ALGUNS SEGREDOS
CARBONÁRIOS

 

Maria Estela Guedes

 

 

 

 

 

 

 

ANTÓNIO VENTURA
A CARBONÁRIA EM PORTUGAL (1897-1910)
Livros Horizonte, Lisboa, 2004, 102 pp.

Lamenta António Ventura, logo à boca do seu livro sobre a Carbonária em Portugal, "a carência quase absoluta de fontes que possibilitem reconstituir a origem, estruturas, actividade e morte dessa mítica organização".

Antes que me esqueça do principal objectivo deste artigo, pergunto: - De certeza? António Ventura garante que a Carbonária morreu mesmo? Em todo o caso, peço a quem me leia, e tenha o grau de parentesco adequado, o favor de me pôr em contacto com os Bons Primos portugueses. Forneça para o efeito o meu nome e endereço ultra-secretos: Stella Carbono14, mailto: estela@carbonaria.org.

A dificuldade de conhecer a "mítica organização" não resulta só das defesas naturais de uma sociedade secreta em acção subversiva, que procura não deixar rasto que a denuncie aos instrumentos de repressão legalmente instituídos, desenvolvendo assim as suas actividades à margem do papel escrito. Esse secretismo passa por outros dispositivos de apoio, que incluem autores, como António Ventura ou mesmo eu, que, pertencendo ou não a sociedades secretas, recorrem a procedimentos próprios delas para se exprimirem. As razões para estranhos e extemporâneos usarem a argótica, já de si constituiriam outro campo de pesquisa. Por que motivo, em 2004, e dada como extinta a organização, precisa António Ventura de escrever: "Assinalámos a sua presença nos círios civis Estrela e Heliodoro Salgado". O que serão os círios, por S. Teobaldo? E a título de quê se invoca aqui um santo? Quem terá sido S. Teobaldo, por Obélix? E Obélix, o que em bebé caiu no pote da poção mágica dos druidas, terá sido algum carbonário?

Até há bem pouco tempo, o que eu pensava da Carbonária espelhava-se nessa frase de António Ventura, que sintetiza a informação que os historiadores passam para o público. Foi a bússola que me guiou os passos ao publicar, em 1998, na editora de Luiz Pacheco, "Carbonários, Operação Salamandra: Chioglossa lusitanica Bocage, 1864", de parceria com Nuno Marques Peiriço (1). Que ideia fazia então do assunto? A de que a Carbonária tinha sido uma instância militarizada da maçonaria (e bastar-me-ia dizer "a maçonaria", como se só uma existisse), criada com o fim muito concreto de derrubar a monarquia e em seu lugar erguer a república. Uma vez conseguido o intento, ter-se-ia apagado como um círio já no coto. Ora não é nada disto, e é bom começar por esclarecer que a Carbonária é a Maçonaria Florestal ou Maçonaria da Madeira, em espelho da outra, a Maçonaria da Pedra. A simbólica da Carbonária assenta nos cedros do Líbano com que Hyram construiu o mesmo Templo de Salomão da Maçonaria da Pedra. A sua matéria-prima é o carvão. Por conseguinte, uma maçonaria não se cria nem extingue dessa maneira, entre duas exactas datas pagãs. A instância militar é que pode desaparecer, uma vez terminado o combate, mas desaparece onde possa reaparecer, e o melhor local para se ocultarem os carbonários é a Maçonaria da Pedra.

Receio, entretanto, que nenhum sentido histórico justifique neste momento a ocultação e o desaparecimento. E além disso há trabalho a fazer. Noutros países a Carbonária está activa e laboriosa, de portais escancarados na Internet. Não é só no Brasil, é em Espanha, França, etc., e quem quiser pode ficar com uma ideia de quanto está viçosa, dando uma espreitadela à nossa página de links carbonários (2).

Ora, na minha investigação sobre os exploradores e naturalistas, nada fazia prever que aparecessem carbonários. Ainda menos esperava eu que os textos dos naturalistas tivessem duplo código, um deles essa argótica que permite falar dos lobos da fauna angolana, dos hipopótamos e da choça dos bubis em Fernando Pó, e a que por extensão se pode acrescentar o estendal dos erros, que não é argótico mas é carbonário na intenção subversiva, de tudo o que vai das Figueira da Foz e Coimbra no Douro até às entradas "Quioglossa", Quioglossídeo" e "Quioglossídeos" na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (veja a imagem, em baixo), relativos à salamandra que já foi lusitânica, vai em ibérica, e ainda acabará como principiou: americana. Note-se que, para serem 3.'. os verbetes, houve que desdobrar um em singular e plural, como se não bastasse a Salam.'., também fossem precisas as SSalam.'.. Notável habitante das chamas, que recebe outros nomes, e não só esse Chioglossidae de família, prima da Mosca Branca, mas também, entre mais, o de "réptil urodelo". Que coisa terrível, Réééptil Urodelo!

A propósito da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, que mais uma vez recomendo aos investigadores, agora da Carbonária, na sua qualidade de fonte primária para muitos temas interessantes como o do quioglossídeo da família Plethodontidae, diz António Ventura que há nela uma gralha tipográfica que transforma a data de falecimento de José do Vale, de 1927 em 1917, o que tem induzido em erro sucessivos autores que se basearam naquela informação.

