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BOLETIM DO NCH
Nº 15, 2006
Dedicado a Pedro da Silveira

(2005) CARLOS LOBÃO, O ESPÍRITO SANTO NAS PARÓQUIAS FAIALENSES . HORTA, CLUBE DE FILATELIA “O ILHÉU ”.
Fernanda Cristina Santos – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Avenida de Berna, 26 C. 1069-061 Lisboa.
 

A presente obra fala da religiosidade de um povo ilhéu, o povo açoriano, neste caso da ilha do Faial. Pela apresentação que Carlos Lobão faz da obra, percebe-se que o Espírito Santo teve sempre, ao longo da história dos Açores, um lugar privilegiado no coração dos açorianos, sempre ameaçados por cataclismos naturais. A teimosia e a capacidade de superar desgraças faz, por isso mesmo, parte do seu carácter, bem como a sua religiosidade, na qual se apoiam constantemente. O capítulo II da obra é, aliás, dedicado a esta temática, explorando a presença histórica da Igreja nos Açores e o profundo sentido de religiosidade dos açorianos. As festas do Espírito Santo parecem estar enraizadas na sua alma, há festividades instituídas em virtude de desastres naturais. No estudo antropológico das festividades do Espírito Santo nos Açores feito por João Leal (1), o autor afirma que o Espírito Santo ocupa um lugar central no panteão religioso local, afirmando-se como o interlocutor divino principal do indivíduo e da comunidade, e assumindo um papel geralmente reservado aos santos ou às invocações da Virgem.

As fontes da obra O Espírito Santo nas Paróquias Faialenses, manuscritas, orais e impressas são uma mais valia que conferem qualidade e rigor histórico à obra. O importante levantamento das Irmandades do Espírito Santo existentes em cada uma das treze freguesias faialenses, no concelho da Horta, um trabalho verdadeiramente exaustivo, traduz-se numa recolha atenta dos costumes tradicionais festivos e da sua evolução, ao longo dos tempos. A articulação dos diferentes tipos de informações, disponibilizadas pelas várias fontes, é talvez o aspecto de maior interesse, na obra, conduzindo o leitor a lugares largamente documentados (até por suporte visual, fotográfico), e às tradições festivas de cada uma das Irmandades. A informação está organizada por ca pítulos, que por sua vez fazem a articulação das diversas informações, terminando com notas e referências bibliográficas.

Todos os capítulos dispõem de fotografias, o que por vezes dispersa a atenção do leitor, pelo excesso e pela profusão de diversas imagens. Embora seja importante fazer o levantamento dos altares, igrejas, Irmandades, Impérios, coroas e até dos diversos utensílios utilizados nas festas, as fotografias deixam muitas vezes o texto à margem.

No entanto, a cuidadosa pesquisa de fotografias antigas, a preto e branco, dos diversos Impérios e Irmandades, ajuda à compreensão dos textos, a fim de se perceber a evolução dos costumes e hábitos nas terras açorianas. De igual modo, há informações dispensáveis no contexto global da obra, como a relação dos artigos existentes no Império da Ribeirinha (uma extensa lista de artigos emprestados pelos Irmãos, p. 40). Por diversas vezes aparecem também listagens dos Irmãos dos diversos Impérios (p. 65), ou dos Irmãos a quem coube a atribuição de coroas (p. 55), informações que podem ser relevantes para os habitantes das diversas freguesias do Faial, mas pouco relevantes para qualquer outro leitor.

A obra apresenta, logo no capítulo I, o significado da festa, na vida quotidiana do ser humano, e neste caso, da festa sagrada, também composta por aspectos profanos (o fogo-de-artifício, especialidades gastronómicas, a pândega, etc.). As festas do Espírito Santo são organizadas por Irmandades independentes da Igreja, mas propõem a presença do sagrado e estão associadas ao calendário litúrgico da Igreja. A constituição e o significado religioso das Irmandades são só explicados em pormenor no capítulo V, com os Estatutos das Irmandades, nem sempre regulados pela Igreja com sucesso (as relações da Igreja com as festas do Espírito Santo é analisada no capítulo VIII). Também o significado do Império é explicado a posteriori , capítulo VI. A construção arquitectónica do Império é pormenorizadamente descrita, bem como a localização geográfica. Assim, um aspecto a ter em conta, é que as noções de «Irmandade» e «Império» deveriam estar explicitadas no início da obra, para o leitor menos especializado compreender melhor os diversos conteúdos dos capítulos. Os cultos e rituais em cada freguesia são pormenorizadamente descritos, bem como a composição das procissões (Fig. 1, p. 44) e os elementos simbólicos das mesmas. Até mesmo as figuras caricatas dos Foliões são alvo desta extensa análise e pesquisa (capítulo VII). No ritual festivo, é de salientar o peso que tem o conjunto de refeições, distribuições e dádivas de natureza alimentar, tendo em conta a quantidade de alimentos requeridos pelos festejos (o que também é visível na quantidade de fotografias referentes aos alimentos confeccionados), e o número de casas e indivíduos abrangidos pela sua circulação. Segundo o antropólogo João Leal:

