A Esfinge

MARIA ESTELA GUEDES
Dir. Triplov


Conferência de encerramento do colóquio internacional “Photomatica & Voltaica”, sobre «Photomaton & Vox”, de Herberto Helder. Organização do sector de lusitanística do Departamento de Línguas da Universidade de Turim , 23 de Março de 2018. 


 Tenho uma pequena coisa africana a dizer aos senhores
«um velho negro num mercado indígena
a entrançar tabaco
»
Herberto Helder, «Antropofagias»

Esta terra não existe 

Photomaton & Vox (1) é um livro heteróclito, montado com textos inéditos até aí e oriundos de outras obras, em prosa e verso, ensaísticos, narrativos e poéticos, mas consegue coesão interna graças aos temas enunciados no título: retrato e voz, ou vida e obra. É então uma obra criada pelo self autobiográfico, para usar a terminologia de António Damásio (2), na qual participam elementos africanos, provenientes das experiências de Herberto Helder em Angola. E a mais chocante delas foi um grande acidente de automóvel no qual ia perdendo a vida, ele e o condutor, Ed Guimarães. Estes factos aparecem em Photomaton & Vox, mas só se apercebe deles o leitor que entrou na posse das necessárias chaves, as referências à realidade física. As mais importantes são naturalmente os dados de identificação: nomes de pessoas, de lugares e datas. Uma vez que neste colóquio analisamos Photomaton & Vox, decerto todos passaram algures pela página em que Herberto Helder se refere à liquidação das referências à realidade. Eliminar essas referências é um procedimento habitual do poeta, que tem como efeito, de um lado, o obscurecimento daquilo de que fala, pela irrupção do enigma; de outro, a generalização ou universalização do tema tratado. Nem sempre este procedimento será premeditado, mas nos casos de que me vou ocupar hoje, sim, trata-se de corte deliberado com os dados de identificação de pessoas e acontecimentos da realidade. Aliás, tendo em mente ainda o que nos diz Damásio, se ao recordamos algo escolhemos entre o que é dizível e o que é de silenciar, claro que no relato da experiência há sempre deliberação, a menos que se interponha qualquer patologia. A diferença entre os casos de que vou falar é que uns são únicos, para mim, e outros são versões de textos antes publicados. Por conseguinte, no segundo caso, havendo dois ou mais textos com a mesma matriz, é óbvia a consciência de um modelo narrativo, a garantir que o discurso da Esfinge só é eficaz se não contiver respostas nem explicações.

É assim que só agora tomo conhecimento, pelo programa do colóquio Photomatica & Voltaica, de que foi Leopoldo Criner o cineasta a realizar a curta-metragem Esta terra não existe, baseada num poema de Herberto Helder, e que este viu em Luanda, na véspera da viagem em que sofreu o ocidente. E porquê só agora, se o poeta dedica ao assunto um texto bastante extenso em Photomaton & Vox, “(magia)”? Só agora ficamos a saber oficialmente quem realizou e o quê, porque o poeta suprimiu as principais referências à realidade, ou seja, os elementos de identificação. Resultado: com o acréscimo da máscara africana, a pressagiar tragédias, o texto “(magia)” torna-se de facto mágico, enigmático e misterioso.

Elementos identitários suprimidos: além do título do poema, do título do filme e do nome do realizador, Herberto Helder suprimiu o nome do amigo que o desafiou: “Hoje, no Festival de Cinema, vão passar um filme baseado num poema teu. Não queres vir vê-lo?” ***

Não sei se são exatamente estas as palavras, e ainda vou acrescentar outras, que iluminam ao texto. Quem lhe prestou a informação e o desafiou a ir ver o filme foi Manuel Rodrigues Vaz. Findo o espetáculo, que de tal modo impressionou o poeta que o moveu a eliminar o poema escrito do seu catálogo, ficaram a saber que iriam ambos cobrir o Festival da Chita a Lobito. Foi em Lobito que Herberto convidou Manuel Rodrigues Vaz a regressar a Luanda de automóvel com ele e Ed Guimarães. Manuel Rodrigues Vaz declinou o convite, pois já tinha bilhete de avião. Hoje conta esse episódio com um suspiro de alívio, pois teria morrido ou passado umas semanas no hospital, como os amigos, se tivesse viajado com eles, nesse fatídico dia 18 de março de 1972.

