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O 31 de Janeiro
foi a data escolhida para dar início às Comemorações oficiais do
Centenário da República, entenda-se a de 5 de Outubro de 1910! De facto,
os promotores do republicanismo oficial apoiam-se na primeira data,
muitos a contra-gosto, recordando esse último dia do primeiro mês de
1891. Todavia, esquecem-se uns, ignoram-no outros, havendo também quem
saiba mas não diga nada, que embora apelando para o 31 de Janeiro,
querem é comemorar o 5 de Outubro, convictos de que aí começou de facto
a República. A verdade é que a República de 5 de Outubro, ou do Terreiro
do Paço, já não é, no propósito e ideal, a de 31 de Janeiro, a de
Sampaio Bruno, Basílio Teles, Guerra Junqueiro e outros, ou seja, não é
a República Portuguesa. Falhado o golpe militar no Porto,
é certo que, mais tarde, em 1910, também dava jeito que a República
ficasse em Lisboa e não na cidade invicta. Se o golpe militar do Porto
estava mal organizado e o ideário não estaria bem ciente em muitos,
certo é que nos 19 anos que vão até 1910, nada amadureceu do que era
português, indiciado em 1891 e, quanto a organizações tácticas acontece
o que acontece em todas as (supostas) revoluções: aparecem os
intrometidos, onde, neste caso, entre republicanos convictos, surge
gente da pior espécie e se metem também monárquicos que já não eram
monárquicos. Tal como em 1974, entre os democratas aparecem salazaristas
de boa têmpera, que também já não eram salazaristas!
A dita1ª República, de
1910 até 1926, é a dos governos semanais, dos saques às famílias, a
anti-clerical, a devota cultural e sociologicamente das ideias
positivistas do francês Auguste Comte e de semelhantes, bêbada da
cartilha de Proudhon, sobretudo quando confisca os bens aos outros (o
cidadão não deve ter bens, só a República!). Ela é o paradigma da
República que veio até nós, culturalmente cega, cada vez mais violenta,
inquisidora, corporativa, cada vez mais empenhada em eliminar o
pensamento português, e agora luxuosa e despesista. Diga-se, de
passagem, que a 1ª República, à parte as influências do tempo em espiral
e dos comunicantes progressos mundiais, tem traços que emparelham muito
bem com a 3ª República, a de 1974 até ao presente, a que nos faz
concluir que se agora não é necessário um Estado Novo, há que ouvir o
Povo (faminto de pão e de cultura séria) que reclama um Novo Estado!
Costumo guiar-me – e,
diga-se, sem grandes desastres pelo caminho – pela divisa em epígrafe do
filósofo português Sampaio Bruno «Paz aos homens, guerra às ideias».
Pertencendo eu ao Povo, entidade gregária distinta de votantes, entendo
que bem mais este e menos os parlamentares devem discutir, sem
comemorações oficiais, a república ou até a monarquia, se vontade
houver. Em tempos de crise é legítimo, quer pela natureza da res
publica, quer também pela verdadeira natureza da tradição monárquica
- vinda já antes de Aviz - em que o Rei consulta o Povo e até com ele
baila se preciso for, e come à mesa, na mesa do pão do Culto do Espírito
Santo, em que pobres e doentes são os primeiros a ser servidos à mesa
real, pois não sendo todos os dias, bem entendido, como entendido é o
elevado acto simbólico. Hoje não me consta que os descendentes da Casa
de Bragança, nem que ministros e presidentes façam isso, pois
geralmente, onde estão, têm mesa separada!
Sem pretender omitir o
erro humano inerente como é ao trânsito histórico, feito de avanços e
desvios, mas no apelo à reflexão e não à efusão hilariante dos actores
das comemorações oficiais dos 100 anos, quer-me parecer que o balanço
das 3 repúblicas, para tanta pompa oficial, deixa muito a desejar, quer
pela sigla «Liberdade, Igualdade e Fraternidade», seja pela do «Orgulhosamente
sós», seja pela das «Amplas Liberdades». Diga-se em abono da
verdade que, no culminar da primeira década do século XXI, orgulhar-se
de ser republicano é quase tão caricato como se juntássemos um africano,
um asiático e um europeu, para dizerem que pertencem à espécie humana!,
não querendo ocultar as legítimas convicções monárquicas. A questão não
é ser republicano, ou ser monárquico, mas sim «to be or not to be»,
isto é, no actual contexto político, ser republicano na (verdadeira)
república, ou ser republicano em nada… Este último é, infelizmente, o
clima geral que se vive actualmente em Portugal.