“(…) O dispêndio alimentar requerido pelos festejos é encarado quer pelos seus promotores individuais – «imperadores» ou «mordomos» – quer pelo conjunto da comunidade, como uma forma de pagamento de promessas individuais e de garantia de protecção divina” (2) . O capítulo VIII analisa as relações da Igreja com as festas do Espírito Santo, mostrando um curioso quadro com a cronologia das principais Censuras e Leis da Igreja, de Proibição ou Recomendação (quadro 8, p. 109), e o resumo dessas mesmas proibições, como é o caso da discórdia entre a Igreja e as Irmandades acerca da participação de meninas com idade superior a doze anos nos cortejos. A última rectificação a este nível é a do bispo D. Manuel Afonso de Carvalho (1953-1974), que proíbe a participação de meninas com a idade supracitada. A Igreja mostra o seu carácter conservador em d iversas proibições, como a do bispo D. António Vieira Leitão (1694-1714), que proíbe os Impérios de Mulheres.

Apesar da relação de convivência e colaboração dos párocos com as Irmandades, muitas vezes as medidas de coacção no sentido pretendido pela Igreja provocaram o afastamento das pessoas das festividades e da própria Igreja. Este aspecto é também explorado, nesta obra, no sentido de se encontrar resposta para uma pergunta relevante: qual o futuro destas festividades? Com o crescente afastamento das pessoas da Igreja, as festas resumem-se a um local de encontro e de convívio social, deixando em segundo plano a sua origem religiosa, de Fé no Espírito Santo, e do exercício da caridade com os mais pobres. Este facto é duramente criticado pelo padre Luís Costa Vieira:

“(…) Levam-nos a crer que se trata mais de suplantar o vizinho do que de servir o «Senhor Espírito Santo»” (3) . Para o padre Luís Costa Vieira, os excessos, abusos, a falta de decoro dos trajes femininos, as dívidas e somas avultadas gastas pelos «Imperadores» são igualmente censuráveis. O abandono da devoção foi gradual e actualmente é difícil encontrar quem queira dirigir um Império, reunindo os Irmãos. Esta obra analisa, por isso, de forma exemplar, todo o percurso das festas do Espírito Santo, até ao seu declínio e às diversas causas para a decadência do culto religioso tal como ele era.

As notas finais dão igualmente conta deste aspecto, explo rando o facto de, hoje em dia, as festas se reduzirem mais ao arraial do que ao cortejo religioso. Salienta-se sempre que, sendo as festas mais antigas e enraizadas, no Faial, nunca se perde a espiritualidade, constante ao longo dos tempos, pois o convívio entre os aspectos pagãos e os aspectos religiosos das festas são constantes. Os últimos capítulos dão conta da miríade de Irmandades e Impérios desaparecidos das diversas paróquias, rematando com as considerações finais e o glossário, igualmente importante para tornar a leitura mais perceptível e completa.

Fernanda Cristina Santos

 
 

(1) João Leal, As Festas do Espírito Santo nos Açores – Um Estudo de Antropologia Social, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1994, p. 261. Esta obra corresponde ao doutoramento do mesmo autor, intitulado Cerimonial, Relações Sociais e Tempo – As festas do Espírito Santo nos Açores, Lisboa, ISCTE, 1992.

(2) Obra supracitada, p. 259.

(3) P.e Luís Costa Vieira, A Devoção ao Divino Espírito Santo – Os 7 Dons Divinos. Angra do Heroísmo, União Gráfica Angrense, 1991, p. 47.

 

 

 

 

 

 







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