Pergunto agora se as minhas informações, ao darem mais luz à lâmpada a que se refere o subtítulo deste colóquio, retiram ao texto «(magia)» a sua magia e mistério. Creio que não. O mistério só desapareceria se tivesse sido o próprio autor a alterar o texto, adicionando-lhe as informações relativas ao quem, como, quando e onde. Bem sei que a principal supressão foi a do próprio poema escrito, segundo Herberto Helder, mas esse é um exemplo a debater noutro lugar.

Uma vez que o acidente foi brutal e os dois feridos passaram semanas no hospital, em risco de vida, comentei com Ed Guimarães que a salvação se devia decerto a terem sido prontamente socorridos. Não, ficaram horas na estrada, só o facto de serem jovens e fortes os terá poupado à morte.

Passamos a outro exemplo de supressão de referências, este mais complexo, em Photomaton & Vox, “(cumplicidades menores)”. Este texto é a reescrita de uma crónica publicada na Notícia, quando Herberto Helder soube da morte do poeta Manuel de Castro (3). Só agora Manuel de Castro tem vindo a ser redescoberto, em grande medida graças à intervenção de António Cândido Franco, na revista A Ideia, e na edição do volume Bonsoir, Madame. Em Photomaton & Vox, nenhum nome é referido, nem data nem local, o que resulta num dos habituais textos herméticos de Herberto Helder, com o enigmático tema do canibalismo e por isso alcance universal, visto que a antropofagia é tema comum à vanguarda de diversos países. Em parte nenhuma de Photomaton & Vox se menciona o nome de Manuel de Castro. Na revista Notícia, Herberto refere não só o nome do amigo como o de outros artistas que se juntavam nos cafés de Lisboa para se dedicarem, nos anos sessenta, aos jogos surrealistas: Gonçalo Duarte, António Gancho, Manuel d’Assumpção, Pressier, Luiz Pacheco e Manuel de Castro. Na rubrica Mesa da Redação, no mesmo número da Notícia, de 18 de setembro de 1971, em homenagem, Herberto reedita “Hormonas para Sísifo – VII”, informando na abertura (4):

Há cerca de dez anos, o Manuel de Castro publicava, para ganhar 150$00 por semana, bebidos logo a seguir itinerantemente pelos baixos e arredores do Café Gelo, uns textos depressa. Reproduz-se aqui «Hormonas para Sísifo – VII», em que entram João Fernandes, João Rodrigues e Manuel de Castro, finalmente morto, agora, aos 36 anos – pelo álcool e pela consciência.

Naturalmente, é noticiada a data de falecimento: “anteontem, dia 12 de setembro”, escreve Herberto Helder. E algo adianta ainda o autor de Photomaton & Vox, depois de ter comentado que os unia mais a cumplicidade do que a amizade, ao contar como tinham convivido:

Não consigo ser sentimental, e só posso escrever sobre o amigo na mesma prosa com que éramos na nossa vida violenta […]

Sintomático é o facto de Herberto Helder dizer que não consegue ser sentimental, e a seguir revele que a vida de ambos era violenta. A violência não é um sentimento; em Herberto Helder existe muita emoção e muita paixão, porém o sentimento é mais raro.


Gostaria de ser um entrançador de tabaco!