António Cândido Franco,
num escrito, de 1989, que passou despercebido até dos mais atentos, «Panfleto
contra Portugal», Edições Arauto + Edições Jorge Cabrita, (para
entender o título há que ler e reler) diz-nos o seguinte: «Há dois
níveis de afirmação da República, porque há realmente duas Repúblicas: a
proclamada em 5 de Outubro de 1910 em Lisboa e a proclamada em 31 de
Janeiro de 1891 no Porto. A primeira actuou no plano político, a segunda
no plano cultural. Ela constitui, a meu ver, a única República pela qual
vale a pena ainda hoje ser republicano.» Continuemos a ler, para
mais entender «É ela ainda que está na base de algumas declarações
republicanas de Fernando Pessoa, ou ainda na actividade cívica de
Agostinho da Silva. Só esta República, mais ideal do que real, mais
individual do que colectiva, parece ter de facto contribuído para
resolver alguns problemas colocados tanto pela dinastia dos Braganças,
como pelo constitucionalismo liberal. A outra, a que ocupou em Lisboa o
Terreiro do Paço, parece ter sido apenas uma caricatura nova dos
problemas antigos». Ela é a que ganhou perícia na cobrança de
impostos e das taxas da pimenta e das especiarias, hábito vindo já da
Monarquia, a que no Estado-Novo obrigaria a licença para usar isqueiro,
e a que hoje paga aos agricultores (alguns) para não produzirem, ao
mesmo tempo que reduz o que resta do humanismo português a estatísticas
de conveniência.
Se os republicanos (que
só se vão preocupar com a juventude quando ela deixar de votar de vez!)
querem uma 4ª república sem grandes decepções e de maior participação,
devem, antes de mais, saber se a desejam manter ou não estrangeirada,
com ideólogos do tipo de um recente ex-ministro da Cultura que num
encontro internacional em que todos se expressavam na sua Língua, o
homem falou em alemão, dizendo que assim comunicava melhor (!). Se
querem tudo na mesma, continua a República das bananas, até não haver
nenhuma banana. Se querem repensar algum ideário português, terão que
ler necessariamente os nossos melhores autores, e agora podem fazê-lo,
pois nas suas viagens em carros de luxo, sem trepidação, podem ler sem
perigo para a retina ocular.
Para comemorações
oficiais - ou não oficiais pagas com ajudas de custo - na minha condição
de simples cidadão português não contem comigo nem para ver e ouvir, nem
para fazer discursos laudatórios no país que - oficialmente, isto é, por
dever de ofício - tem que ir dizendo dos mais de dois milhões de pobres
em Portugal e que, também oficialmente, dá 10 milhões de euros para
gastar neste obtuso centenário. Os que tombaram no passado pela causa
republicana bater-se-iam, hoje, pela República, vendo uma sessão do
actual parlamento, ou analisando os ordenados dos gestores públicos, ou
pasmando-se com a acumulação de pensões de reforma dos mesmos
coleccionadores de condecorações a si impostas? Talvez, pura e
simplesmente em nome da liberdade. Quem sabe se, este ano, por algum
“iluminado” comissário - verificado, ao que parece, o número elevado de
feriados nacionais – a data de 10 de Junho não será, por economia, junta
à de 5 de Outubro! Teríamos assim, Camões republicano! Então as
consciências ficariam tranquilas pelos 10 milhões de euros gastos.
31 de Janeiro de 2010
Eduardo Aroso |
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Eduardo Aroso nasceu em 1952, em Coimbra.
Professor de Educação Musical, em cuja actividade se reparte pela
didáctica da música e da composição, tendo feito, durante alguns anos,
formação de professores do 1º ciclo do ensino básico. Foi regente do
Coro de Professores de Coimbra e co-fundador da Academia Monteverdi e da
Tertúlia do Fado de Coimbra. Na sua actividade literária contam-se as publicações: A Poesia vai à
Escola (obra adquirida pela Fundação Calouste Gulbenkian), Poemas do
Arquétipo, O Olhar da Serra, Habitante Sensível, A Quinta Nau e A
Guitarra Portuguesa – Aproximações Histórico-Musicais à sua Génese e
Fixação em Portugal (ensaio). Incluído em: Antologia Ibero-Americana de
Homenagem a Rosalía de Castro, Antologia da Bienal de Poesia de Madrid
(25 nações), Homenagem a Gerardo Diego, Homenagem a Claudio Rodríguez,
Álamo (Salamanca 2002 – Ciudad Europea de la Cultura) e A Jeito de
Homenagem a Eugénio de Andrade (antologia incluindo mais de 200 poetas
do mundo hispânico). Colaborações: Revista de Poesia Álamo (Salamanca),
EL Pregonero (Madrid), S. Paulo Destaque (S. Paulo), Artes & Artes
(Lisboa), Teoremas de Filosofa (Porto). Co-fundador do Gresfoz - Grupo
de Estudos Figueira da Foz – 1983, Co-subscritor para a Fundação da
Academia Ibero-Americana de Letras (Madrid); 1987. Na esfera da filosofia e do pensamento português, reconhece na chamada Escola Portuense, e nos diversos círculos de discípulos ao longo do tempo, a via para uma autêntica Tradição Portuguesa que é a de ser universal. De Agostinho da Silva - com quem partilhou um intenso convívio epistolar - à companhia actual dos pensadores António Telmo, Pinharanda
Gomes, Carlos Aurélio, Joaquim Domingues, até
às gerações mais novas, onde se destacam Pedro Sinde e Pedro Martins,
vem participando em vários encontros e publicações. Cultiva o
autodidactismo como a mais salutar actividade quotidiana. |