A Grande Enciclopédia, já o revelei e com exemplos vários, é um baluarte da subversão maçónico-naturalística, e não apenas quanto aos dados biográficos, que a tradição manda que sejam falsificados quando pertençam a iniciados. Aliás, não precisam de ser assignificativamente falsos, podem ser verdadeiros, quando se trate dos dados da identidade iniciática. Basta porém que a identidade simbólica faça espelho com a cívica, para ficarmos face ao duplo, donde, mesmo verdadeira, uma das identidades é forçosamente falsa, se não o forem ambas.

Não é admissível que este tipo de informações continue a ser passado para o público, nem que quem sabe se cale sobre hábitos tão lesivos da História. Eis uma tarefa urgente: esclarecer o que precisa de ser esclarecido, publicar os segredos que já não fazem sentido e que afinal muitos estão mortos por revelar.

As datas entre as quais habitualmente se compreende a actuação da Carbonária em Portugal não podem estar certas. Os textos que estudo, dos naturalistas, dão conta da sua actuação em Portugal já no século XVIII, pelo menos. Essa literatura não fornece nenhum dado sobre a extinção, pelo contrário: a Carbonária está viva.

A respeito de memórias longínquas dela, cito um email do B.'. P.'. Walmir Battu: "Acabo de ler um trecho do livro Memórias de Garibaldi, de Alexandre Dumas, onde em uma passagem de sua história de combates no Rio Grande do Sul, contra os imperialistas, êle menciona que conhecera um Carbonário de nome "Tal", que estava a residir em São Borja (Fronteira do Brasil com Argentina), e que havia lutado nas fileiras da Carbonária Portuguesa; ferido gravemente na cabeça e nas costas, retirou-se para o Brasil. Era um homem Italiano, muito valente, por quem Garibaldi nutria um grande respeito. Ora, isso foi por volta de 1835-1843, quando Garibaldi se encontrava na República Riograndense! Se o Tal Carbonário já nessa altura tinha lutado em Portugal, significa que a Carb.'. Port.'. já operava bem antes de 1800, por lá... "

Sim, bem antes. Em relação a textos de naturalistas do século XVIII, chamo a atenção para os de João da Silva Feijó sobre Cabo Verde, que estão em linha no TriploV (3). O manuscrito tem aspectos bizarros, de que dou conta furtiva nas notas de rodapé do artigo que Luís Arruda e eu publicámos sobre ele. Está datado de 1783. Pertence ao género epistolar, usado normalmente pelos naturalistas, dirigida a carta ao ministro da Marinha e Ultramar, Martinho de Mello e Castro. Vá ver o facsímile da página de rosto (4). Repare nas florinhas desenhadas, e na gralha, ou na argótica do título: "Itinerario Flosofico...". Portanto já desde a fachada o manuscrito se autoproclama subversivo da comum "viagem filosófica", para se preferir votado a "flos", o nominativo de flor, em latim, origem de palavras como "Flora" (deusa) e "(maçonaria) florestal". O itinerário de Feijó em Cabo Verde não era amigo da sabedoria, era sábio das flores, das folhas e da floresta. Em suma, esse naturalista, brasileiro de nascimento, já em 1783 andava por Cabo Verde a jardinar. E mais: ele jardinava com o próprio ministro, ou seja, comunicava com ele no código secreto dos carbonários.

A página de rosto do manuscrito de Feijó não é exemplo único de assinatura carbonária. O mais conhecido (como enigma ou como lapso, não como informação cifrada) aparece noutro texto e tem a monumentalidade de uma carvoaria, ou mesmo da Isla Carbonera (5). É a menção de Feijó aos escarvoeiros, na sua lista das aves de Cabo Verde (6). Escusado dizer que os ornitólogos não sabem que aves sejam estas, mas nós podemos adiantar que são primas dos lobos de Angola (7) e sobrinhas dos hipopótamos de Fernando Pó (8).

Não fiquemos com a ideia de que depreciei o livro de António Ventura, ele avança com informação nova e valiosa sobre a Carbonária, aliás identifica duas em Portugal, a Carbonária Portuguesa e a Carbonária Lusitana. A obra é útil e passará a ser uma referência obrigatória. Limitei-me a aproveitar a oportunidade da edição para pôr um ponto de ordem no meu trabalho normal de investigação - sobre o naturalismo e não sobre o carbonarismo, mas parece que os termos tendem a fundir-se em só um -, e para garantir que há-de chegar o dia em que se porá cobro ao uso do erro como código no texto científico.

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(1) Carbonários, Operação Salamandra...

(2) Carbonária: links.

(3) João da Silva Feijó. Índice.

(4) João da Silva Feijó, naturalista brasileiro...

(5) O duplo no texto do naturalista.

(6) CARREIRA, António (1986) - Ensaio e Memórias Económicas sobre as Ilhas de Cabo Verde (Século XVIII) por João da Silva Feijó. Instituto Caboverdiano do Livro. Col. Estudos e Ensaios.

(7) José de Anchieta, o feiticeiro

(8) O lago das barracas - Miss Pimb

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Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
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