Antes de avançar, direi que o meu propósito de investigação, cumprido parcialmente, era fazer o levantamento de termos e famílias de vocábulos empregues por Herberto Helder para exprimir a ideia do “poeta obscuro”, a começar evidentemente por essa “terrivelmente orgulhosa frase”, nas palavras do autor, patente no conto «Poeta obscuro»: «Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro!”(5). O que há no conto que nos possa servir, extraído das contradições habituais, que já tinham levado Herberto a considerar prova de humildade a frase? Serve-nos o final do texto, em que reconhece que obscuros somos nós sempre, todos, mesmo sem o pedir, e algo mais tocante aparecera, antes, embrulhado em expressões que já nem parece relacionarem-se com o assunto:

Ora eu estou nu, e penso ainda vagamente na divindade azteca, e a delicadeza trágica do peixe esgueira-se na música. Isto não é de modo algum uma unidade, mas quando considero esta luta por uma constância, uma fidelidade, uma permanência de certos sentidos – vejo que se procura atravessar todos os fogos, mantendo intactas algumas virtudes, como por exemplo, talvez, determinado silêncio capaz de dar poder e dignidade à nossa morte.

Do conto «Poeta obscuro» retira-se, como mais fundamental, que a obscuridade preserva certas virtudes como o silêncio, e que não é possível a Herberto Helder discorrer sobre tal assunto sem congregar os poderes do que é misterioso, enigmático, ou mesmo sem invocar o divino. De resto, é a Deus que ele pede a obscuridade.

O meu levantamento lexical foi incompletamente feito com papelinhos colados às folhas de Photomathon & Vox; a dado passo, já mal conseguia fechar o livro e então pensei: todos os herbertianos sabem que palavras como mistério, obscuridade, desconhecido, noite, treva, enigma, e seus familiares, são dos mais frequentes na obra. Até acontecimentos corriqueiros como um jogo de futebol na rua de um bairro pobre, em Luanda, podem vir descritos sob o signo do mistério, e não num conto, sim numa crónica de jornal: «O futebol ainda é mais incógnito quando se defrontam onze mulheres» eis o título que ele dá a uma crónica da Notícia (6). Desconhecido para ele, claro, porque para a maioria dos homens portugueses o futebol não é o enigma da Esfinge.

Conhecendo todos as áreas lexicais privilegiadas na obra herbertiana, para quê, então, perder o meu tempo e o alheio com o que todos sabemos? Melhor será dizer que, em «Antropofagias», o texto 7 é o desenvolvimento de uma observação incluída numa reportagem da revista Notícia, com Ed Guimarães como fotógrafo.  O texto 7 de «Antropofagias» começa assim: “Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores” (7). E o que ele tem a dizer a seguir é que viu um velho negro a entrançar tabaco.

Com este exemplo, vamos ver que a aspiração à obscuridade pode manifestar-se de modos variados, sem recurso a termos da família de Édipo nem da Esfinge. É algo tão trivial que dificilmente se compreende. No entanto, é uma das experiências mais profundas de África na obra herbertiana; refiro-me ao Mercado de São Paulo, em Luanda, onde a sua percepção sensorial se apoderou do motivo do entrançador de tabaco. Além do texto VII de «Antropofagias», também aparece em Photomaton & Vox. Eis a origem, na revista Notícia, dessa experiência tão forte que depois se torna transcendente:

Na véspera houvera uma rebita (muito má) e (mesmo assim) deitara-me tarde. Quando chego ao Mercado de S. Paulo, dito por alguns “indígena”, são já dez horas. A surpresa é que estava cheio, fervilhando de compra e venda, de vozes desencontradas, de cheiros misturados. Cá fora, a trepidação anunciava-se pelo barulho indistinto dos gritos, discussões e conversas. Da teoria dos cheiros, destacava-se o odor húmido e acre do tabaco que mãos rápidas e habilíssimas entrançavam (8).

