ANTÓNIO BARAHONA: DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA Olhai no descampado
Entranhada na sintaxe, temos a alma da obra. Por alma entenda-se o que a suporta em sentido, saltando a barreira da matéria, e por conseguinte o próprio registo da escrita, que nestes dois últimos livros se encontra com a obra de Muhammad Rashid, Aos Pés do Mestre, e se afasta muito do de Pátria Minha. Porventura a diferença decorre da posição assumida pelo poeta: nos volumes de memórias e em Aos Pés do Mestre, ele senta-se aos pés de quem o ensina, transmitindo-lhe de boca a orelha a tradição. Este conhecimento é retransmitido pelo poeta em discurso de aprendiz, logo tocando a infância da linguagem, como acontece em geral com os poetas que em certo momento se vêem na situação de "Começar" (Almada) ou "Re-Começar" (Ernesto de Sousa). Presumo que seja próprio de todos os que valorizamos as palavras e fazemos delas o nosso destino pessoal, o desejo de assistir ao próprio acto da Criação, e para isso balbuciamos, fazemo-nos crianças, tentamos reviver um instante original nunca aliás vivido, excepto na sua pseudo-mimese. É então esta posição submissa de criança-muito-adulta a adoptada por António Barahona em obras de religião explícita, tanto mais que a religião ou exige ser submisso ou é um dispositivo controlador. Em Pátria Minha, o mestre é o próprio poeta, é ele quem toma as rédeas de um discurso oposto ao pseudo-infantil, muitíssimo culto e elaborado, de uma sintaxe não normativa, geradora de voz própria, estilo inconfundível. Não é possível confundir este mestre da poesia portuguesa com nenhum outro poeta, a originalidade ganha em "Pátria Minha" um valor muito alto, que o poeta ainda não ultrapassou em obras subsequentes. Nas que temos sob os olhos, a singularidade vem de outros lados, da tendência para a polémica e para a provocação que se vem acentuando desde os "Alicerces dos Telhados de Cristal", em que, salvo qualquer lapso de memória, e a memória está mesmo a falhar, António Barahona se colocou ao lado de quem queria cortar a cabeça a Salman Rushdie por causa dos "Versos Satânicos". É claro que a luta é desigual: em qualidade poética dificilmente algum contendor bateria Muhammad Rashid, em poder de decisão política é evidente que António Barahona só nos confins do deserto da Arábia encontraria os seus aliados. Mas este incidente revela que a fé é de facto uma paixão furiosa. Nas obras explicitamente religiosas, o poeta perde voluntariamente a voz pessoal. Tudo se confunde, porque estamos na presença de um aprendiz simulado: a educação adquire-se por mimese. Mas muito mais longe vai o poeta ao plagiar, isto é, ao conferir categoria poética a um acto que noutro contexto seria criminoso. Não conheço outro artista que tenha ido tão longe nesse tópico do retorno ao infans, o que ainda não sabe falar. Neste momento já temos a noção de que Muhammad Rashid não é um poeta, sim vários, como Pessoa, esse Fernando Pessoa que contribuiu para dar título a "Pátria Minha" de António Barahona: a voz e a personalidade mudam consoante as instâncias da sua errância. Nos extremos, mantendo a sua soberania como artista, ora temos um mago ora um amante. O mago é dominador, o amante um dominado. Ora que pátria é a de Pessoa? "Minha Pátria é a língua portuguesa", todos sabemos, aqui, no Brasil, e nas outras ex-colónias. Pátria é a comunidade que está em condições perfeitas para comungar a Palavra. Porque é a linguagem o que temos de mais íntimo e comum, aquilo sobre que assentam as leis por que nos regemos, as orações que rezamos, o amor que nos votamos e o pensamento que exercitamos, e sem essa pátria comum seríamos bárbaros, áfonos, surdos e animais. O António Barahona não é um cristão, como não foi um muçulmano, se entendermos que o crente é um instalado, um acomodado, um alguém que já chegou ao seu destino ou já lá estava antes de ter empreendido a viagem. O poeta é uma ave de arribação, um peregrino perpétuo, uma alma em questa de Deus. António Barahona escreve como um profeta, e será preciso dar-lhe atenção, pois desde sempre foi em meio à loucura que irrompeu a Palavra mais constitutiva das culturas. O facto de lhe negarmos razão não significa que ele labore nas trevas, significa que ele está no outro lado da nossa rasa racionalidadezinha. Fé não lhe falta e é sincera, mas a fé é uma agitação interior, um tender para e não um stop, como José Augusto Mourão já deixou expresso nas "Alquimias". António Barahona ama tanto a Cristo como Muhammad Rashid amou a Allah, dois nomes para o mesmo Desconhecido. É para O encontrar que se senta aos pés de um padre ou de um imã-tala, e continuará porventura a sentar-se diante de outros mestres, de outras religiões, enquanto viver. O que para trás fica, quando se ergue, não é Deus, sim a religião. O que à frente avança, quando a religião se desmorona, é a Poesia, Lugar de assombro em que também é possível procurar Deus, e até encontrá-lo. |