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FLORIANO MARTINS
A CHÁVENA COM ASA POR DENTRO,
COMO TODOS NÓS
 
A CHÁVENA COM ASA POR DENTRO:
Cruzeiro Seixas & António Areal
 

Um dia dedicado a visitar guardados me leva a uma imagem fascinante, repleta de particularismos que nos incitam a entendimentos variados. Manhã afeita a mexer em cartões postais, desenhos, recortes etc. Em meio a tantos papéis, destaca-se a imagem de uma xícara com a asa para dentro. Ali está o pleno golpe do acaso objetivo. Um velho e querido amigo, Tito Iglesias, após larga residência no Brasil e retorno a Portugal, escrevia para outro amigo comum, o brasileiro José Santiago Naud, um postal onde anotamos: "Caríssimo e preclaríssimo Santiago, aqui lhe envio 'a chávena com asa por dentro, como todos nós', idéia genial (para escultura) do Cruzeiro Seixas, completada por ele e por Santiago Areal (barbaramente assassinado, perto de Lisboa)".

Este postal permaneceu guardado por Santiago Naud até final de 2003, quando então fez com que chegasse em minhas mãos. Trata-se a rigor de um esboço de escultura discutido em mesa entre Cruzeiro Seixas e Areal em 1971.

Informações sobre o artista António Areal (1934-1978), no postal referido por Tito Iglesias como Santiago Areal, encontramos no site de turismo da Câmara Municipal do Porto ( http://www.portoturismo.pt/pt/default.asp ), na verdade a única fonte de referência a este artista na Internet. Reproduzimos aqui a íntegra do texto, considerando sua raridade:

"António Santiago Gonçalves Areal e Silva nasceu no Porto e morreu em Lisboa. / A prática do desenho era a que mais se adaptava ao seu intelecto e condições. Expôs pela primeira vez em 1955, numa colecção da SNBA, em 1956, na Galeria Pórtico, aparecendo juntamente com Carlos Calvet e Jorge Vieira. / A obra de António Areal pode ser dividida em três períodos. O primeiro período pode ser delimitado entre 1953 e 1958; os desenhos então realizados utilizam os processos realísticos para activar o visionarismo. / Desde estes desenhos do primeiro período às pinturas e objectos que realizará posteriormente, as figuras-formas mais persistentes são o disco e a caixa, que são figuras arquetípicas. / Em 1957, Areal alcançou um prémio de desenho na Primeira Exposição Gulbenkian. Redigiu em 1957, e publicou em 1958, um ensaio sobre o sentido e significado da poesia. A actividade como escritor foi permanente, tendo publicado posteriormente uma compilação dos notáveis Textos de Intervenção na Vanguarda das Artes Visuais. Depois de 1960 inicia como pintor um incursão técnica no informalismo."

Cruzeiro Seixas, por sua vez, é nome essencial vinculado ao Surrealismo em Portugal. Em parte por ligação direta com as artes plásticas tem sido poeta pouco percebido, condição que ora se busca recuperar, tanto pela edição de sua poesia completa pela Quasi Edições (Portugal) como pela aparição de uma antologia poética no Brasil (Escrituras Editora). Um esboço de escultura como este que se mostra agora é um recorte bastante significativo na vida um artista que sempre andou à procura de parceiros, que sempre entendeu a arte como um lugar de encontro, prevalecendo o cuidado em buscar a si mesmo em outras manifestações do estar no mundo. A imagem que ora reproduzimos não carece de comentários. O próprio título é bastante revelador do circuito de provocações de Cruzeiro Seixas. E complete-se a trama do acaso objetivo com o fato de que este esboço tenha chegado às mãos de um brasileiro antes de retornar a Portugal, ou melhor, ao TriploV, onde hoje essencialmente se tem buscado uma concentração de inúmeros pontos de vista ligados ao Surrealismo sem que, em hipótese alguma, isto aponte para uma ortodoxia ou mero saudosismo.

 
 
 
 
   
   

 

 

 


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