermelho.

Saiu um homem do esquife de Bertolameu Diis. E andava entre eles sem eles entenderem nada nele quanto a para lhe fazerem mal, senão quanto lhe davam cabaços d'água. E acenavam aos do esquife que saíssem em terra.

Com isto se volveu Bertolameu Diis ao capitão e viemo-nos às naus a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram.

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Foram alguns, em nós aí estando, buscar marisco e não o acharam. E acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camarão e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berões e d'amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira.

E, tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por mandado do capitão-mor, com os quais se ele apartou e eu na companhia. E perguntou assim a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que agora nós podíamos saber, por irmos de nossa viagem. E, entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto concluíram. E, tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se seria bom tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza e deixar aqui por eles outros dous destes degradados. A isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque geral costume era dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há aí tudo o que lhes perguntam, e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dous homens destes degradados que aqui deixassem do que eles dariam, se os levassem, por ser gente que ninguém entende; nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor o estoutros não digam, quando cá Vossa Alteza mandar. E que, portanto, não curassem aqui de, por força, tomar ninguém nem fazer escândalo, para os de todo mais amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dous degradados, quando daqui partíssemos. E assim, por melhor parecer a todos, ficou determinado.

Acabado isto, disse o capitão que fôssemos nos batéis em terra e ver-se-ia bem o rio quejando era e também para folgarmos. Fomos todos nos batéis em terra, armados, e a bandeira connosco.

Eles andavam ali na praia, à boca do rio, onde nós íamos. E, antes que chegássemos, do ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos e acenavam que saíssemos. E, tanto que os batéis puseram as proas em tera, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E, tanto que desembarcámos, alguns dos nossos passaram logo o rio e foram entre eles. E alguns aguardavam e outros se afastavam, mas era a cousa de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que lhes davam.

Passaram além tantos dos nossos e andavam assim misturados com eles, que eles se esquivavam e afastavam-se e iam-se deles para cima, onde outros estavam. E então o capitão fez-se tomar ao colo de dous homens e passou o rio e fez tornar todos.

A gente que ali era não seria mais càquela que sóia. E tanto que o capitão fez tornar todos, vieram alguns deles a ele, não por o conhecerem por senhor, cá me parece que não entendem nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava já para aquém do rio.

Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas já ditas e resgatavam por qualquer cousa em tal maneira que trouveram dali para as naus muitos arcos e setas e contas.

E então tornou-se o capitão aquém do rio e logo acudiram muitos à beira dele. Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho e quartejados assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, pareciam assim bem.

Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres moças, assim nuas que não pareciam mal, entre as quais andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tinta daquela tintura preta e o resto todo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas e também os colos dos pés. E suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia aí nenhuma vergonha.

Também andava aí outra mulher moça com um menino ou menina no colo, atado com um pano não sei de quê aos peitos, que lhe não apareciam senão as perninhas, mas as pernas da mãe e o resto não traziam nenhum pano.

E despois moveu o capitão para cima, ao longo do rio, que anda sempre a carão da praia, e ali esperou um velho que trazia na mão uma pá d'almadia. Falou, estando o capitão com ele perante todos nós, sem o nunca ninguém entender nem ele a nós, quanto a cousas que lhe homem perguntava d'ouro, que nós desejávamos saber se o havia na terra. Trazia este velho o beiço tão furado, que lhe caberia pelo furado um grã dedo polegar. E trazia metido no furado uma pedra verde, ruim, que çarrava por fora aquele buraco. E o capitão lha fez tirar a ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do capitão para lha meter. Estivemos sobre isso um pouco rindo e então enfadou-se o capitão e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, não por ela valer alguma cousa, mas por mostra. E despois a houve o capitão, creio para com as outras cousas a mandar a Vossa Alteza.

 
 

 




 



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