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MARIA ESTELA GUEDES

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Matosinhos, 17.03.2020
TARDÁRIO

Ocorreu-me a palavra «tardário», para distinguir de «diário»: aquilo que se escreve à tarde. Não sei se existe, mas, se não existia, passou a existir agora. É função da arte pôr no mundo o que antes não existia.

Bom, saí pouco depois das 17h, voltei antes das 18h, o Pingo Doce já estava fechado, só podem estar dentro 25 pessoas de cada vez. Então fui ao multibanco da CGD. Nós precisamos de pagar as nossas contas, certo? Eu pago a duas pessoas que me/nos prestam serviços, eles precisam de sobreviver. Não aconteceu nada de extraordinário, exceto que o restaurante da Praceta da Concórdia, normalmente cheio, por uns 5 ou 10 minutos só me teve a mim como cliente, para tomar café.

O que eu aprendi hoje foi em casa, ao telefone e a passar os olhos por uns artigos na Internet que atiram a responsabilidade do vírus para cima dos Estados Unidos. Fala-se de guerra biológica por aí. Ao telefone, desliguei antes de perder a paciência, com uma alma que atirava a responsabilidade de tudo o que está a acontecer para cima das redes sociais. É outra faceta da guerra biológica…

A verdade é que o meu interlocutor está à margem das redes sociais, não teve a experiência do teclado da máquina de escrever, no século transato, não consegue teclar, por isso não frequenta a Internet nem faz ideia daquilo que diz. Ignora o que sejam as redes sociais, que começam por ser isso: redes, no plural. Há de tudo, por aqui.

Fiquem bem, havemos de superar a crise, e vai ser fascinante ver como será a vida, a cidade, a aldeia global, depois dela.


O QUE VI E OUVI

O que vi, na minha zona, agora de manhã. Muito menos gente na rua, nem máscaras nem desinfetante em gel na farmácia, para entrar na farmácia espera-se cá fora, na bicha, pequena, quase ninguém na padaria, que costuma estar cheia.

No lugar da fruta, dei conta de pessoas que ainda não se aperceberam do perigo, como se não acreditassem. Estamos demasiado habituados a que nos mintam e às falsas notícias, ou então convencem-se de que o que se passa é uma tramóia para agora alguém fazer fortuna a vender máscaras, é um exemplo…………………………

SIM!, pode ter sido, mas isso não quer dizer que o COVID-19 seja falso! É verdadeiro e está a dar cabo dos nossos sistemas de proteção, porque demasiadas pessoas ficam doentes ao mesmo tempo !

Protejam-se e protejam os outros: não fiquem na rua tempo a mais, sejam rápidos, improvisem máscaras, limpem as maçanetas das portas, etc., obedeçam às instruções oficiais, eliminem emails com receitas de pó de perlimpimpim, não mandem essas tolices a ninguém.

Os mais instruídos, aí em vossas casas, instruam os menos sábios, porque uma das falhas na defesa é a falta de instrução.

Havemos de sobreviver.


BOM DIA A TODOS!

Hoje levantei-me preocupada com o meu look, publico foto pois pode ser um bom exemplo para quem precisa de ir à farmácia e pôr o lixo na rua. Para a próxima, tenho aí uma criação adaptável a situações de crise ainda mais aguda.

E depois temos um dia de trabalho em casa, quase normal.


NÃO FUI EU!

Vou lendo, nas entrelinhas de conversas, pessoais e na TV, que chegam à tona manifestações de uma cultura muito entranhada no sentimento de culpa. Ora nós não somos culpados! A culpa é uma noção religiosa, nós somos é responsáveis ou não pelo que está a acontecer.

Daqui a dez anos, começarão a aparecer trabalhos de investigação que nos hão de revelar as causas e os comos dos acontecimentos. Isso agora não interessa, cabe no caixote do lixo das fake news, O que interessa, agora, é lavar as mãos e não sair de casa.