No texto 7 de «Antropofagias», ficamos a saber, logo nos primeiros versos, que as mãos rápidas e habilíssimas que entrançavam as folhas de tabaco pertenciam a um velho. Recordemos:

Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores
«um velho negro num mercado indígena    
a entrançar tabaco» o odor húmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza «rítmica» dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase «intáctil» sobre algo
«algo tabaco»
o que começa a tornar-se como uma «loucura comovida»
por cima dessa massa viva de tabaco
«como ele aflora  Deus digitalmente debruçado!»
[…]

O texto poético desenvolve a notação breve da cena no relato jornalístico, mas não se trata apenas de acrescentar pormenores, a diferença reside no plano de realidade em que isso acontece, porque já não é a mesma cena: em «Antropofagias», presenciamos um ritual, e é a força desse ritual, desse trabalhar com os dedos, como o poeta que manuscreve, que se transcende a si mesmo a ponto de o poeta desejar ser como ele, mais: desejar ser um mago, um sacerdote, um feiticeiro, um profeta, em suma, um entrançador de tabaco. E agora cito o fragmento em que, além do entrançador de tabaco, ainda nos aparece o desejo de ser uma Esfinge viva. Vejamos a página 14 de Photomaton & Vox:

Vi-me a mim próprio subindo, numa metamorfose exasperada, dos precipícios do pavor até às estritas regras de vida. E estava maduro para ver tudo. Desejei então ser eu mesmo o mais obscuro dos enigmas vivos, e aplicar as mãos na matéria primária da terra. Gostaria de ser um entrançador de tabaco.

O entrançador de tabaco ergue-se à sacralidade do “mais obscuro dos enigmas vivos”, e é “enigma” o termo que o poeta escolhe para definir a classe de obscuridade que deseja para si mesmo e para a sua obra. De outra parte, o assunto evoca em mim a memória daquelas experiências afetivas que nos levam a desejar viver em certas casinhas muito humildes que vemos através da janela, quando viajamos de comboio, em cujo interior adivinhamos calor humano e de lareira. Julgo que se trata de um desejo de integração na terra, algo de mítico em que buscamos o regaço materno, o acolhimento e a proteção da casa familiar, desejo oposto do de ser famoso, com o correlato risco de exposição ao perigo.

O poeta evitava as ferramentas da celebridade, a celebridade não lhe interessava, e além disso era uma pessoa tímida. Não o afirmo eu, sim Ernesto de Sousa, que também realizou uma curta metragem a partir de um poema de e com Herberto Helder****, Havia um homem que corria pelo orvalho dentro. Em A obra ao rubro de Herberto Helder, presto algumas informações sobre este filme (9). Timidez e aversão a festas de sociedade, sim, podem manifestar o oposto desejo  de obscuridade própria de um humilde entrançador de tabaco. Há algo mais, entretanto, no entrançador de tabaco, a convocar a admiração do poeta: o trabalho manual. É nas mãos que nasce o ritmo. E tudo isto se equipara à poesia, pois, na obra de Herberto Helder, a escrita não se exprime pelo teclar, sim pelo manuscrever. Era preciso dar atenção ao seu último livro, Letra aberta (10), para verificar se os elementos caligráficos, poemas manuscritos e numerações, se relacionam com a escrita hebraica, porque, de um lado, esta é contínua e em Herberto Helder aparece o título “poema contínuo”, e de outro lado, ainda na escrita hebraica, os algarismos têm significado.

Uma observação mais sobre outra maneira de tornar obscuro dado texto. O leitor inquieta-se e com razão: em Angola, antes de 1974, um jornal destaca dois repórteres para o mercado de S. Paulo  e não para o teatro de guerra? Herberto Helder também atuou como repórter de guerra, mas a maior parte do que escreveu em Angola cobre acontecimentos culturais, divertimentos, espetáculos desportivos, faits divers. Havia a instituição da Censura a forçar as canetas a deslocarem-se para batiques, cantores de rock, fadistas e concursos de misses. Precisamos de manter esse filtro em mente para entendermos que muita aparente frivolidade na revista Notícia é obscuridade devida às circunstâncias políticas. E além dessa censura há outra, dedutível, em Photomaton & Vox, de estranhas declarações do autor, como essa de que escrevia por ter um problema de ódio a resolver. É a autocensura.


