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MARIA ESTELA GUEDES

Posts do FaceBook


Matosinhos, 22.01.2010

CLEPTOCRACIA
A propósito de Isabel dos Santos e de verdadeiros cleptomaníacos

Grande palavra para grande ladrão. Se fosse pequeno, a palavra seria roubalheira ou algo assim. Cleptocracia designa um tipo de gestão fundado no roubo. Perguntamos como é possível roubar 150 milhões de dólares, mas o gozo, para quem rouba, pode vir de uns cêntimos, desviados para um acerto de contas ou de um porta-moedas alheio aberto por distracão. O cleptomaníaco nem quer os bens roubados para nada: como Robin Hood, vai para os shoppings, desvia um casaco, umas meias, e depois oferece isso. A menos que o casaco cheire tão horrorosamente a naftalina que o presenteado desvie de si o monstro: «Dê a outro, eu não visto isso!», uma criatura aceita, convicta de que é uma oferta honesta.
Um dia o cleptomaníaco confessou que vivia bem com isso.
Oh, céus! Como é possível? É claro que o cleptomaníaco vive bem com aquilo que é nosso, nós é que vivemos pessimamente com a situação.
Não invejo os que roubam, embora gostasse de ter suficiente dinheiro no banco para o gastar no que me apetecesse e fosse preciso. Mas só dinheiro, e mesmo assim! Os bancos também são roubados. Quanto mais bens possuímos, casas, o arsenal todo do Monóplio, tanto mais medo temos de ser roubados. Depois precisamos de cofres, seguranças, médicos e enfermeiros atrás de nós, mais os advogados e os contabilistas.
Eles vivem bem? Eu sentir-me-ia numa prisão ainda antes de ter sido julgada, condenada e metida na cadeia.


Matosinhos, 20.01.2010

CONVERSAS DE CAFÉ: RUI PINTO

Eu gosto de pegar no computador e vir trabalhar para o café, um café de brasileiros, no caso, apesar de às vezes as conversas me distrairem. Como agora, em que duas senhoras debatiam o caso Rui Pinto, para o descriminalizarem face a criminosos a sério, ladrões do nosso dinheiro e do nosso futuro.

Eu não gosto de hackers, mas admiro-os. Gostava de saber tanto como eles, não só para me defender dos seus ataques, e já sofri alguns, mas para ser independente, autossuficiente em matéria informática.

Contudo, os crimes de Rui Pinto, roubar uns milhares de emails de instituições tão importantes como clubes de futebol e ministérios, são nada em comparação com aquilo que decerto revelam os tais emails.

É compreensível que as pessoas comecem a revoltar-se com a celeridade com que são conduzidos à cadeia delinquentes menores como Rui Pinto, e se vão deixando cair no esquecimento e na prescrição os grandes crimes que ele bem queria denunciar, mas, pelos vistos, a Justiça não deixa.


Matosinhos, 16.01.2010

A MINHA HIPÓTESE
de solução do problema do telelé bloqueado

Não foi milagre de Fátima, para responder ao Francisco Carvalho.
Os supertécnicos da empresa implicada andam há dias a tentar resolver o problema e hoje recebi chamada de uma menina a querer que lhe dissesse o nº do cartão, eu aleguei que eram 2 cartões, e que, supondo que eu arranjasse um alfinete para retirar o suporte dos cartões – SIM 1 e SIM 2 – ainda tinha dois problemas: conseguir ler, mesmo com lupa, os números, e discernir qual deles era o SIM 1 e qual o SIM 2. Acordámos 5 minutos para retomarmos a conversação, entretanto descobri um alfinete, subtraí do telelé o caixilho com os 2 chips, fotografei-os com zoom para conseguir ler os algarismos, anotei-os e fiquei à espera que a menina ligasse de novo.
Ainda estou à espera.
Entretanto, na ASSUS – Universidade Sénior, a Ana Martins , nossa curadora, subtraiu o caixilho do telelé, os chips cairam, decerto ficaram trocados, aprendi que o 1 e 2 de SIM 1 e SIM 2 não se relacionam com os chips sim com o numero invisível a meus olhos inscrito a preto no caixilho preto em que encaixam os chips, e, trocados os chips do respetivo lugar 1 e 2, reinseridos na caixa mágica, desafiada a fazer uma chamada para a Ana, fiz a chamada, o telemóvel estava a funcionar na perfeição, porque a Ana Martins, a que faço vénia, desensarilhou um problema que as supercabeças tecnológicas não resolveram em 2 lojas da empresa nem no reduto cerebral da dita só acessível a chamadas telefónicas.