OS GRANDES PAQUETES

Acabo de saber que um casal de primos meus está a bordo de um paquete saído de Barcelona para dar a volta ao mundo numa viagem de quatro meses. Neste momento estão na Austrália, parados, visto que não convém sairem do navio para irem conhecer as belas cidades e paisagens. O comandante delibera, pensam interromper a viagem e regressar…

Estão todos bem, apenas contrariados pelo inesperado caso de saúde planetária.

E é isso: em casa, estamos no nosso casulo, a nossa cidade outro casulo é, casulo movente é o navio, mas todos estamos na mesma casa, a Terra, sem nenhum outro casulo para onde possamos ir.


PROBLEMAS DE COMUNICAÇÃO

Noto que as autoridades, na TV, fazem um esforço para comunicar de forma simples com as pessoas, mas há barreiras diplomáticas que têm de cair, porque o discuso do Poder é abstrato e as pessoas ainda não compreenderam o que se passa. Pôr atores a transmitir mensagens parece boa solução.

É preciso explicar como se todos fôssemos crianças.


COVID-19

Não deviam ser identificados os transmissores de vírus. Agora aparecem na TV a manifestar-se. mais ou menos assim: «Eu infetei mas não foi por querer! Parem de me acusar!».

Entre outros aspetos, o público devia ser instruído sobre a importância de saber quem foi o primeiro, qual a origem. E muitos também acham que se está a exagerar, o que denuncia falta de boa informação.


AQUI, DO MEU LUGAR DE QUARENTENA…

Tenhamos calma e paciência. Saí de casa só por meia hora para ir à policlínica onde exerce o meu médico, só para saber como estavam as coisas. Estão normais. Aproveitei para comprar fruta e pão. Menos normal do que o normal. Na bicha para pagar, uma senhora quis meter conversa comigo e meteu. Sorri-lhe, polidamente, mas não abri a boca para alimentar a conversa. Ao voltar a casa, desinfetei os manípulos das portas. Mas n tenho álcool, não costumo usar. Procurei mas não encontrei.

Tenhamos calma.

Acho que vou reler alguma coisa de A Teoria de Gaia. Livro do século passado, mas que deve ainda estar atual. A teoria é que Gaia/Terra é um organismo auto-suficiente, capaz de se regular. Lembro-me de os zoólogos com quem trabalhava, na altura, debaterem muito essas ideias, originadas na investigação de Lynn Margulis. Vou rever o assunto.


SITUAÇÃO EXTRAORDINÁRIA

Nunca tinha vivido uma situação destas, ela merece reflexão em vários planos, desde a oportunidade única de o vírus nos irmanar e sororizar a todos, o que traz à tona a necessidade de saborear essa palavra materna, TERRA, até às questões do machismo. Preocupam-me os homens sozinhos, nascidos em culturas que remetem exclusivamente para a mulher as tarefas de sobrevivência diária.

Ó vós, homens sem família em casa: sabeis mexer um ovo, fritar um bife, cozer uma massa? Se as lavandarias forem interditadas, desenrascais-vos a lavar as cuecas?

Podemos aproveitar a quarentena para refletir em tanta coisa!


ENTRE CILA E CARÍBDIS

A minha escola encerrou devido à situação motivada pelo COVID-19, contra as determinações governamentais de não encerramento das unidfades de Ensino.

O Triplov não encerra, a menos que eu mesma adoeça. Em princípio, no dia 21 de março, primeiro da primavera, teremos em linha o novo tomo da Revista Triplov, inteiramente dedicado a Ricardo Daunt, escritor brasileiro que muito tem trabalhado sobre autores portugueses da modernidade e do Modernismo.


A LINGUAGEM É UM VÍRUS

diz Laurie Anderson:

https://www.youtube.com/watch?v=KvOoR8m0oms

 


NÓS, CIDADÃOS, ESTAMOS PREPARADOS?

O vírus COVID -19 não é virulento, passe a redundância. Pelos vistos, cura-se com os medicamentos que já existem, sem necessidade de nada específico. Só morrem as pessoas que morreriam com uma gripe normal. O problema é o contágio explosivo, à escala global, que manda para a cama grandes setores da população. E neste caso faltam os hospitais, faltam os médicos, enfermeiros, medicamentos, tudo falta, e suspende~se a produção de bens, porque tudo está parado. Então, se a cena se agravar, nós, cidadãos, teremos de tomar conta dos nossos doentes, de assegurar serviços mínimos, etc..
Onde é que a probabilidade de contágio em grande escala é mais alta? Em locais como quartéis, por exemplo.

