O SEGREDO DEBAIXO DE UMA PEDRA
José Manuel Anes

Umberto Eco, na sua obra Os Limites da interpretação refere a  ambiguidade constitutiva da Alquimia, centrada em dois polos, a alquimia prático-operativa e a alquimia simbÓlica, assentando a primeira na busca da transmutação metálica - procura realmente produzir ouro, e representou um modo, embora ingénuo e pré-científico, de interrogar a natureza, de vê-la como coisa viva e lugar de possíveis transformações, escreve Eco- enquanto que a segunda, segundo ele, se move a nível puramente metafórico, representando uma das manifestações da gnose hermética. Este filão simbólico seria místico, esotérico e hermético e não teria nenhum valor científico e encerraria apenas fantasias de regeneração e transfor-mação espiritual .

Embora Eco produza, neste trabalho algumas considerações judiciosas sobre a alquimia, não o poderemos seguir no que diz respeito à distinção radical entre as duas alquimias, pois a sua nomenclatura leva a pensar que a alquimia operativa está isenta de símbolos e a simbólica isenta de operatividade - o que desmentido por muito tratados alquímicos e, em particular pelo ENNOEA. Também não poderemos acompanhar este autor no que concerne à simbólica alquímica, a qual, como veremos, não é totalmente polissémica, nem completamente aleatória como Eco parece sugerir.

A pesar de este autor salientar - muito acertadamente, ele que, no entanto, não é um especialista da Alquimia - que o momento operativo e o momento simbólico andaram sempre a par e passo, ele quer, no entanto, dizer apenas com isso que eles coexistiram historicamente, não admitindo Eco que esses dois "momentos" estivessem presentes, ao longo da história da Arte de Hermes,  num mesmo alquimista, a não ser, como ele refere,  excepcionalmente, no caso de muitos alquimistas simbólicos contemporâneos, como o misterioso e celebrado Fulcanelli, os quais prosseguiram práticas operativas. De facto - contrariamente ao que muitos alquimistas contemporâneos afirmam, tentando extrapolar rectroactivamente a sua visão iniciática da alquimia -, concedemos que é difícil sustentar que todos os autores alquímicos de antanho tenham visado uma prática mística, esotérica - gnóstico-hermética -, de transformação espiritual. Isso é sobretudo claro numa certa alquimia do século XVII e XVIII, quando ela, segundo Betty Dobbs, até aí assente em especulações místicas (.) muito fortemente orientadas para a expeculação interior, passa a receber uma influência calmante do racionalismo e da nova filosofia mecanista. No entanto, estes dois momentos propostos por B. Dobbs, não são mutuamente exclusivos: a alquimia racionalizada dos séculos XVII e XVIII apresenta ainda algumas características místicas, como é o caso de muitos tratados alquímicos e como é o caso do ENNOEA do nosso Castelo Branco, onde estão presentes, como veremos, quer um discurso racional quer um simbolismo onírico.

 
 

I Colóquio Internacional Discursos e Práticas Alquímicas (1999)

"Discursos e Práticas Alquímicas". Volume I (2001) - Org. de José Augusto Mourão, Maria Estela Guedes, Nuno Marques Peiriço & Raquel Gonçalves. Hugin Editores, Lisboa, 270 pp. hugin@esoterica.pt

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