África tal e qual

Já vimos que, como repórter, em Luanda, Herberto Helder trabalhou com Eduardo Guimarães na revista Notícia. Hoje estabelecido em S. Paulo com o seu estúdio de fotografia, tive oportunidade de o conhecer ali, na Casa de Portugal, e revi-o recentemente em casa de Manuel Rodrigues Vaz, que também acompanhou Herberto Helder nos tempos angolanos. Mas o maior contacto é virtual, Ed Guimarães e eu encontramo-nos diariamente na mesma página do FaceBook. No número da revista Notícia de setembro de 1972, as páginas 32-33 são dedicadas a uma exposição de Ed Guimarães no salão do CITA, em Luanda.  São duas páginas de fundo negro, uma com um rosto de mulher a emergir da obscuridade, a outra com dois textos que vou reproduzir, pois sintetizam o tema do “poeta obscuro”. O primeiro é uma citação de Oscar Wilde e diz que «O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível». O segundo é um pequeno texto assinado por Herberto. Corre na Imprensa a notícia de que as suas crónicas e reportagens em Angola vão ser publicadas em livro este mês, facto que me dá imensa satisfação, depois de ter alertado, no meu segundo livro sobre o poeta, A obra ao rubro de Herberto Helder,  que esses materiais eram importantes e deviam ser estudados, sobretudo na relação que estabelecem com a poesia, quer por serem textos híbridos, em que o poeta ultrapassa os limites da norma jornalística, quer porque assuntos jornalísticos migraram para a poesia e para Photomaton & Vox. Exemplo do primeiro caso, em que o autor vai além da norma jornalística, é o belo texto que passo a citar na íntegra, sobre a exposição de Ed Guimarães:

De fotografia nada sei, a não ser a inquietante proposta dessa coisa mítica: parar o tempo num pequeno espaço e garantir-lhe uma ambição de eternidade. Mas quem pode garantir não ser ficção o cinetismo da realidade? É dentro de nós que as imagens correm. Mas o caçador chega ao mundo de fora e diz: Pára! – e tudo pára. Temos um momento visual escolhido pela atenção comovida, o espanto cuidadoso, o alarme fascinado. Na película impressionada fica a conjunção do sujeito com o objecto, síntese de um lapso da “história”, acabado de nascer e já votado às várias mortes das coisas todas.

Eduardo Guimarães é um caçador desses instantes. Vai para os lugares onde pessoas e coisas estão a aparecer e desaparecer com aquela velocidade que se sabe. Diz: Parem! E elas param. Depois, claro, aqui está a exposição.

Herberto Helder

Este texto é um poema mais do que a noticiosa apresentação de uma exposição de fotografia. Bastam dois factos para o comprovar: o texto é tão misterioso como o rosto da mulher fotografada por Ed Guimarães que emerge da sombra, e falta nele aquela informação tão óbvia que me obrigou a ir ao FaceBook perguntar a Ed Guimarães se acaso se lembrava do título da exposição. Ele só se lembrou porque eu digitalizei as duas páginas e reeditei-as no Triplov: África tal e qual  (11).