Não vai acontecer nada de extraordinário, esperemos, mas vejam como as mais mínimas criaturas que existem, os vírus, as bactérias, só visíveis com microscópio, conseguem perturbar a vida humana na Terra! Uma manada de elefantes zangados causaria problemas bem menores.


Matosinhos, 24.02.2010

QUEDAS COM CROCODILOS

Estatelei-me há bocado no passeio, devo ter os joelhos todos esfolados, tal como as mãos. Tropecei nos crocodilos… A pasta com o portátil foi projetada a pelo menos meio metro, ai!, receei pela boa saúde do seu conteúdo, mas este post é a prova cabal de que o HPezinho é muito sólido. Demorei ao menos um minuto a levantar-me, a tarefa não é assim tão simples. Duas fulanas, do outro lado da rua, conversando, conversando, acho que nem deram conta. Um carro ao pé, de portas abertas, sem ninguém por perto que me desse a mão…

Minha gente, ninguém se aproximaria com um prato de sopa, se soubessem que tinha sido contagiada pelo Corona vírus… Aquele português fechado numa cabina do Diamond Princess, o navio de luxo, está a passar fome…

Eu caí porque me chateia calçar sapatos, gosto de algo em que baste enfiar os pés, estilo crocs, os malvados. Vou deitá-los fora… Fácil resolver o problema, deitam-se fora os crocs e desaparece um motivo de queda. Não é assim tão fácil deitar fora o vírus Corona, pelo contrário: nem com ténis levezinhos podemos fugir dele, anda no ar, despreza fronteiras, nações, narizes, e que países, digam, têm capacidade para construir em dias um hospital, como conseguiram os chineses?


Matosinhos, 24.02.2020

PÃO

Hoje estava sem pão para o pequeno almoço. Não podia sair de casa para ir à padaria, de maneira que resolvi fazer pão. Basta um punhado de farinha com um ovo, uma pitada de sal e outra de pimenta preta. Bati tudo, polvilhei a bola com farinha e fiz uma bolacha. Depois untei a frigideira e pus a bolacha a cozer. Ficou bom.
Agora vou ao supermercado comprar massas, umas latas de atum, fumeiro, arroz…

Homens e mulheres precisam de saber um pouco de tudo.

E bom dia para todos, sem más notícias.


Matosinhos, 19.02,2020

EUTANÁSIA

Os deputados portugueses votam afavor ou contra a despenalização da eutanásia. Daqui a momentos, saberemos o resultado. Se não for agora, noutro momento será. Há necessidade de pôr termo a tormentos sem remédio, mas isso não significa votar sim. E é bom sabermos que o sofrimento não é só do moribundo (enfim), a eutanásia livra-nos (???) do nosso próprio sofrimento. Eu não tenho capacidade de lidar com o sofrimento dos outros, sofro menos com o meu. Mas não tenho a certeza de que a eutanásia resolva o problema coletivo, acho que é só uma forma de pôr ponto final numa situação.


Tyler Henry, o médium de Hollywood

Não me convidaram para resolver este inquérito com um “Nenhum” e ponto final, por isso analisemos o problema, que o é, basta a sua contiguidade com o mundo espírita.

Por acaso objetivo, a que outros chamam magia, nestes últimos tempos tenho pensado muito na escrita automática, por ver na TV as consultas de Tyler Henry às celebridades de Hollywood. Ele não recorre à escrita para estabelecer o canal de comunicação com os antepassados dos consulentes, sim ao desenho automático: vai riscando sem ver um caderno, enquanto diz o que as linhas sibilam. De vez em quando olha para o papel e pronuncia-se:

– Parece-me perceber no desenho um chapéu, e paira um aroma no ar, será de tabaco? Ah, sim, charuto, tão agradável o aroma… O chapéu é claro, tem uma fita preta, mas não distingo bem, só entrevejo metade… Diz-lhe alguma coisa o tabaco e metade de um chapéu? – pergunta ele à celebridade.