COMUNICAÇÕES E VIAGENS

As pessoas têm medo de andar em viagem sozinhas, há perigos. Sim, os mesmos que ficando em casa. Eu tenho os meus medos, odeio ficar sem comunicações, por isso, mal saio da Europa, compro um chip como quem compra um cão. Mal cheguei a Tânger, fui a uma loja da Telecom e o funcionário abriu o meu telemóvel, retirou um segundo cartão SIM (não perguntem o que isso é) e em vez dele inseriu o cartão/chip marroquino, que me deu internet sempre que precisei, e telefone, imagino. Correu tudo maravilhosamente, exceto que as minhas páginas de FaceBook, ao menos para mim, mudaram a linguagem para francês.
Chego a Madrid, entro numa loja da Orange e peço um chip ao mocinho do Bangladesh que me atendeu. Ele perguntou se devia retirar o SIM 1 ou SIM 2, respondi Sei lá!, ele deitou fora o chip marroquino (acertou no SIM) e em troca meteu no buraquinho o chip da Orange. Tudo ok, exceto que o telemóvel passou a falar espanhol.
Chego a Portugal e reparo, mesmo na fronteira, que não posso avisar a família da minha chegada, porque o telelé está bloqueado. Na sequência, em lojas diversas da NOS, consegui desbloquear tudo exceto a opção de fazer eu chamadas.
Hoje decidi: vou resolver o assunto de uma vez por todas! Não consegui. A NOS pediu três dias para resolver o problema,ao qual subtraí uma informação, essa da imagem, com email quase diário da Orange espanhola a pedir que não me esqueça de mandar cópia do passaporte para dado website.
RIDÍCULO!
Se eu desaparecer de circulação, já sabem: primeiro foi o telemóvel, a seguir vou eu.
VIAJAR É MUITO PERIGOSO! HEHE.


PASSADO E PRESENTE

Matosinhos, 10.01.2020

É vergonhoso que pessoas da minha idade se tenham esquecido de que na sua infância e juventude andavam de pé descalço, não tinham luz elétrica em casa, nem canalização, não recebiam pensões, não tinham aquecimento nem postos médicos a que pudessem recorrer gratuitamente, nem medicamentos quase de graça, não se lembrem de que as mulheres eram domésticas não pagas sem direito de voto, de sair de casa sem autorização do marido, que se esqueçam de que a vida mudou radicalmente, tão radicalmente que desapareceu a classe social mais pobre. É indecente que gente da minha geração se tenha esquecido de que não podia viajar, nem ler os livros que quisesse, etc., etc., e venha agora chorar-se que era bem melhor no tempo de Salazar, e que Salazar era tão bom que merece um museu, etc..

Esta lamúria é ignorante, incompetente e imoral.


A MINHA PRIMEIRA HISTÓRIA DO ANO

Madrid 1.01.2020

A Calle de Fuencarral é histórica, edifícios antigos onde viveram pessoas importantes como Simon Bolívar. Mas as lojas – as grandes marcas – estão fechadas, só 3 ou 4 restaurantes abertos, pastelarias, sim. Então, na rua fica o Museu de História. No Starbucks da praça, de uma mesa à outra perguntei para que lado era o Museu, they didn’t know, they were tourists. Well, arrisco ou não uma terceira nega? Vejo uma senhora com cãozinho, os turistas não costumam andar de cão, só pode ser uma espanhola. Por isso cumprimento, Bom dia!, pois se eu compreendo o espanhol o contrário devia ser idêntico mas não é, nem os brasileiros nos compreendem, eis porém a resposta da senhora:

– E vieste logo dar com uma portuguesa!…

É assim, grande parte dos portugueses vive na diáspora.