O mistério é o das coisas visíveis, como diz Oscar Wilde. Dir-se-ia que existe em Herberto Helder um défice de realidade, por comparação com o redemoinho de imagens e emoções que lhe habitam o coração. Photomaton & Vox é disso exemplo. O livro é africano em boa medida, construído com memórias pessoais e da revista Notícia, porém a supressão de referências torna difícil de ver a circunstância geográfica. A edição surge em 1979, ele deixara Angola em 1973.  A falta de referências é um dos fatores que criam o mistério, afinal elas são conhecimento; sem essa luz, o texto fica mergulhado na sombra. O tenebrismo e a técnica do claro/escuro não são monopólio dos pintores. Acendo um holofote sobre a sequência de curtas narrativas que em Photomaton & Vox formam o título «(o humor em quotidiano negro)», ao citar um texto assinado por L.B., Luís Bernardes, isto é, Herberto Helder, ilustrado com uma fotografia de António Cruz, intitulada «As cidades são anónimas», coligido na revista Notícia. A crónica intitula-se «O caso dos comedores de orelhas» (12), é demasiado extensa para a transcrever na íntegra, por isso cito apenas as primeiras frases e a última:

Em Santos (Brasil), um cobrador de autocarro, depois de perturbar a atenção de um passageiro com uma pancada do fura-bilhetes no meio da cabeça, devorou-lhe deliciadamente toda a orelha esquerda. Em Hiroxima, cidade japonesa célebre à custa da boa-vontade dos americanos ao deitarem-lhe para cima a bomba atómica, um comprador de selos foi vertiginosamente impelido a roer cerca de metade de uma orelha de outro comprador de selos, que se encontrava à sua frente, numa bicha dos Correios […]

– Porque há gente que gosta tanto de comer orelhas?»

Quem faz a pergunta é a Esfinge, e nós ficamos a saber a que se deve boa parte do mistério na obra herbertiana: faz perguntas quem quer saber, aquele que ignora ou não compreende.


Conclusão:  Não sei, não compreendo nada

O enigma da Esfinge começa logo às portas de Tebas, isto é, no título do livro, Photomaton & Vox, uma expressão que parece escrita numa estranha língua antiga; depois, a obscurecer ainda mais a autobiografia, vem o quadro de Magritte escolhido para a capa. É um quadro surrealista, com algo impossível na realidade física, ao mostrar um homem de costas que se vê ao espelho onde devia estar o seu rosto e não está, pois o que a imagem revela é sempre o homem de costas voltadas para nós; e o enigma acentua-se num dos primeiros textos, “(Photomaton)”, quando o poeta declara “Não compreendo nada”, referindo-se à sua própria biografia. Ele apresenta retratos, as suas vozes, e este tema das vozes é muito difícil, apresenta-os como enunciados da adivinha. Porém, diferentemente de Édipo, Herberto Helder não sabe a resposta, não compreende a sua realidade nem a correspondente ao meio ambiente. Por vezes, na poesia, ignora a fronteira entre o self e o mundo exterior, para mencionarmos de novo António Damásio. Então, a obscuridade herbertiana, antes de o ser para os outros, é obscuridade para si mesmo.

A ele, Herberto, acusavam-no de ser obscuro e hermético. Em Photomaton & Vox ele refere aqueles que lhe pediam que fosse mais claro, e dedica ao assunto o texto «(escrita pouco inocente)», da qual se pode concluir que todos os poetas são claros e todos os poetas são obscuros. Não interessa tanto o ponto de vista filosófico sobre a questão, sim a quantidade imensa de referências que o poeta faz ao assunto, os textos que lhe dedica, a reiterada aspiração, que em «(escrita pouco inocente)» vem logo na terceira linha:

No livro do imaginário, a lua é verde de morrer, as cadeiras brancas, e a terra amarela começa a dormir – gosto dos poetas obscuros.

Não há poetas obscuros.

