“Cura gay” e a escoliose

LUÍS COELHO


A comparação poderia ser infeliz, mas, em jeito de discussão acerca da homossexualidade, peguemos no exemplo de uma “patologia” quase sempre de origem desconhecida e que recruta a visão de uma “estrutura” “fisioterapeuticamente” difícil de tratar: a escoliose. Veremos que será relevante a analogia.

Uma escoliose é considerada um “desvio” da coluna, cuja origem é, para uns, congénita, para outros, desenvolvimental, ela é referida como uma “anormalidade”, o que implica adoptar enquanto “normal” a imagem de uma coluna sem qualquer desvio visível frontalmente (na realidade, a coluna “normal” possui uma ligeiríssima escoliose). Diríamos que, estatisticamente, a maioria das pessoas terá a coluna relativamente “direita”, se bem que, aos olhos atentos, todos possuem pequenos desvios. Um desvio que choque a normalidade é, muitas vezes, encarado com alguma angústia, seja pelo “padecente”, seja pela Sociedade, mas essa é uma ansiedade de adaptação à exigência de um Colectivo normativizado, a verdade é que comummente o escoliótico se encontra adaptado ao seu “desvio”, não sofrendo de dores (a não ser, curiosamente, quando o mesmo é, talvez acidentalmente, denunciado), não detectando sequer a existência de uma anormalidade. Parte da “anormalidade” é implicada pelos olhos do clínico, como do tecido social. Muitas escolioses passariam despercebidas se não existisse uma Autoridade, uma Comunidade, para patentear a sua importância. Detectada a anormalidade, há, bastas vezes, que corrigir o que fere aos olhos do “outro”, o que não feriria os olhos do “próprio”, sem que prevalecessem os olhos da alteridade.

Este “pathos” é uma normalidade pessoal, rapidamente “anormalizada”, neuroticizada, pelo ambiente ríspido. E o que “dói” deve ser tratado. Muitos clínicos concordarão com a necessidade de tal intervenção “correctiva”. Afinal de contas, permitir a “anormalidade” é pactuar com uma patologia, desferindo o golpe de uma suposta “normalização”. Um “normal” que não está de acordo com a “natureza” tem poucas possibilidades de vingar em termos salvíficos. Assim, remete o clínico para uma intervenção “estruturadora”, movido pelo dogma de um método, pelo próprio “ego” salvífico, negligenciando o facto de que a maior parte destas abordagens não resulta, podendo até gerar mais dor e desestruturação. Em nome de um Colectivo, corre-se o risco de lesar parte desse Colectivo. E isto parece-me pouco vantajoso para o “todo”. A ineficácia da intervenção “estruturadora” – praticamente advogada por certo preconceito “idealístico”/dogmático/moral – não remete necessariamente para a “normalização” da escoliose. A escoliose continua a ser o que sempre foi. É um “normal” idiossincrático que pode, muito bem, ser deixado à sua “sorte”. Mas é um “pathos” também, e, como alguma coisa simplesmente existente, pode ser tratada, se o padecente o desejar. Não obrigatoriamente por ser algo intrinsecamente “maleficente”, mas porque é algo que faz sofrer o “sujeito”. Sofrimento que seria decerto menor se não existisse a referida patologização. Sofrimento que seria menor se, tal-qualmente, o clínico se permitisse escusar dogmatismos, informando o “padecente” do carácter quase perdulário de uma possível terapêutica inútil. Deverá manter-se a esperança de curar o que não pode ser curado? Não será preferível “desiludir” o “sujeito”, possibilitando o seu luto, a sua aceitação?

Para os clínicos dogmáticos, a escoliose é qualquer coisa que foi “adquirida” e que, como tal, pode ser corrigida. Mas à custa do quê? Quanto sofrimento não implicará tal “cura”? Compensará a “culpa” da norma social? Para outros clínicos, a escoliose é qualquer coisa “congénita”, sendo muitas vezes inútil tratá-la (há, até, métodos que podem aumentar a curvatura, na tentativa de a diminuir). Mas, havendo, de facto, algum sofrimento físico genuíno (primário) associado à escoliose, não valerá a pena arriscar tratá-la? Não se justificará apontá-la como um alvo a abater? Se a sua consecução física é vera (se a neurose é primária), então talvez seja fundamental “patologizá-la”, não vá a nova “normalidade” ferir a salvação do colectivo… E a obrigatoriedade do “Social” justifica o sofrimento de algumas consciências. Por outro lado, também isto implica um sentimento de culpa enorme, pode a Sociedade viver com tamanha imposição? Uma imposição à consciência de quem tem uma patologia pela qual não é directamente responsável. Um “pathos” que poderia, não obstante, tornar-se uma “normalidade” salvífica, não há forma de o saber, mas a singularidade, como a liberdade, merece o benefício da dúvida; à custa de uma totalidade em sinergia com uma “natureza” normal? Talvez não, pelo que deve existir um modo de compatibilizar a liberdade de uns com a necessidade de prossecução de um modelo “dominante”. Assim, talvez não fosse de todo “maleficente” manter a “patologização” do que é menos comum, desde que seja igualmente respeitada a liberdade dos “patológicos” de assim se manterem. Isto significa que é tão importante não proibir um tratamento quanto que se deva lutar contra a homofobia. Em nome da liberdade de um “todo” maior e de um “todo” menor. A homofobia (bem como a tentativa de tratar a homossexualidade) é, aliás, um modo de motivar a homossexualização da Sociedade (aliás, a homofobia “culpabiliza” tanto o homossexual quanto a própria Sociedade, duplo inconveniente). É verdade, também, que não há nada mais homofóbico que a própria homossexualidade.

Em última análise, a “normativização” da homossexualidade é o melhor modo de harmonizar tanto o Colectivo quanto os homossexuais. A aceitação destitui parte de uma luta tornada, entretanto, inútil. A tolerância é a maior “cura”.

 

Luís Coelho