O consulente puxa pela memória e concebe:

Inacreditável! Como foi que fez? É o meu bisavô, que passou muitos anos em Cuba e negociava em charutos de Havana! Olhe que eu não acreditava, só aceitei falar consigo por curiosidade… Fabuloso, ninguém conhece estes pormenores de família! Contava a minha avó que ele tinha um tique nervoso, o de dobrar o chapéu em dois mal se sentava…

Afinal a história acaba por ser contada pelo consulente. Em última instância, caso fosse publicada, quem teria o direito de assinar seria a celebridade bisneta do negociante de charutos que dobrava em dois o panamá e não quem recorre ao automatismo psíquico.

Voltando agora ao papel que a escrita automática desempenha na minha poesia, direi que o mais perto que estive de uma redação abstraída, sem controlo da razão, terá sido durante a gestação de Eco, Pedras Rolantes, por efeito de algum charrito. Porém eu nunca publico nada cem por cento espontâneo, reescrevo tudo.

Poesia, vejamos. Ultimamente procuro a viagem para escrever, porque o movimento da paisagem me estimula, e talvez o movimento de riscar estimule Tyler Henry. Não é esse o segredo dos peripatéticos? Acabei de voltar de Marrocos, onde fui buscar um livro sebastianista e trouxe, sim, o borrão de uns trinta poemas, que precisam agora de ser construídos. O embrião deles foi rabiscado durante as viagens de comboio entre Meknés, Arzila, Alcácer Quibir e Rabat. Há quatro ou cinco anos, no comboio entre Paris e Lille, escrevi os borrões dos poemas de Folhas de Flandres, nos quais converso com Herberto Helder, e lhe enviei depois de publicado o caderno. A conversa herbertiana surgiu por acaso objetivo, se quiserem, surgiu porque eu estava a replicar as viagens dele de Os passos em volta.

A minha escrita deve pouco ou nada ao automatismo psíquico. Ao acaso, sim, falai-me de acaso objetivo, essas coincidências fulgurantes que podem ter desfechos felizes e inesperados. A escrita automática exigiria um estado de rêverie absoluta e nem sequer sei como ele se alcança. O automatismo puro sai do domínio da arte para o da crença. Acredito na mediunidade? Acredito que Tyler Henry fala com os espíritos?

Acredite ou não, a poesia é obra nossa e não dos espíritos.

In: A Ideia, Revista de Cultura Libertária
Portugal, nºs 87-88-89, 2019, p. 20


Odivelas, 01.02.2020

ARS MAGNA, DE PAULO JORGE BRITO E ABREU

A Ideia, revista de cultura libertária, de que sai hoje o triplo número 87-88-89, não é só uma revista, é uma empresa editorial a que sempre se associam outras publicações. Eis o caso da antologia poética de Paulo Jorge Brito e Abreu, DUMA ORAÇÃO PORTUGUESA, suplemento deste já triplo número de A Ideia, com data de 2019. Em agradecimento ao poeta, aqui deixamos o poema que nos dedica, a mim, entre todos os cultores da Ars Magna. Não mereço, creio na Poesia mais do que no Templo, mas fico, pobre mortal, vaidosa.


 

Odivelas. 27.01.2020

O HACKER RUI PINTO

Uns dizem que é um criminoso político, outros, comum, e perguntam se deve continuar preso.
Rui Pinto, lembremos, é o hacker que tem vindo a denunciar corrupção com roubos de dinheiro, em Angola e cá, em quantitativos astronómicos.
Sim, deixem ficar o Rui Pinto na cadeia até os criminosos verdadeiros precisarem da sua cela. A história está quentíssima, nem num filme de gangsters o crime é tão violento. Se o puserem em liberdade, o jovem ainda pode ser atropelado ou apanhar uma bala perdida na cabeça.
Deixa-te estar, mocinho! As ruas andam muito perigosas.