E a mim, que escrevi Herberto Helder, poeta obscuro (13), acusam-me de ter inventado o poeta obscuro. De facto, como ele acaba de escrever, «Não há poetas obscuros». Quando suplica, n’ Os passos em volta: “Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro!”, ele não é um poeta obscuro, pelo menos não o é para sempre, é um poeta claro. Se fosse obscuro, não precisava de pedir nada a Deus. Mas ele não pede só a obscuridade, ele pede-a para sempre, donde tem consciência de haver intermitências no estado, fases de claridade temporárias. O poeta trabalha em geral com materiais próprios do espaço e tempo sagrados. É nessa perspetiva que se dimensiona a Esfinge, com o correlato mito de Édipo. Luz e treva desde sempre foram metáforas de conhecimento e ignorância. Herberto Helder também é um poeta obscuro porque lhe falta a luz do conhecimento. Afinal a Esfinge não se define só pela adivinha, pelo querer saber quem é capaz de achar a chave para ela. A Esfinge define-se pelo discurso interrogativo, pela problematização de si e do mundo. A obra de Herberto Helder está cheia de perguntas e declarações de ignorância, em geral sobre si mesmo, pois o maior enigma diz respeito à autognose: o poeta quer conhecer-se, porém a tarefa não é fácil. Ignoro se conseguiu, sei é que tudo é enigma para ele, e por isso vou terminar citando «(uma ilha em sketches)», texto no qual até as lagartixas são enigmáticas, e eu sou de opinião que sim, pois a espécie outrora chamada Lacerta dughesi não devia existir na ilha, mas está lá, na ilha da Madeira e na de Porto Santo, e aos milhares. Ilha em forma de cão sentado, esta, esculpida como a Esfinge na orla do Nilo, a sondar na água o que é próprio dela, e o que afinal é próprio dos poetas obscuros:

A cabeça do cão continua virada para as águas. Ninguém presume o que vê ou sabe. É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão. Apenas intrigante. Está ali. Está inclinada para o abismo da água, para os enigmas. 


Referências

(1) Herberto Helder – Photomaton & Vox. Lisboa, Assírio & Alvim, 1979.

(2) António Damásio – O sentimento de si. Lisboa, Círculo de Leitores, 2013.

(3) Herberto Helder – «Eu apareci acidentalmente vivo». Notícia, Luanda, 18 de setembro de 1971.

(4) Manuel de Castro – «Hormonas para Sísifo – VII». Notícia, Luanda, 18 de setembro de 1971.

(5) Herberto Helder – «Poeta obscuro». In: Os passos em volta. Lisboa, Editorial Estampa, 1970.

(6) Herberto Helder – «O futebol ainda é mais incógnito quando se defrontam onze mulheres de cada lado». Notícia, Luanda, 7 de junho de 1972. Assinado Luís Bernardes. Fotos de Joaquim Cabral.

(7) Herberto Helder  – “Antropofagias”. Ofício cantante – Poesia completa. Lisboa, Assírio & Alvim, 2008.

(8) Herberto Helder – «Vida de ver». Notícia, Luanda, 22 de maio de 1971. Assinado Luís Bernardes. Fotografias de Eduardo Guimarães.

(9) Maria Estela Guedes  – A obra ao rubro de Herberto Helder. São Paulo, Escrituras, 2010.

(10) Herberto Helder – Letra aberta. Porto Editora, 2016.

(11) Eduardo Guimarães & Herberto Helder – Uma exposição de fotografia de Ed Guimarães. Editado no Triplov em 1 de março de 2018:

http://triplov.com/uma-exposicao-de-fotografia-de-ed-guimaraes/

(12) Herberto Helder – «O caso dos comedores de orelhas». Notícia, Luanda, 24 de Junho de 1972. Assinado L.B..

 (13) Maria Estela Guedes – Herberto Helder, poeta obscuro. Lisboa, Moraes Editores, 1979.

*** O texto «Este lugar não existe …» figura em  ‘Apresentação do Rosto’ («Os Ritmos», pp. 105-108) e em ‘Vocação Animal’ («Festas do Crime», pp. 41-45).  Informação de Manuel Luís Gaspar.

****Havia um homem que corria pelo orvalho dentro – o filme de Ernesto de Sousa não é interpretado por Herberto Helder. Segundo Isabel Alves, é um pequeno filme de 5 minutos, mudo, interpretado pelo ator João Luís (?), com cenário natural da serra de Sintra, ao longe.