A.A. AMORIM DA COSTA
A PROCURA DOS ALQUIMISTAS

2. A Pedra Filosofal, o mito da transmutação dos elementos

Porque os diferentes elementos são feitos de átomos cujos núcleos se diferenciam pela diferente composição em número de protões, é a nível do conhecimento científico das forças nucleares que se processa a possibilidade da transmutação dos elementos e, consequentemente, o avanço possível na consecução daquele objectivo primordial (não o único, nem o último) da diligência dos alquimistas, quando buscavam a transformação dos metais vis em prata e ouro.

Se em termos estritamente filosóficos, a investigação atómica e a desintegração do átomo foram já consideradas como uma “anti-Alquimia”, e a bomba atómica como “o oposto à Pedra Filosofal”2, não me parece que a componente científica subjacente a uma tal diligência alquimista deva ser tratada como em total oposição à prática científica, seja pelo facto de a alquimia sendo arte e religião, laborar fora dum quadro científico, não a movendo interesses meramente materiais, seja pelo facto de à ciência poderem ser assacados “objectivos de dominação da matéria e utilitários”, inseparáveis de uma certa “violentação e (uma) violação da matéria”.

Conhecer a natureza das forças responsáveis pela forte coesão das partículas do núcleo atómico é ter acesso natural à sala onde se encontra o trono da Pedra Filosofal, na sua componente material de transformação dos metais, tenha ou não a Ciência conseguido a desejada Grande Unificação e/ou Superunificação que as explique em termos das demais forças que governam quantos fenómenos ocorrem na Natureza. Na ignorância dessas forças, só por mero acaso poderão resultar frutíferas quaisquer diligências alquimistas, por mais hábeis e aturadas que sejam. Se toda a Operação alquímica comporta três níveis - material, anímico e espiritual – lógico nos parece que se possam separar os três planos que lhe correspondem, considerando a “alquimia física, a alquimia anímica e a alquimia espiritual” consagradas nesse texto escocês do século XVII a que o próprio J. M. Anes se refere, mesmo que nos não seja possível dizer à partida até que ponto cada uma delas possa atingir o seu objectivo trabalhando independentemente3. O grande objectivo da alquimia física terá sido conseguido quando a ciência tiver caracterizado devidamente as “forças fortes” que explicam a existência do núcleo atómico,

De facto, conhecida a natureza do núcleo atómico em termos das partículas estáveis de que é constituido, protões e neutrões, sabe-se hoje que os núcleos dos elementos naturais não radioactivos mais leves que o cálcio-40, possuem igual número de neutrões e de protões; os elementos com massa superior à do cálcio-40 possuem, na generalidade, mais neutrões que protões, verificando-se que os núcleos muito mais ricos em neutrões que protões adquirem estabilidade pela emissão de partículas beta-negativas, isto é , electrões. Este processo pode ser imaginado como a transformação de um neutrão do núcleo em um protão e um electrão, resultando um novo núcleo com um protão a mais e um neutrão a menos que aquele que lhe deu origem

Considerando a estabilidade, pode também dizer-se que núcleos com um número excessivo de protões em relação ao número de neutrões poderão adquirir estabilidade por perda de protões, o que teoricamente poderá acontecer por captura de electrões que levem à transformação de um protão em um neutrão ou, alternativamente, por emissão pelo núcleo de um positrão (partícula idêntica ao electrão, mas com carga unitária positiva) que resulta da transformação de um protão nuclear em um neutrão.

Por um processo ou outro, obtêm-se núcleos com um número diferente de protões do núcleo a partir do qual se formaram, correspondendo a um elemento diferente, já que o que caracteriza qualquer elemento é o número específico de protões de que é formado o seu núcleo atómico.

Esta é a situação concreta de qualquer transmutação de um elemento noutro.

Porém, se são fortes as forças que mantêm a coesão do núcleo impedindo a repulsão efectiva das cargas do mesmo sinal inerentes aos protões nele existentes, não são menores as forças que impedem a captura de electrões por parte do núcleo ou a transformação de um protão num neutrão por emissão de um positrão. Basta recordar que a esperança da vida média de um protão está calculada em 1031 anos, isto é, centenas de milhões de anos da idade actual do Universo, o que significa que se conseguíssemos juntar num pequeno envólucro a imensa quantidade de 1031 protões, no espaço dum ano não conseguiríamos, em valores médios, a desintegração de mais que um dos protões presentes.

