PÁSSARO-LYRA
ANTÓNIO BARAHONA

Contemplo Eunice voltada para a luz
olhos nos olhos do Sol
como nenhuma águia até hoje se atreveu

E orquídea de altitude demiurga
igual a Beatriz no diadema
aos lábios de perguntas a resposta
silencia amorosa e lucilante:

Já não pisas a Terra, filho d'Alighieri

Vastas orbes de Anjos sexuados
em amor sob os plátanos de lenda
adormecem aos pares no leve vácuo

Ó mulher que eu exorto e me confundes
em teu múrmuro, doce consentimento
na paixão reesculpida tantas vezes!

A pedra renasceu do Invisível
e o inédito escopro a atacá-la:
islâmico destino sem mudança,
infalível, dirigido, matemático

O Paraíso na Terra é este quarto:
céu de fogo, Rosa branca, Rosa mística,
hierarquia de pétalas e espírito,
objectos femininos sobre as nuvens

Uma aurora boreal, águas de riso,
cotovias nas vergônteas, extenso prado
e um luar de serena palidez
nas antigas pupilas do piano

Paraíso particular ou ilha estanque
furtada d'além mar, onde se abrir
alcova de nítido crepúsculo
em gravura de tons ácidos em áscua

É meio-dia. São dez cantos. Eis a hora
florentina da virtude e o número
pitagórico da origem. Recomeço
a ascensão, o êxtase inúmero

Ó dilema dos Infernos e Empíreo,
duas forças na balança em equilíbrio,
o desígnio da Musa é que me vence:
completo subirei com gravidade

É meio-dia. São dez cantos. Eis a hora
da sagrada, maviosa morte álacre
e Eunice vindoura tem assento
ria Rosa eternamente reflorida

O amor é o rei destes lugares,
o Profeta conduz a caravana,
os guerreiros de Deus bebem frescura
e Buda na corola da Rosa branca

com Cristo, a Mãe Geral e Gabriel,
coroam a Eunice e a Beatriz
De címbalos adornam as hetairas
e os poetas da danação meticulosa

Paraíso Prometido, minha casa
sobre a rocha edificada, com raizes,
a mesa onde me estudo, leio tudo,
canavial de livros e poema

É meio-dia. São dez cantos. Eis a hora


Je mange Eunice em atitudes altas,
na furiosa água materna, aliterado,
entoando o zejel mouro espanhol
Ad vitam aeternam
os lábios, os gritos, o musgo da voz florido!

Oh beijos medonhos, oh ciclone-júbilo,
risos potáveis na aurora fatigada,
corpos conversados lado a lado exaustos,
cicatrizes, pancadaria de sangue!

POÉTICA EXAUSTIVA

À despedida, com a letra mais escassa
enchia páginas e páginas, insone,
- a minha liberdade pra matar a fome -
porque nem só de pão o homem vive, sim:
simples caligrafia o mantém de pé
ou inclinado para o canto que não dorme

De mim só ficará grande: grande alegria,
pássaros de papel, amores e teologia

ANÚNCIO

Sou eu, o indomável, o recluso sempre livre
a chamar-te na doca para a viagem do sonho
Sou eu, o corrupto, o amante mais puro
a dizer-te ao ouvido deboches e lírios

Oh seios na duna, graça da pedra
esculpida sob os lábios lucilantes!
Manual indiano do aprendiz do amor,
mulher das posições sentadas no grito

Eu sou uma casa com mastro de brigue
Eu navego à trinca o maelstrom da vulva
Eu pesco no teu útero sardinha à pancada

Tu és uma toca de lobo aquecida
Tu és uma cave vazia que espera
Tu és a minha musa privativa e magra

ERA UMA VEZ EU

Era uma vez
Eu nu e cintilante
prostrado ante a Magnífica
Mulher Mágica
Eu num submarino
a percorrer-me as velas
Eu a chicotear um cavalo sem pernas
Eu a partir ostras ao centro do pátio
Eu a separar a treva do vidro
Eu amestrando um exército de formigas brancas
Eu no fundo duma cratera
a escrever o poema diligente do Sol














ANTÓNIO BARAHONA
PÁSSARO-LYRA
ICHTUS, LISBOA, 2002, 158 págs



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