Matosinhos, 22.01.2010

CLEPTOCRACIA
A propósito de Isabel dos Santos e de verdadeiros cleptomaníacos

Grande palavra para grande ladrão. Se fosse pequeno, a palavra seria roubalheira ou algo assim. Cleptocracia designa um tipo de gestão fundado no roubo. Perguntamos como é possível roubar 150 milhões de dólares, mas o gozo, para quem rouba, pode vir de uns cêntimos, desviados para um acerto de contas ou de um porta-moedas alheio aberto por distracão. O cleptomaníaco nem quer os bens roubados para nada: como Robin Hood, vai para os shoppings, desvia um casaco, umas meias, e depois oferece isso. A menos que o casaco cheire tão horrorosamente a naftalina que o presenteado desvie de si o monstro: «Dê a outro, eu não visto isso!», uma criatura aceita, convicta de que é uma oferta honesta.
Um dia o cleptomaníaco confessou que vivia bem com isso.
Oh, céus! Como é possível? É claro que o cleptomaníaco vive bem com aquilo que é nosso, nós é que vivemos pessimamente com a situação.
Não invejo os que roubam, embora gostasse de ter suficiente dinheiro no banco para o gastar no que me apetecesse e fosse preciso. Mas só dinheiro, e mesmo assim! Os bancos também são roubados. Quanto mais bens possuímos, casas, o arsenal todo do Monóplio, tanto mais medo temos de ser roubados. Depois precisamos de cofres, seguranças, médicos e enfermeiros atrás de nós, mais os advogados e os contabilistas.
Eles vivem bem? Eu sentir-me-ia numa prisão ainda antes de ter sido julgada, condenada e metida na cadeia.


Matosinhos, 20.01.2010

CONVERSAS DE CAFÉ: RUI PINTO

Eu gosto de pegar no computador e vir trabalhar para o café, um café de brasileiros, no caso, apesar de às vezes as conversas me distrairem. Como agora, em que duas senhoras debatiam o caso Rui Pinto, para o descriminalizarem face a criminosos a sério, ladrões do nosso dinheiro e do nosso futuro.

Eu não gosto de hackers, mas admiro-os. Gostava de saber tanto como eles, não só para me defender dos seus ataques, e já sofri alguns, mas para ser independente, autossuficiente em matéria informática.

Contudo, os crimes de Rui Pinto, roubar uns milhares de emails de instituições tão importantes como clubes de futebol e ministérios, são nada em comparação com aquilo que decerto revelam os tais emails.

É compreensível que as pessoas comecem a revoltar-se com a celeridade com que são conduzidos à cadeia delinquentes menores como Rui Pinto, e se vão deixando cair no esquecimento e na prescrição os grandes crimes que ele bem queria denunciar, mas, pelos vistos, a Justiça não deixa.


Matosinhos, 16.01.2010

A MINHA HIPÓTESE
de solução do problema do telelé bloqueado

Não foi milagre de Fátima, para responder ao Francisco Carvalho.
Os supertécnicos da empresa implicada andam há dias a tentar resolver o problema e hoje recebi chamada de uma menina a querer que lhe dissesse o nº do cartão, eu aleguei que eram 2 cartões, e que, supondo que eu arranjasse um alfinete para retirar o suporte dos cartões – SIM 1 e SIM 2 – ainda tinha dois problemas: conseguir ler, mesmo com lupa, os números, e discernir qual deles era o SIM 1 e qual o SIM 2. Acordámos 5 minutos para retomarmos a conversação, entretanto descobri um alfinete, subtraí do telelé o caixilho com os 2 chips, fotografei-os com zoom para conseguir ler os algarismos, anotei-os e fiquei à espera que a menina ligasse de novo.
Ainda estou à espera.
Entretanto, na ASSUS – Universidade Sénior, a Ana Martins , nossa curadora, subtraiu o caixilho do telelé, os chips cairam, decerto ficaram trocados, aprendi que o 1 e 2 de SIM 1 e SIM 2 não se relacionam com os chips sim com o numero invisível a meus olhos inscrito a preto no caixilho preto em que encaixam os chips, e, trocados os chips do respetivo lugar 1 e 2, reinseridos na caixa mágica, desafiada a fazer uma chamada para a Ana, fiz a chamada, o telemóvel estava a funcionar na perfeição, porque a Ana Martins, a que faço vénia, desensarilhou um problema que as supercabeças tecnológicas não resolveram em 2 lojas da empresa nem no reduto cerebral da dita só acessível a chamadas telefónicas.