Não deixa de ser para nós uma surpresa ver muitos alquimistas muito anteriores à actual teoria atómica em que o mercúrio é o elemento a que corresponde o número atómico oitenta, isto é, o elemento caracterizado pelo facto de ser constituido por átomos cujos núcleos possuem oitenta protões, falarem do mercúrio ora como um dos três princípios de toda a matéria, lado a lado com o “enxofre” e o “sal”, ora, em muitos casos, como da matéria prima de que deveria partir toda a procura da Pedra Filosofal. Basta lembrar Bartolomeu-o-Inglês que na primeira metade do séc. XIII, no seu “Das Propriedades das Coisas” considerava o mercúrio como sendo a matéria de todos os metais4. É que o ouro, cuja preparação constituia um dos objectivos últimos dessa procura, de acordo com a actual teoria atómica, é, nada mais nada menos, o elemento cujos átomos são formados por núcleos com setenta e nove protões, quer dizer, apenas um protão a menos que os núcleos de mercúrio. Não é linear que o “mercúrio” de que falavam muitos alquimistas fosse exacatamente o elemento mercúrio da nossa Tabela Periódica que tem por base o número atómico de cada elemento; mas, mesmo assim, a surpresa permite-nos algumas especulações.

Considerando a massa atómica do mercúrio (=200,59), 1031 protões será o número de protões existentes em 41.630 Kg, ou seja, um pouco mais de quarenta toneladas de mercúrio natural. De acordo com a referida probabilidade de desintegração natural do protão, significa isto que por cada quarenta toneladas de mercúrio existentes na Natureza, podemos esperar obter, por ano, na base duma desintegração natural do protão, cerca de 33 x 10-23 gramas! Seriam pois, necessários mais de 1017 milhões de anos para obter um só grama de ouro por este processo, por cada quarenta toneladas de mercúrio existentes na Natureza!

Quer dizer, olhada ao natural, a transmutação dos elementos aparece-nos como puro mito. Mas é o mito que sustenta as coisas. Nele é o espaço e o tempo que se confundem, como diria Claude Lévi-Strauss5; nele, as coisas não ficam entregues à voracidade do tempo porque nele o tempo se envolve no espaço e assim adquire uma certa quimera de eternidade, como diria, por sua vez Wagner6. Não admira pois, que ao longo dos séculos, de geração em geração, nas mais diversas culturas, a transmutação dos elementos sempre tenha tido e continue a ter o seu mito. Ele é a Pedra Filosofal. Dele viveram e vivem os alquimistas de todos os tempos.

A ciência, na objectividade dos conhecimentos sobre que se constrói, independente de quem faz, de quem mede e de quem segue a demonstração, e ciosa do rigor do número lido nos aparelhos que para seu uso delineou e materializou, e da lógica da dedução matemática em que alicerça suas conclusões, nem sempre convive bem com a beleza poética e o engenho explicativo dos mitos. Ciente, porém, do muito que ainda se ignora sobre o Universo que deseja tornar totalmente diáfano e transparente para a mente humana, e perante as muitas etapas do incógnito que todos os dias vai ultrapassando, aceita ser seu imperativo tornar objectivo o conteúdo subjectivo que cada mito possa encerrar.

Para quantos buscam na Pedra Filosofal a viabilidade da transmutação real dos metais vis em prata e ouro, é convicção íntima profunda que essa transmutação é facto consumado no seio da Natureza. No big-bang em que o Universo se terá formado não estavam já presentes todas as pedras, preciosas ou não, nem todo o ouro, prata e restantes metais que hoje nele existem. De um muito reduzido número de elementos iniciais se terão formado todos os outros, num processo extremamente lento de “amadurecimento” das pedras e dos minerais, nas entranhas dos muitos “mundos” de que é feito o Universo. A Natureza dispõe de forças próprias que por mecanismos adequados conseguem esse “amadurecimento”. Serão elas super-forças ou antes forças muito simples? Forças que estão totalmente fora do alcance da acção humana, ou forças que a ciência manipula no seu dia a dia, só lhe faltando possivelmente, um “doseamento” correcto, na aplicação, na direcção e na conjugação que sirvam o mecanismo adequado? Estas são as grandes etapas do incógnito que o mito da Pedra Filosofal consagra como segredo a que não é vedado o acesso do comum dos mortais.

Nas suas práticas devotadas, os alquimistas procuram identificar-se com a Natureza e com o próprio Deus que nela actua no sentido de se apropriarem dos misteriosos poderes que lhe permitam substituir-se ao próprio Tempo “assumindo o duríssimo trabalho de fazer as coisas melhor e mais rapidamente”, ne expressão de Mircea Eliade7.

As pedras e minerais que se formam, crescem e amadurecem nas entranhas dos “mundos” do Universo são fonte de vida e fertilidade. A Pedra Filosofoal é a semente dessa vida e fertilidade. Subir o degrau que leve ao seu conhecimento é ser senhor da própria vida.

Etapa do incógnito no domínio das forças fortes que tornam possível o núcleo atómico, a Pedra Filosofal é, pois, também etapa do incógnito no domínio das forças electromagnéticas onde a ciência procura hoje explicação para a própria vida.

No misticismo dos alquimistas ela é assim, o Santo Graal da Física moderna na procura da Grande Unificação das forças que actuam na Natureza.

 
   
   

 

 

 


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