I 1. Uma autobiografia só pode ser espiritual. 2. As memórias de um poeta, embora já implícitas e explícitas nos seus versos, sob máscaras e vários ornamentos essenciais (paramentos), regras e rupturas calculadas (decalques), adquirem, na métrica da prosa, o sabor de um poema desconhecido. Falo do poeta, que se encontra no centro do mundo e que só admite a sua vida como o cúmulo de uma tragédia. Falo do poeta, não de nenhum outro que de perto ou de longe a ele se assemelhe, ou com ele se confunda. 3. Tal como a tragédia grega não existiria sem a intervenção dos deuses na vida humana, também não existiria a tragédia na humana vida do poeta, se este não estivesse consciente da intervenção divina e não perseguisse Deus com uma fé furiosa: não há tragédia sem percepção da transcendência. O Cristianismo ensina-nos que a conclusão contrária é igualmente verdadeira: não há percepção da transcendência sem tragédia. 11. A mulher, apenas por ser mulher, merece uma dedicatória; mas raramente merece dedicação. 15. A paixão é sempre religiosa. 23. Comemos o Corpo e bebemos o Sangue de Cristo, não só sob as espécies do pão e do vinho, mas também quando escutamos a Sua Palavra. II 33. A literatura, consciente da gramática, transforma-se, contra si própria, em poesia: começa a dançar. 35. No Islame aprende-se a proclamar Deus na leitura e na caligrafia. 36. No Cristianismo aprende-se a proclamar o Verbo de Deus em silêncio sobre branco. 43. As palavras, para o poeta, têm um valor especial, diferente do que lhes atribui o comum das pessoas. O poeta encara as palavras isoladamente e ausculta-as em relação à sua cor, que se revela em imperceptíveis sonoridades, e ao seu peso, avaliado pela música que provocam ao caírem de súbito na orelha atenta. 53. A paixão humana conduz-nos ao momento fulgurante da unidade e, durante esse tempo, fazemos amor com a carne do espírito, num só corpo. Fazer amor com o espírito descarnado, tendo nos braços o Invisível, soa mais fino... A paixão divina conduz-nos à eternidade daquele momento, no tempo de uma flauta de cristal.
III 57. Abstraindo da sua etimologia e encarando o adjectivo reaccionário apenas na sua acepção pejorativa, em comparação com o adjectivo tradicional, saliente-se o seguinte: reaccionário é aquele que deseja regressar a uma situação política imediatamente anterior à situação vigente, apenas por irracionais motivos de saudosismo, ou por motivos de conveniência, de poder ou de prestígio, ou outros de somenos importância; tradicional é aquele que aspira restaurar uma situação política imediata ou longinquamente anterior à situação vigente: o que lhe importa, acima de tudo, é que tal situação política veícule e estabeleça como norma os valores perenes de Deus, Pátria e Família. 61. A democracia obrigou Sócrates a beber cicuta. 63. O homem, de facto, não descende do macaco; mas há macacos que afirmam que descendem do homem. 66. A substituição da estrutura orgânica pela mecanização, engendrou o mundo actual em que vivemos sob o domínio de uma pseudo-ciência experimental e quantitativa, que apenas serve a mais sofisticada tecnologia aplicada, cujos resultados, em comparação com a complexidade dos seus circuitos, se revelam muito escassos, imperfeitos e primitivos. Dir-se-ia que a ciência se transformou numa serva de passatempos lúdicos e letais, afastando a genuína investigação científica dos seus objectivos religiosamente legítimos e fundamentais para a espécie humana; e que a razão filosófica pôs completamente de lado a reflexão sobre os problemas e disciplinas respeitantes à procura do Absoluto, passando a sabedoria sapiencial a saber marginal, muitas vezes fútil, ou até mesmo deletério, mais corruptor do que a pior literatura Nobel. 83. A teologia natural, ou teodiceia, usa só a luz da razão. A Teologia poética, ou sobrenatural, usa também, a par da luz da razão, as luzes da Revelação e da intuição intelectual pura: ordena num só corpo de método e de doutrina, as teologias natural, dogmática, moral, ascética, pastoral e mística. A Teologia poética inicia-se pela meditação sobre o mistério da linguagem: fechar os olhos, fechar a boca, segundo o modo sobre-humano dos dons do Espírito Santo. 111. O maior tesouro dos povos são os seus livros sagrados. Um analfabeto deveria chamar-se, entre nós, não a quem não sabe ler, mas a quem nunca leu a Bíblia.
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