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BOLETIM DO NCH
Nº 15, 2006
Dedicado a Pedro da Silveira

(2004) LANCE R. LEE & BRUCE HALABISKY, DUAS VOLTAS AO LOGAIÉTE – A CULTURA DA BALEAÇÃO NOS A ÇORES : A NOSTALGIA DA CONSTRUÇÃO NAVAL. S.L ., ED. DO TRADUTOR [TRADUÇÃO DE FERNANDO JORGE FARIA DA SILV A DO ORIGINAL TWICE ROUND THE LOGGERHEAD, STAR HAKE MEDIA LLC EM ASSOCIAÇÃO COM LEET’S ISLAND BOOKS, STONE CREEK , E.U.A.] .
Manuel Francisco Costa Jr. – Museu Regional do Pico – Rua dos Baleeiros, 13. 9930 Lajes do Pico.
 

Nas sociedades contemporâneas, fortemente marcadas pelos fenómenos crescentes da globalização e da massificação cultural, apercebemo-nos de que os valores culturais permanecem ao longo do tempo, como algo que garante a unidade do tecido social e realça e promove a especificidade cultural de cada comunidade. Neste quadro, de homogeneidade global crescente e de erosão das culturas tradicionais e singulares, as pequenas comunidades sentem cada vez mais a necessidade vital de reabilitarem a sua identidade cultural.

A defesa e valorização do património cultural, material e imaterial, assumem-se, pois, como instrumentos privilegiados de preservação da memória colectiva, memória entendida como “uma forma de eliminar a morte” (Michel Vovelle) e, de certo modo, vencer a inevitabilidade do esquecimento. Cabe, com efeito, aos profissionais científicos da memória, antropólogos, historiadores, jornalistas, sociólogos, ou outros, fazer da luta pela democratização da memória social um dos imperativos prioritários da sua objectividade científica. “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado” (Marc Bloch). Mas é talvez igualmente inútil esgotarmo-nos a compreender o passado, se nada se saber sobre o presente. Nesta perspectiva, a história não pode, do ponto de vista lógico, separar o estudo do passado, do estudo do presente e do futuro.

Pela importância sócio-económica que teve na vida das populações e pelo carácter épico-dramático de que se revestiu, a baleação deixou marcas profundas na memória colectiva de muitas localidades açorianas. Foi, no entanto, na ilha do Pico que o complexo cultural da baleação se exprimiu com maior intensidade, assumindo-se esta ilha como a grande referência do imaginário baleeiro regional, através da preservação e afirmação dos valores e das memórias da baleação. Concebido e criado a partir do modelo norte-americano, o bote baleeiro açoriano é hoje considerado uma das embarcações mais emblemáticas do mundo.

O bote baleeiro americano, adaptado à baleação itinerante e de longo curso, praticada por grandes baleeiras (navios-fábrica), ao longo dos séculos XVIII e XIX, era mais pequeno, bojudo, pesado e de difícil manobra. Foi esta a embarcação utilizada pelos primeiros baleeiros açorianos durante quase toda a 2.ª metade do séc. XIX, período que assinala o surgimento da actividade baleeira nos Açores.

As dificuldades na importação de botes baleeiros estimularam a criação local de uma “nova” embarcação. Inspirados na herança norte-americana os açorianos lançaram um novo modelo de bote baleeiro, mais comprido (aproximadamente com 11,5 metros de comprimento, 2 metros de largura e 80 centímetros de pontal a meia nau) e melhor adaptado às condições de navegabilidade dos nossos mares e ao modelo de baleação costeira que se praticou nas ilhas dos Açores.

Resultado da capacidade criativa e do génio inventivo dos primeiros grandes construtores navais da ilha do Pico, no entender de muitos especialistas “a mais perfeita embarcação que alguma vez sulcou os mares”, o bote baleeiro açoriano é um misto de elegância, robustez, eficácia e singularidade.

O primeiro bote baleeiro açoriano foi construído nas Lajes do Pico pelo Mestre Francisco José Machado, o “Experiente”, nos finais do séc. XIX. Gerações de outros grandes construtores navais se notabilizaram, na ilha do Pico, o grande centro da carpintaria naval do arquipélago, na construção de botes baleeiros: os Mestres da “Aguada”, o Mestre António dos Santos Fonseca, o Mestre António “Racha”, o Mestre Gregório, o Mestre José Brum, o Mestre Manuel Hermínio e outros mais…

Duas Voltas ao Logaiéte – a Cultura da Baleação nos Açores , com textos de Lance Lee e Bruce Holabisky e aguarelas de Yvon Le Corre, é um livro que, procurando vencer o esquecimento, se preocupa com a reabilitação da memória em torno da cultura material – “resistente” –, associada à construção naval nos Açores. Uma abordagem articulada e sistemática da cultura local, conduzida através de um olhar etnográfico e antropológico sobre o Pico e o Faial. Os autores não se limitam a fazer a história da construção naval, mas relacionam esta actividade com aspectos societais e culturais e com manifestações de religiosidade e espiritualidade da cultura local. Para além da importância deste contributo, este é também um livro de homenagem ao construtor naval João Silveira Tavares, um dos últimos construtores de botes baleeiros dos Açores, ainda vivo.

Em boa hora Fernando Silva se decidiu pela sua tradução para a língua portuguesa (edição especialmente dedicada pelo tradutor e editor ao Museu dos Baleeiros), transformando-o num instrumento acessível para a história local. Uma homenagem a todos os construtores de botes baleeiros dos Açores, actores silenciados pela mudez da memória social.

Manuel Francisco Costa Jr .

 

 

 

 

 

 







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