COMUNICAÇÕES E VIAGENS

As pessoas têm medo de andar em viagem sozinhas, há perigos. Sim, os mesmos que ficando em casa. Eu tenho os meus medos, odeio ficar sem comunicações, por isso, mal saio da Europa, compro um chip como quem compra um cão. Mal cheguei a Tânger, fui a uma loja da Telecom e o funcionário abriu o meu telemóvel, retirou um segundo cartão SIM (não perguntem o que isso é) e em vez dele inseriu o cartão/chip marroquino, que me deu internet sempre que precisei, e telefone, imagino. Correu tudo maravilhosamente, exceto que as minhas páginas de FaceBook, ao menos para mim, mudaram a linguagem para francês.
Chego a Madrid, entro numa loja da Orange e peço um chip ao mocinho do Bangladesh que me atendeu. Ele perguntou se devia retirar o SIM 1 ou SIM 2, respondi Sei lá!, ele deitou fora o chip marroquino (acertou no SIM) e em troca meteu no buraquinho o chip da Orange. Tudo ok, exceto que o telemóvel passou a falar espanhol.
Chego a Portugal e reparo, mesmo na fronteira, que não posso avisar a família da minha chegada, porque o telelé está bloqueado. Na sequência, em lojas diversas da NOS, consegui desbloquear tudo exceto a opção de fazer eu chamadas.
Hoje decidi: vou resolver o assunto de uma vez por todas! Não consegui. A NOS pediu três dias para resolver o problema,ao qual subtraí uma informação, essa da imagem, com email quase diário da Orange espanhola a pedir que não me esqueça de mandar cópia do passaporte para dado website.
RIDÍCULO!
Se eu desaparecer de circulação, já sabem: primeiro foi o telemóvel, a seguir vou eu.
VIAJAR É MUITO PERIGOSO! HEHE.


PASSADO E PRESENTE

Matosinhos, 10.01.2020

É vergonhoso que pessoas da minha idade se tenham esquecido de que na sua infância e juventude andavam de pé descalço, não tinham luz elétrica em casa, nem canalização, não recebiam pensões, não tinham aquecimento nem postos médicos a que pudessem recorrer gratuitamente, nem medicamentos quase de graça, não se lembrem de que as mulheres eram domésticas não pagas sem direito de voto, de sair de casa sem autorização do marido, que se esqueçam de que a vida mudou radicalmente, tão radicalmente que desapareceu a classe social mais pobre. É indecente que gente da minha geração se tenha esquecido de que não podia viajar, nem ler os livros que quisesse, etc., etc., e venha agora chorar-se que era bem melhor no tempo de Salazar, e que Salazar era tão bom que merece um museu, etc..

Esta lamúria é ignorante, incompetente e imoral.


A MINHA PRIMEIRA HISTÓRIA DO ANO

Madrid 1.01.2020

A Calle de Fuencarral é histórica, edifícios antigos onde viveram pessoas importantes como Simon Bolívar. Mas as lojas – as grandes marcas – estão fechadas, só 3 ou 4 restaurantes abertos, pastelarias, sim. Então, na rua fica o Museu de História. No Starbucks da praça, de uma mesa à outra perguntei para que lado era o Museu, they didn’t know, they were tourists. Well, arrisco ou não uma terceira nega? Vejo uma senhora com cãozinho, os turistas não costumam andar de cão, só pode ser uma espanhola. Por isso cumprimento, Bom dia!, pois se eu compreendo o espanhol o contrário devia ser idêntico mas não é, nem os brasileiros nos compreendem, eis porém a resposta da senhora:

– E vieste logo dar com uma portuguesa!…

É assim, grande parte dos portugueses vive na diáspora.