 


FALEMOS DE CALCINHAS

Tanger, 29.12.2019

Nos terraços de Tânger há sempre roupa a secar. No da foto, em que julgo viver um casal de meia idade, quem trata da roupa é ele. De resto, quem mais se vê, nos telhados, ocupado em tarefas domésticas, é o homem.

Já tinha observado, em post anterior, que nos mercados, de banca na rua ou de chão, não se via roupa interior feminina. A menos que elas usem culotes ou nada, realmente é raríssimo ver tais peças de roupa à venda ou nos estendais de roupa lavada. As coisinhas pequenas costumam ser peúgas.

Acho que não mostram, são discretos.

P.s. É preciso ir para os centros comerciais, com casas como a Triumph e Intimissimi, para encontrar tudo aquilo de que uma europeia gosta. Na medina, existe roupa interior feminina, sim, antiquada e puritana, meio oculta e em pequeníssima quantidade.


IT MUST BE HEAVEN

Tanger, 27.12.2019

O que diz o programa deve ter sido escrito por Elia Suleiman, realizador, argumentista e ator principal de «It must be heaven».

O filme é muitíssimo bom e já continuo, chegou o meu jantar. Pedi um bife, será um bife? O filme será o que o autor diz dele?

Nos antípodas do cinema que mais nos coloniza, o americano, sobretudo via televisão , este filme tem banda sonora, com música de Nina Simone e outra igualmente muito conhecida, mas o diálogo é quase nulo, pelo menos no que toca à personagem principal, o próprio Elia Suleiman, realizador que busca em Paris e em Nova Iorque produtores para ofilme que quer realizar.

Então, para começar e acabar, o filme é quase mudo. O quase é isto: na zona da Wall Street (rua do DINHEIRO, MONEY-MONEY), Elia mete-se num táxi. O taxista, negro, pergunta-lhe:

– Qual é a sua nacionalidade?

– Sou de Nazaré – responde Elia.

– E isso é um país?

-Sou palestiniano.

Duas falas, mas Elia Suleiman é muito bom ator, é nos seus ombros que repousa o acervo de parábolas mais certeiras e finas que tenho visto em dias de vida.

– Vocês já viram algum palestiniano??!! Ah-ha, ele é de Nazaré, Jesus de Nazaré!!!!! – vai gritando o motorista negro para os colegas que conduzem os seus amarelinhos pelas ruas de NY.


ESTOU A PENSAR EM COISAS SÉRIAS

Tanger. 26.12.2019

Como xixi e cocó

Em toda a parte as instalações sanitárias evoluíram, desde o zero ao melhor que não conheço. Já andei por lugares em que não se pode fugir, tem de ser no buraco que nos oferecem, mas pagando, claro.

Em Tânger ainda só aconteceu uma vez a sanita quadrada, rente ao chão, com sítio marcado para pôr os pés, mas há 30 anos era o normal. Por isso admirem como luxo da nossa era e da nossa classe social o que a foto mostra. Mais de metade da população do mundo nunca se sentou num trono desses, nem sabe o que isso é.


Tanger, 23 décembre 2019, 21:39

MARK HADDON

A história do cão assassinado e do detetive com Asperger.  Leio mais do que escrevo, já vou quase em metade do romance, mas tenho os dedos sem impressões digitais – essa é a sensação – porque o papel grosso e áspero do livro me está a causar alergia.

Muito bom romance.


ASPERGER

Tanger, 22.12.2019

Ontem à noite não conseguia adormecer (é difícil, aí pelas nove ou dez horas), por isso subi ao piso superior do Dar Jameel, onde há um armário de livros. Alguma doação, porque é tudo em alemão e inglês. Escolhi, escolhi, saiu-me da escolha um romance singular, fácil de decifrar e originalíssimo: é um policial em que a vítima é um cão e o detetive e narrador um adolescente com síndroma de Asperger. Os capítulos não são numerados como de costume, 1,2,3…., sim com números primos. Aprendemos imensa coisa sobre banalidades como a metáfora (é uma mentira) e etc… Se não conseguir acabar de o ler até ao fim da viagem, acho que o vou roubar.

Mark Haddon, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time, 2003


MARIA ESTELA GUEDES