ANTÓNIO BARAHONA
NOITE DO MEU INVERNO
Lisboa, 2001

Nótula: Noite do meu inverno, antologia organizada pelo Autor e primeiro volume da sua Obra Poética, inclui desde alguns dos primeiros poemas da adolescência, e outros posteriores, até alguns dos últimos, quase todos emendados ou reescritos, além de transcriações e inéditos.



NÚRIA

A lentamente bela bruxa cisne magro

A lentamente mate cor do pão de trigo

A lentamente Núria de navalha e ligas

Ah lentamente o corpo se compara ao cubo

e muda as asas quentes em arestas frias!

Mãos vestidas de roxo a festejar tristeza

em Sexta-feira Santa d'oração medonha!

Ah lentamente a Espanha em procissão nas ruas,

cabelos desgrenhados mais guitarras nuas!

Ah Núria, rosa-névoa, lâmina de pétalas

a recortar raizes dos meus olhos d'húmus!


Ah lentamente lentamente aponto e estico

o arco: assobia a flecha no teu flanco

e, de repente, no meu sangue flui um barco


Paço d'Arcos, 13.X.72







COMENTÁRIO ALCORÂNICO

Quanto aos poetas, os que erram seguem-nos.
Não tens visto como eles vagueiam pelos vales
E como dizem isso que não praticam? -
Alcorão

Vagueio pelos vales a falar sozinho:

não me lavo, não rezo, não me lembro

de Deus: apenas fumo o meu cachimbo

e saboreio Deus que sabe a fumo

Devagaroso a falar à pressa deliro

e digo o que não faço e faço o que não digo,

contraditório, incoerente, obsessivo,

mas verdadeiro eco de mim próprio

Que Deus me dê a força da fraqueza

que verga mas não quebra e endireita

mais dúctil do que a vara mais fibrosa .

Que Deus me dê os vales mais obscuros,

lá onde a vista alcança só beleza

ao fundo da paisagem dos teus olhos

Lisboa, 20. VIII.85 53



RETRATO DE ALLEN GINSBERG EM 1988


Calvo, grisalho, já menos barbudo,

eis o poeta tântrico de fato completo,

gravata, testa ampla e franzida,

a folhear um livro com a mão esquerda

Ao fundo, as janelas de uma' casa

de meditação antiga, nesga de céu

por onde assoma um Anjo de chapéu

e as pálpebras de Buda levadas pla brisa




NOVÍSSIMOS HORIZONTES

Novíssimos horizontes de canaviais

e um Anjo gordo sobre o muro, ao léu,

e fios d'alta tensão pelos umbrais

da porta escancarada, par em par,

donde se avista o mar nos seus vitrais

Novíssima mulher, senhora sob o véu

da noite prematura, pés rituais

na manhã em que eu for a enterrar

Novíssirpo apogeu no som do mar

à tona da maré que sobe até molhar o Céu

Remédios, 28.X.91



PERFORMANCE

Toda a mulher sábia edifica a sua casa, mas a tola derruba-a com as suas mãos. Provérbios de Salomão, 14,1.

Ela chegou de Chicago e era uma estranha rapariga

perdida de si própria,

infantil, irónica, dessacralizada,
com distância e acentos na voz que soava pétrea

E não quis fazer amor e foram jantar fora

No fim, ela saboreou uma sobremesa masculina: um

cigarro e o vinho que sobrara

Ele, feminino, não fumou e bebeu água

Começaram a discutir, ele pagou a conta à pressa e
sairam

Chovia que Deus a dava

E ela disse-lhe: - "Não posso vivei mais em Lisboa
nem contigo"

Ele olhou-a..., e desatou a correr e a chorar não sabia se lágrimas
se a água toda que chovia

Paço d'Arcos, 24.XII.95