 


FALEMOS DE CALCINHAS

Tanger, 29.12.2019

Nos terraços de Tânger há sempre roupa a secar. No da foto, em que julgo viver um casal de meia idade, quem trata da roupa é ele. De resto, quem mais se vê, nos telhados, ocupado em tarefas domésticas, é o homem.

Já tinha observado, em post anterior, que nos mercados, de banca na rua ou de chão, não se via roupa interior feminina. A menos que elas usem culotes ou nada, realmente é raríssimo ver tais peças de roupa à venda ou nos estendais de roupa lavada. As coisinhas pequenas costumam ser peúgas.

Acho que não mostram, são discretos.

P.s. É preciso ir para os centros comerciais, com casas como a Triumph e Intimissimi, para encontrar tudo aquilo de que uma europeia gosta. Na medina, existe roupa interior feminina, sim, antiquada e puritana, meio oculta e em pequeníssima quantidade.


IT MUST BE HEAVEN

Tanger, 27.12.2019

O que diz o programa deve ter sido escrito por Elia Suleiman, realizador, argumentista e ator principal de «It must be heaven».

O filme é muitíssimo bom e já continuo, chegou o meu jantar. Pedi um bife, será um bife? O filme será o que o autor diz dele?

Nos antípodas do cinema que mais nos coloniza, o americano, sobretudo via televisão , este filme tem banda sonora, com música de Nina Simone e outra igualmente muito conhecida, mas o diálogo é quase nulo, pelo menos no que toca à personagem principal, o próprio Elia Suleiman, realizador que busca em Paris e em Nova Iorque produtores para ofilme que quer realizar.

Então, para começar e acabar, o filme é quase mudo. O quase é isto: na zona da Wall Street (rua do DINHEIRO, MONEY-MONEY), Elia mete-se num táxi. O taxista, negro, pergunta-lhe:

– Qual é a sua nacionalidade?

– Sou de Nazaré – responde Elia.

– E isso é um país?

-Sou palestiniano.

Duas falas, mas Elia Suleiman é muito bom ator, é nos seus ombros que repousa o acervo de parábolas mais certeiras e finas que tenho visto em dias de vida.

– Vocês já viram algum palestiniano??!! Ah-ha, ele é de Nazaré, Jesus de Nazaré!!!!! – vai gritando o motorista negro para os colegas que conduzem os seus amarelinhos pelas ruas de NY.


ESTOU A PENSAR EM COISAS SÉRIAS

Tanger. 26.12.2019

Como xixi e cocó

Em toda a parte as instalações sanitárias evoluíram, desde o zero ao melhor que não conheço. Já andei por lugares em que não se pode fugir, tem de ser no buraco que nos oferecem, mas pagando, claro.

Em Tânger ainda só aconteceu uma vez a sanita quadrada, rente ao chão, com sítio marcado para pôr os pés, mas há 30 anos era o normal. Por isso admirem como luxo da nossa era e da nossa classe social o que a foto mostra. Mais de metade da população do mundo nunca se sentou num trono desses, nem sabe o que isso é.


Tanger, 23 décembre 2019, 21:39

MARK HADDON

A história do cão assassinado e do detetive com Asperger.  Leio mais do que escrevo, já vou quase em metade do romance, mas tenho os dedos sem impressões digitais – essa é a sensação – porque o papel grosso e áspero do livro me está a causar alergia.

Muito bom romance.


ASPERGER

Tanger, 22.12.2019

Ontem à noite não conseguia adormecer (é difícil, aí pelas nove ou dez horas), por isso subi ao piso superior do Dar Jameel, onde há um armário de livros. Alguma doação, porque é tudo em alemão e inglês. Escolhi, escolhi, saiu-me da escolha um romance singular, fácil de decifrar e originalíssimo: é um policial em que a vítima é um cão e o detetive e narrador um adolescente com síndroma de Asperger. Os capítulos não são numerados como de costume, 1,2,3…., sim com números primos. Aprendemos imensa coisa sobre banalidades como a metáfora (é uma mentira) e etc… Se não conseguir acabar de o ler até ao fim da viagem, acho que o vou roubar.

Mark Haddon, The Curious Incident of the Dog in the Night-Time, 2003


MARIA ESTELA GUEDES